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Sociedade

Entrevista

O calo de Ricardo Teixeira

por Fernando Vives — publicado 18/07/2011 15h57, última modificação 19/07/2011 19h56
Juca Kfouri, o jornalista mais processado pelo chefão da CBF, fala sobre a organização da Copa do Mundo, prevê mudanças na estrutura da Fifa e reserva críticas ao ex-presidente Lula. A Fernando Vives
O calo de Ricardo Teixeira

Juca Kfouri, o jornalista mais processado pelo chefão da CBF, fala sobre a organização da Copa do Mundo e prevê mudanças na estrutura da Fifa. A Fernando Vives. Foto: Olga Vlahou

Não são poucos os jornalistas odiados por Ricardo Teixeira. Mas certamente Juca Kfouri é o principal deles. Com 61 anos, o paulistano que escreve para a Folha de S.Paulo, o portal UOL e é comentarista dos canais ESPN já absorveu ao seu cotidiano o hábito de receber processos do chefão da CBF: são mais de 50 desde os anos 1990. “Dele eu não deixo passar nada”, disse Teixeira sobre Kfouri em seu polêmico perfil publicado na revista Piauí de julho.

O poder acumulado por Teixeira como presidente da CBF e do COL (Comitê Organizador da Copa 2014), para Kfouri, não levou o cartola a cair nas graças da presidenta Dilma Rousseff. “Eu sei e ele sabe que a Dilma não nutre por ele nenhuma simpatia.”

Nesta entrevista, o jornalista lamenta que os jogadores de futebol estejam virando “astros de rock”, fala de sua mágoa com o ex-presidente Lula, prevê mudanças na estrutura da Fifa, mas não na cartolagem brasileira, e diz que, apesar de ter condições para sediar a Copa, o Brasil hoje se tornou uma “festa das empreiteiras e das grandes agências de propaganda”, dada a megalomania do evento.

CartaCapital: O senhor já foi processado quantas vezes por Ricardo Teixeira?

Juca Kfouri: Mais de 50, pelas contas dele mesmo. Perdi duas, ganhei umas 35 e deve haver umas 10 ou 12 em andamento. Semana passada chegaram três. Se eu escrever que ele virou um sessentão bem apessoado, ele me processa dizendo que estou sugerindo que ele seja gay.

CC: Como define o presidente da CBF?

JK: Eu o avalio como um paraquedista cujo sogro (João Havelange, ex-presidente- da Fifa) o colocou à frente da entidade e que tem sabido jogar de acordo com as regras do jogo para se manter no poder há 22 anos. E o teremos, no mínimo, até 2015.

CC: E como vê a condução da organização da Copa pelo governo brasileiro e Teixeira no Comitê Organizador?

JK: Na França, o presidente do comitê organizador da Copa de 1998 não era o presidente da federação local. Era Michel Platini, então o maior jogador da história do futebol francês. A Copa 2006 da Alemanha foi comanda por Franz Beckenbauer. Será que no Brasil não temos um nome que seja internacionalmente respeitado para o cargo? Tem de ser o mesmo que preside a CBF, que, além do mais, coloca no comitê a própria filha como secretária-executiva-, o seu advogado como diretor jurídico e o seu homem de imprensa como o homem de imprensa no COL? Não pode ser um Gerdau, um Antonio Ermírio de Moraes, um Moreira Sales?

CC: E por que o governo mantém essa situação?

JK: O governo é conivente e refém. Lula foi o presidente que assinou o Estatuto do Torcedor e a Lei de Moralização do Esporte, generosamente, diga-se, porque foram leis aprovadas na gestão Fernando Henrique Cardoso. Quando assinou essa lei, Lula declarou que nunca mais veríamos o jornalista Juca Kfouri dizer que o torcedor é tratado como gado. Eu, aos 52 anos de idade e sem direito à ingenuidade, saí do evento em Brasília esmurrando o ar de alegria dentro do táxi rumo ao aeroporto. Elegeram o cara que gosta de esporte e não gosta deles, eu pensava. Seis meses depois, ele e Teixeira estavam de braços dados fazendo aquele jogo do Brasil contra o Haiti.

CC: Teixeira e o presidente da Fifa, Joseph Blatter, gostam de dizer que a Fifa é uma entidade privada e que, portanto, não deve satisfações a ninguém sobre o que acontece em seus domínios...

JK: A CBF é uma instituição mista, privada, mas de interesse público, e isso está consagrado na Constituição Brasileira. Tanto que o futebol é considerado patrimônio cultural do Brasil e submetido ao escrutínio do Ministério Público. Esse argumento foi usado para tentar evitar que se instalassem aquelas duas CPIs (da CBF e da Nike), argumentando que uma entidade privada não poderia ser investigada pelo Congresso Nacional. Então não pode haver uma CPI dos bancos no Brasil? Eles se utilizam do argumento da autonomia das entidades esportivas. É uma autonomia semelhante à que existe na universidade brasileira – e nem por isso as universidades estão acima da lei. É uma absoluta convicção de impunidade.

CC: A que se deve esse poder absoluto de Teixeira? Mesmo com tantas denúncias, com duas CPIs no encalço, ele segue sem sinais de fadiga...

