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O conformismo mortal mata nossa criatividade

por The Observer — publicado 19/12/2013 05h58, última modificação 19/12/2013 06h47
A vida das pessoas seria mais satisfatória se elas tivessem mais liberdade no local de trabalho. Vamos fazer mais bagunça. Por The Observer
Stephen Lam / Getty Images North America / AFP
Correio

Funcionária do Serviço Postal dos EUA durante expediente

Por Henry Porter

Comecei a perceber a criatividade do gerente do café Pret a Manger, perto de minha casa, em Londres, depois de ele ter demonstrado uma gentileza extraordinária com uma mulher com síndrome de Down na faixa dos 20 anos. Bem, talvez isso não fosse tão notável, mas certamente foi natural e espontâneo, feito de uma maneira maravilhosa.

Depois de ser solicitada por sua cuidadora, a jovem limpou sua bandeja e jogou os restos na lata de lixo. Então ela viu uma barra energética de chocolate e fez um olhar suplicante para a cuidadora, que balançou a cabeça com ar sério – provavelmente foi a decisão certa, porque a moça estava um pouco acima do peso. O gerente saiu então de trás do balcão e lhe deu um grande e afetuoso abraço.

Foi comovente, e ela ficou claramente encantada, por isso peguei um cartão do suporte na parede e escrevi um bilhete para o executivo-chefe da Pret, dizendo-lhe que ele tem uma pérola entre seus funcionários.

A empresa me respondeu que daria ao gerente algum tipo de recompensa, e desde então sinto um prazer secreto por ser o agente invisível de uma pequena boa fortuna. No entanto, esta não é a história completa. O gerente, que não é britânico, como você pode ter deduzido por sua total falta de timidez, não para.

Dez dias atrás, encontrei-o no chão com duas dúzias de copos de papelão, tentando fazer uma árvore de Natal com os copos brancos e as tampas vermelhas. Devo dizer que não pareceu muito promissor, mas na outra vez em que entrei lá havia uma árvore de Natal feita totalmente de copos e tampas, e não estava nada feia.

Lembrei-me do homem da Pret na semana passada, quando ouvi o último relatório do Departamento Nacional de Estatísticas segundo o qual atualmente usamos apenas 15% de nossa inteligência durante o trabalho. Mais: o capital humano do país – uma combinação ligeiramente artificial de técnicas, conhecimento e aprendizado constante – caiu bastante em relação a cinco anos atrás. Parece haver um buraco na criatividade do país.

E o que o homem do café tem a ver com essa tendência? Bem, o modo como ele desempenha seu trabalho personifica vários dos requisitos necessários para a criatividade: confiança para experimentar, abertura e tempo para "brincar". Claramente, essa companhia permite que a personalidade dele se expresse, mas você pode imaginar as redes de café mais rígidas vendo sua incansável experimentação e sua boa vontade como um desafio, e talvez até uma ameaça à condução ordenada do negócio.

Duas semanas atrás, escrevi aqui sobre a dedicação dos britânicos a causas isoladas e que toda a originalidade com que estas são processadas deixa de se manifestar na vida política da nação. Parece que o mesmo vale para nossas vidas profissionais. É quase uma tragédia o fato de que, em média, as pessoas só precisem usar 15% de sua inteligência no trabalho – deprimente para cada um de nós, para a saúde econômica do país e para a sensação geral de bem-estar.

Poderíamos ser muito mais e ter vidas muito mais realizadas se começássemos a permitir que as pessoas sejam um pouco mais criativas no que fazem. Não estou falando sobre empresas da internet e agências de mídia, onde o ambiente criativo é uma prioridade, mas de todos aqueles escritórios entediantes em que trabalhamos, onde estruturas de poder, políticas, sexismo, medo, ortodoxia, pressão imaginária e regulamentos idiotas nos impedem de dar o máximo de nós, ou de nos tornarmos o que poderíamos ser.

Alguns meses atrás, estive em uma grande reunião com cerca de 25 pessoas, que depois de algumas horas produziu muito pouco. Estávamos todos ali pelo mesmo objetivo e acreditávamos na mesma coisa, mas alguns eram muito formais, outros tinham medo de falar abertamente ou mantinham uma posição defensiva para que pudessem consertar as coisas por e-mail mais tarde. Depois, um grupo foi para o bar. Estavam se divertindo, as inibições caíram e as ideias começaram a fluir. Isso aconteceu porque não havia hierarquias; ninguém estava defendendo sua posição; e, crucialmente, as pessoas escutavam com respeito e incentivo. O momento de ouro geralmente é rápido, especialmente em um bar, mas esse tipo de troca aberta, em que ninguém domina e o cinismo padrão da vida britânica está ausente, pode ser extremamente criativo, além de divertido.

A brincadeira e a falta de pressão são vitais. Quando escrevo uma novela (atividade muito supervalorizada como agradável e romântica, aliás), sempre chego a um ponto em que penso que o livro é uma besteira total. O truque, quando isso acontece, é levar menos a sério o que você está fazendo e reconhecer que uma novela a menos no mundo não vai fazer grande diferença. Você está ali para se divertir e espera que isso seja transmitido ao leitor.

Então você tira os olhos da tela um pouco, dá um passeio, encontra amigos ou simplesmente brinca. Eu brinco com alguns insetos mecânicos que espero que um dia vão se acasalar e ter bebês. Richard Feynman, o carismático físico e um dos grandes professores e pensadores dos últimos cem anos, descansava sua mente da profunda deliberação fazendo desenho vivo, lendo trabalhos de biologia e tocando bongô.

Mais cedo do que tarde, o subconsciente, que foi deixado para pensar no problema à sua própria maneira, produz a coisa que você quer, ou que nem sabia que estava lá. E isso se aplica a grupos de pessoas descontraídas, que estão brincando mas talvez também estejam um pouco concentradas, e a engenhosidade sobe do subconsciente e as pessoas falam a ideia antes que soubessem que a tinham – a ideia que nasce dos lábios, como disse Samuel Pepys.

Existem inúmeros vídeos inspiradores sobre criatividade na internet, como a palestra TED de Elizabeth Gilbert em 2009, a de sir Ken Robinson em 2006 e a excelente palestra de John Cleese 20 anos atrás. Todas elas chegam à mesma conclusão sobre a importância de brincar, a ausência de medo do fracasso, abertura e descontração.

Eu acrescentaria a estas a qualidade que meu amigo e fundador da Charter 88 e da openDemocracy, Anthony Barnett, enfatiza: a generosidade de espírito. E isso nos traz de volta ao gerente da Pret a Manger, que, acredito, não seria tão criativo se não fosse tão generoso e bondoso.

Aonde isso nos leva? Bem, além de incentivar as apreciadas condições de criatividade no local de trabalho, talvez precisemos compreender que as estruturas para tomar decisões e fazer as coisas avançarem não são as mesmas que deveríamos usar para encontrar inovação e aproveitar ao máximo os 85% inexplorados de nossa inteligência. O poder e as hierarquias são inimigos da criatividade.

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