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Entrevista

O gargalo do Ensino Superior brasileiro

por Fernando Vives — publicado 27/04/2011 09h59, última modificação 27/04/2011 12h00
A alta evasão, causada principalmente pela falta de recursos, emperra do desenvolvimento do País, diz Oscar Hipólito. Por Fernando Vives
O gargalo do Ensino Superior brasileiro

A alta evasão, causada principalmente pela falta de recursos, emperra o desenvolvimento do País, diz Oscar Hipólito. A Fernando Vives. Foto: Masao Goto Filho

A evasão de estudantes do Ensino Superior é um dos principais problemas da educação brasileira e causou um prejuízo estimado em 9 bilhões de reais na economia do País somente em 2009. Esses são alguns dos dados analisados pelo pesquisador Oscar Hipólito, ligado ao Instituto Lobo, por meio do Censo que o Ministério da Educação (MEC) realiza anualmente com as instituições de Ensino Superior no Brasil.

Segundo os números do MEC, 896.455 estudantes abandonaram a universidade entre 2008 e 2009, o que representa 20,9% dos alunos no Ensino Superior no momento, em média – ou seja, um em cada cinco alunos. Esse número já foi maior, mas ainda está muito além do que preza um bom projeto de Ensino Superior nacional. “Toda a macroeconomia é afetada com isso, pois não tem gente formada para movimentar o sistema. Com isso, acarreta a falta de desenvolvimento científico e tecnológico, e sem tecnologia própria você não tem um país desenvolvido”, diz Hipólito.

Formado em Física pela Unesp, Oscar Hipólito fez doutorado na USP de São Carlos e pós-doutorado na Universidade de San Diego, Estados Unidos. Chegou a ser chefe do Departamento de Física da própria USP e há dez anos juntou-se ao Instituto Lobo, uma instituição sem fins lucrativos que visa coletar e analisar dados sobre a educação do Brasil.
A partir da questão da evasão escolar no Brasil, Carta na Escola conversou- com Oscar Hipólito sobre o aumento da participação das classes C e D no Ensino Superior, países que são exemplos de combate à desistência e sobre o gargalo do financiamento estudantil.

Carta na Escola: Como é feito o cálculo dos índices de desistência de estudantes do Ensino Superior no Brasil?
Oscar Hipólito:
Foi feito sobre o Censo anual de 2009 do MEC – o Instituto Lobo tem dados desde 2000. As instituições preenchem os dados de um Censo on-line do MEC que é encaminhado ao próprio Ministério. O MEC, portanto, os contextualiza e publica.

CE: Mas não é possível que esses dados sejam manipulados por instituições que pretendam esconder deficiências?
OH:
Até é possível, mas os dados depois ficam inconsistentes e o MEC vai perceber. E aí tem a auditoria, o que é o pior dos mundos para a universidade em questão. Por exemplo, se uma instituição declara que tem 700 professores e 60 mil alunos, é possível perceber de antemão que o dado está errado. Não é possível ter tanto aluno assim por professor. Aliás, uma dificuldade que temos no Brasil, de maneira geral, é ter histórico de dados não só na área educacional. Quando você não mantém isso, é difícil tirar conclusões.

CE: Os dados indicam que há um número muito alto de desistências nos cursos superiores do Brasil?
OH:
Sim, é bem grande. Em 2004, 47% dos alunos que entraram em 1999 concluíram o curso em quatro anos (tempo médio de duração dos cursos). Em 2003, foram 51%. Depois caiu para 47%. Este é um cálculo grosseiro, pois há cursos de três e outros de cinco anos, mas por meio dele dá para perceber a tendência. Isso é um desperdício violento. Imagine uma máquina de parafuso: você programa para fazer cem por determinado período de tempo, mas ela só faz 47. Há todo um investimento feito que gera um custo que é desperdiçado. É este o cenário da educação brasileira no momento.

CE: Economicamente, o que esses índices de desistência podem acarretar?
OH:
Há, além do desperdício de 9 bilhões de reais somente em 2009, também uma perda de arrecadação no PIB. A macroeconomia é afetada, pois não tem gente formada para movimentar o sistema econômico como deveria. Com isso, acarreta a falta de desenvolvimento científico e tecnológico, e sem tecnologia você não torna um país desenvolvido. Existe um ciclo vicioso que começa pela educação. A educação sozinha não resolve os problemas do País, mas sem educação de qualidade o Brasil continua sem resolver os seus principais problemas.

CE: Existe algum estudo sobre cursos de maior evasão de estudantes?
OH:
Os últimos dados que tenho disso são de 2008, e eles apontavam um alto índice de desistência nos cursos ligados à computação – Ciências da Computação, sobretudo. O problema é que muitos estudantes fazem uma ideia equivocada desses cursos. Nos primeiros anos, se deparam com cálculos pesados e outras coisas não muito palatáveis e que demandam dedicação. Outros altos índices de desistência têm os cursos que entraram “na moda” nos últimos anos, como turismo, hotelaria e cursos que não têm um foco claro. Outros cursos com alta desistência são os de formação de professores, por causa dos baixos salários e más condições da carreira.