JK: É impressionante mesmo. Ele tem a Copa nas mãos para administrar, mas acho que anda menos senhor de si: a presidenta Dilma Rousseff não o recebe e isso evidentemente deve -incomodá-lo. Eu sei e ele sabe que ela não nutre por Teixeira nenhuma simpatia. Agora, como diz o (jornalista britânico) Andrew Jennings, o governo brasileiro tem uma grande chance de pôr o Itamaraty como interessado na questão da Fifa na Suíça. Porque se esse documento vier a público provando que Teixeira e João Havelange receberam mesmo propina da ISL (empresa suíça de marketing esportivo que negociava direitos da transmissão para a Fifa), o caso muda de figura. Como alguém que teria pago multa e devolvido o dinheiro da propina, e, portanto, confessado, pode organizar uma Copa do Mundo? O governo brasileiro tem o direito de ir à Justiça suíça pedir para quebrar o sigilo. Até para não divulgar, mas para que possa tomar uma atitude.

CC: A Fifa também argumenta, na Suíça, que ninguém tem nada com seus problemas, e sempre teve alguma conivência das autoridades locais. Dá pra confiar na Justiça suíça?

JK: A Suíça tem má fama justamente por ter sofrido por muito tempo daquele sentimento de ser um paraíso fiscal, o que tem mudado nos últimos anos por conta da pressão internacional contra o tráfico de armas e de -drogas. O COI, por exemplo, já tratou de fazer uma depuração depois dos escândalos- da compra de votos para as Olimpíadas de Inverno de Salt Lake City. E a Fifa- parece que caminha para isso também. Depois desse golpe que tomou dos ingleses, não tenha dúvida: a Fifa nunca mais será igual. Vai ter de passar por um processo de depuração. A Fifa não será mais a mesma após sua eleição presidencial, ao ponto de David Cameron (premier britânico) dizer que o pleito da Fifa é uma farsa.

CC: O Brasil pode mesmo sediar uma Copa do Mundo?

JK: É evidente que o Brasil pode fazer uma Copa do Mundo. A África do Sul fez, por que não o Brasil? Agora, podemos fazer a Copa do Mundo do Brasil e não a Copa do Mundo da Alemanha no Brasil. Os alemães têm uma economia que absorveu as obras de grande impacto. Nós temos outras prioridades. O escárnio que simboliza isso é o que acontece em São Paulo. Como dizer que um estádio como o Morumbi não pode ser o estádio de uma cidade que vai sediar um evento de um mês com seis ou sete jogos? Não é o estádio ideal, mas é o estádio possível. Com as reformas que seriam feitas, dá para ser sede. O mais rico país do mundo, os Estados Unidos, não construiu nenhum estádio para a Copa de 1994, só adaptaram estádios de beisebol e futebol americano. Não há o que justifique São Paulo ter um estádio novo para a Copa, assim como Brasília, Cuiabá e Manaus. Estamos fazendo a festa das empreiteiras e das grandes agências de propaganda.

CC: O senhor é abertamente corintiano. Como está vendo essa imposição do estádio do Corinthians, o Itaquerão, como estádio paulistano para o Mundial?

JK: Não faz nenhum sentido o Corinthians receber incentivo para ter o seu estádio. “Ah, mas o São Paulo também teve para conseguir o Morumbi.” Um erro não justifica o outro. E quando se diz que esse dinheiro é para construir um polo de desenvolvimento para uma região pobre da cidade, eu argumento com a opinião de urbanistas de várias partes do mundo que dizem que não é verdade que uma arena esportiva seja fator de progresso. O exemplo prático é o Soccer City, de Soweto, principal estádio da África do Sul. E tem o Engenhão, no Rio, construído para o Pan 2007. O bairro do Engenho não ganhou nada de novo no entorno. Esse argumento é uma demagogia, uma mentira.

CC: O senhor vê algum clube no Brasil que tem algum indício de mudança nesse paradigma de bagunça do futebol nacional?

JK: Não, não vejo. Por exemplo: você tem um sujeito aparentemente diferenciado como o presidente do Santos (Luís Álvaro Ribeiro) e o vê apaixonado pelo Teixeira. Não há nenhum sinal de mudança por aqui, tem mais mudança na Fifa que no Brasil. Telê Santana já dizia que o futebol não é para gente séria.

CC: O esporte hoje é, sobretudo, uma questão de negócios. Você considera esse fato saudável?

JK: Acho que passou um pouco do limite. Infelizmente o capitalismo ganhou, é uma marcha inexorável. Agora, o esporte mais popular do mundo está virando cada vez mais um esporte para gente rica. Os estádios estão virando estúdios pasteurizados. Sou a favor de conforto para o torcedor, mas isso está custando tão caro que afasta o cara simples que deu um colorido especial aos estádios. Excluí-los é dar um tiro no pé do futebol. Porque aí se fabricam esses caras que são cada vez menos boleiros e mais pop stars. Você tem cada vez menos Sócrates e Zicos e cada vez mais o cantor de rock. Cobrir hoje Copa do Mundo é cada vez mais como cobrir um show de rock.

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