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Sociedade

Especial - 50 anos do golpe

A estrutura que levou ao golpe segue intacta

por Luís Fernando Sousa — publicado 09/04/2014 05h31
Quase nada se evoluiu de lá para cá. Não houve ruptura de nossa sociedade. Os mesmos atores ocupam os mesmos lugares, diz capitão reformado do Exército

No dia 1° de abril de 1964 o Brasil foi vítima de um golpe de Estado que culminou com a deposição sumária do presidente João Goulart, eleito pelo povo. Hoje é de conhecimento público praticamente toda a manobra política-militar conduzida por uma ampla aliança de setores da sociedade civil brasileira, da Igreja Católica, de praticamente toda a imprensa burguesa, e de uma cúpula militar com os estadunidenses, uma teia que oportunamente será melhor desvendada pela Comissão Nacional da Verdade, que está debruçada estudando documentos oficiais, ouvindo testemunhas e até solicitando a produção novos laudos cadavéricos, estes verídicos.

Para melhor entender o que aconteceu nesse dia e época temos de ampliar nossa apreciação para o que ocorreu nos demais países do América do Sul, que anos mais tarde, passaram pelo mesmíssimo problema. Ainda verificamos que o bombardeio ocorrido no Palácio de La Moneda, sede do governo chileno, no ano de 1973, também foi tentado no Palácio Piratini, sede do governo do Rio Grande do Sul, durante a Campanha da Legalidade promovida por Leonel Brizola, no ano de 1961. Tentou-se o mesmo modus operandi, frustrado por militares nacionalistas que esvaziaram os pneus dos caças na Base Aérea de Canoas, no Rio Grande do Sul.

Passou-se um longo período de obscurantismo, perseguições, desprezo às liberdades individuais e aos direitos dos cidadãos. Ainda, verificou-se a compra de apoio parlamentar e corrupção generalizada, não feita diretamente pelos generais-presidentes, mas como moeda de troca de apoio político para segurar uma panela de pressão do tamanho de um país continental. O filme Bonitinha, mas ordinária mostra em detalhes como a corrupção rolava solta no governo Geisel.

As relações pessoais e políticas que possibilitaram o golpe de Estado têm origens ainda na 2ª Guerra Mundial, quando o Brasil se aliou aos EUA para combater o nazi-fascismo. Naquela época, o futuro general-golpista Castelo Branco ocupava a função de oficial de ligação Brasil-EUA, que veio a conhecer o estadunidense Vernon Anthony Walters. Este, no ano de 1962, ainda dois anos antes do feito, fora nomeado adido militar da embaixada dos EUA no Brasil e participou das articulações que levaram ao golpe, mantendo contato com o embaixador Lincoln Gordon e com Castello Branco. Documentos oficiais mostram que esse adido militar estadunidense participou de toda a articulação que conduziu ao malfadado golpe.

Havia pensamento contrário a essa forma ilegal de combate ao comunismo, e os generais-legalistas foram vencidos pelos generais-golpistas. Autoridades como o general de Exército Perry Constant Beviláquia, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas; o general de Exército Nicolau Fico, chefe do Comando Militar de Brasília; o general de divisão Ladário Pereira Telles, comandante do 3° Exército (RS); o general de divisão Argemiro de Assis Brasil, chefe do Gabinete Militar da Presidência da República; bem como o vice-almirante Cândido Aragão, comandante do Corpo de Fuzileiros Navais, foram alguns exemplos de militares de alta patente que se opuseram ao levante militar.

A preparação do golpe começou alguns anos antes de 64, especialmente fruto da insatisfação da cúpula-militar em ver sargentos candidatos a cargo eletivo, o que à época era proibido. O Movimento dos Sargentos e dos Marinheiros buscava lutar por uma série de reivindicações dessas categorias, tais como: direito a ser votado, direito ao casamento, curso de aperfeiçoamento para todos e ainda as reivindicações eixadas com a aspiração popular como as reformas de base, incluindo-se a reforma agrária.

Verificou-se a ação da Igreja Católica, realizada através da denominada Cruzada do Rosário em Família, inclusive hoje sabida que tal forma de combate contava com o patrocínio da CIA. Esse grupo, liderado pelo padre Patrick Peiton, tinha sentido religioso - reunir as famílias pela oração - e político - pregar contra o comunismo. Foi a semente da Marcha da Família com Deus pela Liberdade.

Ainda, na preparação e condução do Levante Golpista, verificamos as consequências para um País que não estava ainda disposto a ter a democracia e a participação política dos militares. Ainda em 1959, tivemos o início da campanha do marechal Henrique Teixeira Lott, então Ministro da Guerra e candidato à presidência da República, o que levou a envolver os quartéis na disputa política, especialmente os subtenentes e sargentos, norteados pelo "nacionalista". Algo muito parecido, hoje, tentam alguns atores para construir uma candidatura do general Heleno à presidência da República, tentam formar um partido político composto por militares, porém não se vê apoio da categoria dos militares, pelo menos no nível que tal projeto necessita.

No início de maio de 1962, o ministro da Marinha, Almirante Silvio Mota, foi surpreendido pela fundação da Associação de Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil (AMFNB), cujo primeiro presidente era o marinheiro João Barbosa de Almeida. A citada autoridade ficou, assim, diante de uma entidade, existindo à revelia dos regulamentos militares.

Sob o pretexto de realizar atividades sociais, recreativas, assistenciais e culturais, a AMFNB, aquinhoada com verbas vultosas, passou também fazer política partidária. Chegou a possuir um representante, sob a denominação de "delegado da AMFNB", junto aos comandantes das unidades navais. Tal "fato provocou uma reação dos oficiais, a qual resultou na proibição das atividades desses "delegados”. Hoje percebemos diversas associações de militares, sem o lastro de associados, participando ativamente das discussões em torno de aumentos salariais e outros benefícios para os militares.

A Associação de Subtenentes e Sargentos da Polícia Militar do RJ (que optaram por serem servidores federais) convidou e conseguiu a presença de ninguém menos que o presidente da República para evento no clube. Na ocasião houve discursos que abalaram a hierarquia e a disciplina, a mídia foi usada pelos golpistas e, transmitindo o discurso ao vivo à “opinião pública”, ainda repercutida pelos grandes jornais e numa sinergia com a Igreja Católica, com o empresariado, com a sociedade rural do brasileira e outros, formando-se assim o “clamor popular” necessário para se agir.

Quase nada se evoluiu de lá para cá, a mesmíssima estrutura que fez o golpe militar de 64 permanece intacta. Não houve ruptura de nossa sociedade, os mesmos atores ocupam os mesmos lugares. Não há absolutamente nada a se comemorar nesses 50 anos da data de 1964, mas sim somente tomarmos todas as atitudes enquanto sociedade para mazelas como essa nunca mais voltem a acontecer em nosso País.

O golpe militar de 1964 destruiu ou minimamente freou por 20 ou 30 anos da cultura brasileira, a Tropicália, o cinema nacional, a MPB. A censura e o Dops chegaram a investigar nomes insuspeitos como Pelé e Oscar Niemeyer. Sumiço de papéis, falácias jogadas para debaixo do tapete, do próprio Exército, da Marinha e da Força Aérea Brasileira. Que todos possam constituir suas comissões da verdade, quiçá cada quartel desse País. Temos uma sujeira irremovível que o aparato militar fez contra o nosso povo e nosso País!

 

*Luís Fernando Sousa é capitão reformado do Exército. Seu relato é parte de uma série de artigos sobre os 50 anos do golpe de 1964 publicados pelo site de CartaCapital

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