CE: Qual a relação entre os altos índices de desistência e a má qualidade da Educação Básica média?
OH:
Existe uma relação clara. Os cursos mais disputados têm vazão muito baixa – Medicina, por exemplo, tem 4%, em média, porque o processo de seleção é muito concorrido. Outro dado que mostra isso: de maneira geral, as desistências ocorrem mais no ensino privado que no público – isso porque é muito mais complicado passar num vestibular de instituição estadual ou federal do que na maioria das faculdades privadas. Em 2009, havia mais de 1,6 mil vagas no Ensino Superior que não foram preenchidas. Ou seja, havia vagas, mas o aluno que passou acabou não fazendo a matrícula. Em uma faculdade como essa, o processo de seleção praticamente não existe.

CE: Considerando que muitas dessas universidades têm como foco os estudantes das classes C e D, há uma relação direta entre o aumento da inadimplência e a ascensão social dessas classes?
OH:
Exatamente. É comum que alunos que venham das classes mais baixas não tenham recursos para custear a própria formação no Ensino Superior. Embora, às vezes, pareça que a conta vá fechar no fim do mês, há muita coisa relacionada com a própria manutenção no curso, como transporte, alimentação, livros etc. Um dos maiores gargalos do Ensino Superior é a dificuldade de o estudante permanecer no curso por causa do dinheiro. E isso em um contexto de 16 milhões de vagas ociosas no Ensino Superior brasileiro. Aí cabe uma ação do governo.

CE: Onde o governo erra, portanto? Que papel caberia a ele?
OH:
Veja, para colocar e manter o aluno no Ensino Superior, o governo precisa de políticas de longo prazo. Algo como um financiamento similar ao da casa própria, de 20 a 30 anos, o qual o estudante pode pagar depois de formado. O Brasil tem experiências similares (ProUni), mas não com prazos tão grandes. O principal problema para um aluno da classe C ou D é que muitas vezes ele tem potencial, mas não tem recursos. Se você pedir um avalista a um estudante pobre, ele não vai conseguir, porque normalmente as pessoas próximas dele são da mesma situação social. Então quem tem de ser esse avalista? O governo. O raciocínio é este: quando ele se formar, vai receber um salário maior e vai poder pagar o resto da vida pela faculdade que fez. E veja como não é um problema tão grande: ao financiar esse rapaz, o governo investe num primeiro momento, mas tende a ganhar nas próximas gerações, pois forma um círculo:- quem se formou financia quem está na faculdade no momento. Tudo passa pela questão do investimento: educação é prioridade, então deve haver o recurso para ela, mesmo em crise. Educação não é um produto barato em nenhum lugar do mundo, pois requer investimentos contínuos. Com isso, precisa ter metas, avaliações e um sistema de gestão de ensino, de sala de aula, de professores etc.

CE: Existem exemplos de combate de evasão bem-sucedidos no exterior? E de financiamento estudantil?
OH:
Os EUA são modelo no combate. Os índices por lá também não são baixos, há aluno que entra mal preparado, por exemplo. Mas eles trabalham bem a evasão, possuem estudos sistemáticos há muitos anos. Além disso, existem programas de nivelamento para o aluno que entrou defasado, o que é muito útil. Japão, Finlândia, Suécia e vários outros países da Europa são referência. Na América Latina, o Chile tem um sistema educacional bem desenvolvido. E o sistema de financiamento lá é ótimo, trabalha a longo prazo.

CE: Qual o papel da escola básica e de Ensino Médio na evasão do Ensino -Superior?
OH:
Os alunos pouco sabem a respeito das carreiras, por incrível que pareça. E não tem ninguém, mesmo nas universidades, já com o aluno matriculado, que conte como é o curso, quando vai ser a prática. Então, o estudante chega com pouca formação e sem noção da empregabilidade, quais são as dificuldades, qual o background que ele deveria ter.

CE: O Instituto Lobo recomenda que as instituições de Ensino Superior desenvolvam um programa de combate à evasão. Como funcionaria isso? Há precedentes?
OH:
Uma ou outra faculdade tem um programa que desenvolve algo nessa linha, mas não existe uma continuidade. São fatos isolados. E isso não pode ser tarefa de uma curso dentro da faculdade – é a instituição toda que tem de organizar, iniciativa que deve partir da reitoria e envolver todas as áreas. Imagine um aluno que vai todo dia no banheiro da instituição e nunca encontra papel higiênico. Isso passa a ele uma impressão de local malcuidado, ele não se sente bem naquele ambiente. Então, a questão vai da linha de ensino da instituição até as pequenas coisas. Outra coisa que os reitores devem ter na cabeça: a maioria dos alunos que decidem evadir-se, quando perguntada pela instituição sobre o motivo, responde: problemas financeiros. Muitas vezes não é, mas eles respondem porque sabem que a faculdade nem sequer vai argumentar, pois não quer alunos inadimplentes. Mas eles estão de saco cheio. Para recupe-rar esses alunos, o esforço é tão grande que dificilmente vai ser possível. As escolas gastam com marketing entre 4% e 6%, mas não gastam nada para segurar os alunos. Primeiro têm de segurar, depois correr atrás de novos alunos.

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