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O Destemido

por Ana Vargas — publicado 08/02/2011 10h23, última modificação 08/02/2011 18h00
As aventuras do húngaro Mihály Oláh, que rodou o mundo e aos 100 anos virou personagem de HQ. Por Ana Vargas. Foto: Erika Fernanda Silva
O Destemido

As aventuras do húngaro Mihály Oláh, que rodou o mundo e aos 100 anos virou personagem de HQ. Por Ana Vargas. Foto: Erika Fernanda Silva

As aventuras do húngaro Mihály Oláh, que rodou o mundo e aos 100 anos virou personagem de HQ

Esqueça aqueles heróis de impossíveis missões “roliudianas” ou que tenham nomes fáceis de guardar, como James ou Peter. Esse é real, tem um nome complicado e, aos 100 anos, mora no interior de Minas Gerais. Ele rodou o mundo, escreveu um livro e virou tema de uma história em quadrinhos que movimentou ilustradores de todo o Brasil. Mihály Oláh é uma das poucas pessoas “de verdade” que tiveram o privilégio de se tornar um cativante personagem de história em quadrinhos.
A vida de Mihály (pronuncia-se Mirrái) é tão impressionante que não surpreende que tenha se tornado uma HQ, e sim que esse centenário senhor possua uma memória tão fantástica – seria um dos seus superpoderes? – e cative todos que se disponham a ouvir suas peripécias. Como tema de uma envolvente saga, suas alegrias e tristezas se tornaram matéria-prima para uma personagem apropriadamente batizada como “Destemido”.
Foi dessa maneira inusitada, mas, prin cipalmente, por agregar em sua personalidade qualidades relacionadas aos heróis, como coragem, destemor e valentia, que Mihály, nascido em 1910 em uma fazenda da Hungria, transcendeu sua humanidade e se tornou um tema artístico.
Na apresentação da HQ Destemido não faltam palavras que expressam o que Joseph Campbell identificou como os vários aspectos que construiriam um herói. A vida de Mihály, tal como se apresenta na HQ, é composta de estágios semelhantes àqueles que o estudioso definiu como “a jornada do herói”. Há o “mundo normal”, a vida na fazenda húngara; o chamado à aventura, a Segunda Guerra Mundial; a recusa ao chamado, a contragosto Mihály é obrigado a se alistar no Exército; entre outras fases.
A biografia de Mihály seria igual à de tantos outros homens nascidos no começo do século passado, não fosse a Segunda Guerra Mundial e todas as transformações que ocorreriam a partir de então. Da infância vivida em uma fazenda em Békéscsaba, condado húngaro, ele se lembra do quanto gostava de passear em um “mar dourado de trigo” ao lado do saudoso avô. Mas esse tempo idílico ficou para trás quando, numa Hungria já subjugada pelos nazistas, Mihály, então formado em Agronomia, ingressou no Exército.
Do tempo de aquartelado ele se lembra das humilhações impostas pelos nazistas diariamente: aqui começava sua jornada (ou seria via-crúcis?). Ele só não foi enforcado como tantos outros porque aprendera a desarmar bombas (o “curso”, na verdade, era uma prova mortal: aprendia-se a desarmá-las de olhos vendados). Tudo isso contribuiu para reforçar o caráter heroico deste velho senhor. A morte esteve sempre em seu encalço.
Em 1946, a Alemanha já perdera a guerra e os russos estavam no poder. Mihály não era prisioneiro, mas sua situação não era nada confortável. Como ex-informante dos aliados em Budapeste, sua vida continuava por um fio e era preciso sair logo do país. Foi assim que, sob pseudônimo, conseguiu embarcar em um trem para Viena. Daí em diante ele tornou-se um homem sem pátria, um marinheiro que viajaria por muitos mares e desembarcaria, em 1948, no Brasil.
Até então ele já havia sido agrônomo, cozinheiro, prisioneiro, informante, desarticulador de bombas, escrevera um artigo sobre sua fuga sensacional – que envolveu uma indômita partida de xadrez com um oficial russo – para a revista Seleções, publicada em 1956. Conhecera Nelson Mandela durante sua estada em uma prisão sul-africana (delito: namorar uma nativa no auge do Apartheid), mas ao chegar ao Brasil ele ainda agregaria outros ofícios à sua vasta jornada. Na década de 1980, por exemplo, Mihály desembarcaria em Serra Pelada, se tornaria um dos milhares de garimpeiros que escalavam imensas crateras em busca de ouro e conheceria um joalheiro judeu de nome H. Stern, que lhe daria dicas sobre como tratar o pó de ouro.
Essas são apenas algumas das histórias da longa jornada do húngaro Mihály, que hoje diz não querer provar nada com suas histórias. “Quero apenas contá-las porque tenho boa memória”. Mihály mora em Divinópolis (MG), pacata cidade do centro-oeste mineiro a 113 quilômetros de Belo Horizonte, num asilo pertencente à Sociedade São Vicente de Paulo. Perguntado sobre como foi parar lá, ele apenas diz: “Desde a guerra eu vago pelo mundo e se ainda tivesse forças nas pernas iria para outro lugar”.
Com uma memória que desafia o tempo, ele diz que de todas as pessoas que conheceu, de todas as mulheres que amou – porque, como todo herói que se preza, ele teve muitas – de tudo que viveu, enfim, a pessoa que mais o marcou foi seu avô. “Eu era o xodó dele, ele fazia tudo para mim. Na fazenda também ele era tudo, médico, padre e ladrão de mulher. Se não fosse pela guerra, eu teria vivido como meu avô, numa fazenda da Hungria.”
Mihály Oláh diz achar que Deus o fez errado, porque, como um Benjamim Button, personagem de F. Scott Fitzgerald que inspirou recentemente um filme com Brad Pitt, ele se sente cada vez mais forte com o passar dos anos. “Eu já estive com uma arma na boca disposto a acabar com minha vida, mas hoje quero viver, quero falar dos meus amores, porque também fui muito feliz, amei muito. Hoje, quanto mais velho fico, mais floresço.”
Ao receber nas mãos a HQ Destemido e rever em quadrinhos sua jornada, o velho herói sentiu-se recompensado. “Jamais havia imaginado que fariam algo assim sobre mim.”
O projeto da HQ
Aprofessora Eloisa Borges é a mentora do projeto que transformou o húngaro Mihály em épico dos quadrinhos. No prefácio da revista, ela diz ter se encantado por Mihály por meio do seu texto (transcrito por alunas de psicologia sob sua orientação, em um projeto que se converteria no livro Quatro Ideologias e um Destino). Professora de Psicologia Social da Fundação Educacional de Divinópolis (Funedi), Eloisa buscou recursos para transformar as memórias de Mihály em livro. “Quando li as primeiras transcrições do Quatro Ideologias, fiquei encantada. Era pura poesia.” Aprovado pela lei de incentivo à cultura, o projeto deslanchou com o apoio da Funedi.
O responsável por transformar as peripécias de Mihály em quadrinhos, coordenando uma equipe de dez ilustradores de todo o Brasil, foi o publicitário Dennis Oliveira. “Em 2008, quando o conheci pessoalmente, fiquei impressionado com a força de suas histórias, a lucidez diante da realidade e a visão de mundo perspicaz de um homem que esteve presente em circunstâncias épicas da história humana”, comenta Dennis.

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