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Sociedade

Especial - 50 anos do golpe

O golpe visto pelos secundaristas de Poços de Caldas

por Luis Nassif publicado 05/04/2014 05h43
Poucos ousavam resistir ao macartismo que se instalou. E esses heróis da resistência tornaram-se para sempre nossas referências

Quando o golpe aconteceu, morava em Poços de Caldas e com 13 anos, meu apelido ainda era Lacerdinha, influência de meu avô Issa Sarraf, correligionário e amigo de Carlos Lacerda.

Nos anos imediatamente anteriores, as Semanas do Estudante da cidade cativavam a rapaziada local. A rigor, havia três grupos se digladiando: o do Colégio do Arinos, da Maçonaria, de jovens comunistas e trabalhistas; a parcela poçoscaldense dos Colégios Marista e São Domingos, ligados à esquerda católica; e um grupo restrito de internos do Marista, a maioria filhos de famílias abastadas de São Paulo, e o Lacerdinha aqui, com 12, 13 anos.

Bebíamos Brasil, debatíamos reforma agrária, reformas de base, nordeste. E nossos ídolos eram Lacerda, Brizola. Julião, JK, Bilac Pinto. O sonho maior era promover um debate entre Lacerda e Brizola. À esquerda e à direita, era uma geração se preparando para fazer o País avançar.

Os ecos da disputa ideológica chegavam até Poços por vários meios.

Meu avô me encaminhava a revista Ação Democrática, bancada pelo IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática). Mais liberal, meu pai me passava a revista Política & Negócios.

De Belo Horizonte, vinha um jornalzinho católico extraordinariamente reacionário. Mas a grande voz da direita era mesmo O Cruzeiro e seu principal colunista, David Nasser.

Do lado da esquerda, havia o Brasil Urgente, do frei Josaphat, que teve vida curta. Última Hora não chegava até lá.

Em Poços, a Igreja Católica tinha dois campos opostos. Os maristas, extremamente conservadores; as dominicanas, um oásis no acolhimento de jovens.

No Colégio São Domingos, das freirinhas, havia as reuniões do GGN (Grupo Gente Nova), dominado pela esquerda católica da JEC (Juventude Estudantil Católica).

O GGN surgiu em Belo Horizonte, criado pelo padre Maia, jesuíta conservador, mas apropriado pelas freirinhas do Colégio Sion, que lhe deram uma feição progressista. Uma das militantes era a estudante Dilma Rousseff. Chegou a Poços através das freirinhas do São Domingos e em pouco tempo foi dominado pelos quadros da JEC (Juventude Estudantil Católica).

Discutíamos política, a encíclica Mater et Magistra, amávamos João XXIII, às quartas-feiras tínhamos um bailinho (brincadeira, como se chamava na época) e, aos domingos, ação social na favela do Serrote, distribuindo alimentos fornecidos pela Cáritas norte-americana.

Nas férias, o Colégio São Domingos recebia os seminaristas dominicanos de São Paulo, liderados por frei João Batista, já marcado por ter liderado os trabalhadores de uma fábrica de móveis quebrada, a Formaespaço, assumindo a direção com um modelo de autogestão que recuperou a empresa.

Assim como nos dias de hoje, qualquer desculpa valia para enormes manifestações contra o comunismo e para a exacerbação do ódio. Uma charge de Otávio (do Notícias Populares) com a cara de Pelé em uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, uma charge de Millôr Fernandes sobre o dia da criação, tudo era motivo para marchas indignadas e uma estratégia sistemática de atribuir a responsabilidade ao governo.

Pouco antes do golpe, Poços teve sua Marcha da Família com Deus Pela Liberdade. O grande estimulador era um pastor norte-americano, Padre Peyton, empenhado em uma "cruzada moral".

Quando veio o golpe, eu tinha 13 anos incompletos, quase 14. Durante algumas semanas mantive minha posição de "lacerdinha".

Mas a revisão veio rapidamente. Um ou dois meses depois entrei na JEC impressionado, de um lado, com as notícias de espancamento de estudantes, prisões, casos de tortura. De outro, pelo clima que se espalhou pela região. As discussões acesas, porém amigas, entre esquerda e direita, muitas vezes terminando nos bancos dos jardins da cidade, foram substituídas por um pesado clima de delação.

Os comunistas amigos fugiram da cidade. Sumiram Gerinho, Zé Caé, o dono da funerária, o eletricista Sebastião Trindade, todos nossos adversários amigos comunistas. E corriam histórias de que Juarez Távora, amigo da família, distribuíra metralhadoras entre os fazendeiros locais.

O pior do caráter humano emergiu em pessoas que, pouco antes, pareciam cidadãos dignos e de boa paz. E esse clima se espalhava por todo o País. Na vizinha São João da Boa Vista, os dois líderes do PTB – prefeito Miguel Jorge e seu irmão Durval Jorge – foram expulsos da cidade por fazendeiros armados com metralhadoras do Exército.

Poucos ousavam resistir ao macartismo que se instalou. E esses heróis da resistência tornaram-se para sempre nossas referências.

Em Poços, o grande líder foi o jovem advogado Arthur de Mendonça Chaves Filho, cujo pai era do PTB. Destemido, com uma oratória poderosa, contrapunha-se à canalhice dos delatores. Morreu duas semanas atrás.

Nos anos seguintes, a ditadura foi se aprofundando.

Em 1967 ou 1968 houve um encontro da UNE (União Nacional dos Estudantes) em um convento dominicano em São Paulo. A bancada de Minas passou por Poços e ficou hospedada na casa do tio Léo e na nossa. Em meio a uma rapaziada esfuziante, imprudente até, a figura mais madura era do jovem Edgar da Matta Machado.

No ano seguinte, a prima Rosa foi presa no Congresso da UNE em Ibiúna. Pouco tempo depois recrudesceu a repressão e estourou a guerrilha.

Certo dia apareceu por Poços o Leozinho, nosso primo carioca, sobrinho do tio Leo, filho de um militar falecido. Tinha 17 ou 18 anos, chegou com uma bala nas costas e passou algum tempo escondido, até se restabelecer. Poderia ter se tornado grande liderança política. Morreu em Paris, exilado, sem bandeiras, em uma greve de fome em favor da paz mundial.

Matta Machado foi morto no Recife. O doce frei Tito, que, na copa da casa do tio Léo, por tantas noites encantou a família com sua prosa amena, enlouqueceu e se matou.  Os colegas mais velhos, que seguiram antes para São Paulo, terminaram presos ou exilados.

Livrei-me da fase brava inicial por ser mais novo e devido ao Tiro de Guerra que me segurou na região até 1969. Mas as nuvens cinzentas da ditadura espalhavam-se por todos os poros sociais do País e chegavam também ao interior.

Em 1967 musiquei uma peça de teatro de um amigo, aluno de História na PUC de Campinas. Foi censurada e gerou uma passeata no centro da cidade até o pátio da PUC. Ah, a PUC, de dom Amaury Castanho, conservador, reacionário e digno, quando colocou-se na porta da universidade e impediu a entrada do Exército para prender seus estudantes.

Em outros festivais, tive uma música censurada devido ao título As curvas da Marquesa de Santos. Doutra feita, censurado em um Festival da Tupi devido ao termo "bengala gala" - um censor erudito descobriu que, no nordeste, gala é esperma de galo.

Na Feira Permanente da Música Popular, na TV Tupi, foi censurada parte da letra de meu parceiro João Jurity, que falava em senhor K. Nem adiantou explicar que era um personagem de Kafka. A censura disse que era propaganda subliminar de Kubistcheck e obrigou a trocar para Senhor F. E não éramos nada: apenas jovens compositores do interior.

Em 1968 houve um momento inesquecível em São João da Boa Vista - onde fui estudar a partir do 2º científico -, na campanha de Durval Nicolau, pelo MDB, contra três candidatos da Arena. A campanha foi conduzida por estudantes secundaristas e por militantes trabalhistas e comunistas da cidade.

Terminada a apuração, Durval foi vencedor com cerca de 50 votos a mais que a soma dos concorrentes. Festejávamos na praça quando, pela rádio local, soubemos que a policia tinha fechado o Palmeiras - onde ocorria a apuração - para uma recontagem dos votos. A Arena venceu por 7 votos de diferença. E nem havia para quem reclamar.

No meu último ano de interior, 1969, montamos um grupo de teatro em São João da Boa Vista e levamos "Liberdade, Liberdade", de Millôr Fernandes e Flávio Rangel. Excursionamos por Uberaba e outras cidades.

No final do ano, com o Tiro de Guerra já encerrado, fui procurado por vários colegas atiradores, com um recado do Sargento Mignoni: "Não apareça em São João da Boa Vista pois estão te preparando uma armadilha".

Um sanjoanense, do CCC (Comando de Caça aos Comunistas), aluno do Largo São Francisco e que havia participado da invasão do teatro Ruth Escobar, delatara nosso grupo de teatro para o Segundo Exército. Mandaram militares da inteligência para São João. A diretora da escola, dona Adélia, prudentemente livrou os sanjoaneses da fria - o Ercílio, o Paulinho Salomão, o Ricci, Erimilio, rapaziada de 15 a vinte e poucos anos - e jogou as responsabilidades nos ombros do poçoscaldense.

Como morava em Minas, encaminharam as denúncias para a delegacia de polícia e para o tenente Hélio. O delegado Honório e o próprio tenente Hélio correram na Farmácia Central para alertar meu pai para não permitir que eu passasse por São João. " Estão querendo aprontar uma armadilha para seu filho", foi o alerta, o mesmo trazido pelos colegas de Tiro.

No ano seguinte estava em São Paulo. Agora, gritos e sussurros, torturas e assassinatos se multiplicavam, mas sem incomodar a paz dos cemitérios da opinião pública.

*Jornalista econômico e editor do site www.advivo.com.br/luisnassif, Luis Nassif é também colunista de CartaCapital. Seu relato faz parte de uma série de depoimentos para o especial dos 50 anos do golpe