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Artigo / Roberto Amaral

O Brasil e os contrastes do novo milênio

por Roberto Amaral publicado 26/03/2014 14h18, última modificação 26/03/2014 14h21
Possuímos uma base científica relevante, mas somos retardatários na produção de tecnologia e, principalmente, na introdução de inovações. Por Roberto Amaral
David Lankford/Flickr
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Possuímos uma base científica relevante, mas somos retardatários na produção de tecnologia e, principalmente, na introdução de inovações

O século XX foi marcado pela disjuntiva que separava os países entre desenvolvidos (os industrializados) e subdesenvolvidos, categoria a que pertencíamos até inventarem o termo ‘emergentes’. No terceiro milênio, a polaridade se revela entre países produtores e países importadores de tecnologia - condenados, estes, condenados ao exílio na civilização tecnotrônica. São os novos 'condenados da Terra’, para lembrar Fanon.

Para além dos regimes econômicos, para além das crises do capitalismo onipotente, para além dos jogos das potências militares, é esta a nova polaridade, porque determinada pelo desenvolvimento científico de cada país, porque este é o que determina o desenvolvimento nos seus diversos níveis e transforma potências econômicas em potências militares, determinando, por fim, a nova geopolítica e a distribuição do poder em todo o planeta:  novos senhores e novos vassalos, novos alinhamentos e novos conflitos.

Uma vez mais a humanidade se vê estancada  em  blocos, antípodas. De um lado o mundo da ciência, da tecnologia e da inovação, dominante; de outro, o mundo dos dependentes de tecnologia. De um lado os países ricos e poderosos; de outro, os novos e irrecuperáveis subdesenvolvidos. Entre uns e outros, um fosso intransponível no horizonte de nossos tempos.

A  revolução tecnológica é o resultado do acúmulo histórico. Conquista da humanidade em seu ininterrupto processo civilizatório,  ela produz, porém,  em nossos dias, consequências certamente ainda mais profundas do que aquelas herdadas da revolução industrial, a quem devemos a arquitetura do mundo moderno e a sociedade de massas, posto que nos últimos 70 anos o Homem adquiriu mais conhecimentos do que em toda a sua História pregressa.  Como a revolução industrial ao seu tempo, a  tecnológica revolverá conhecimentos e crenças, destruirá verdades ‘científicas’ solidamente estabelecidas, construirá valores, conceitos, doutrinas e ideologias. Já alterou nossas vidas individuais e a vida dos povos e das nações, como já alterou a correlação de forças internacionais. E está na raiz do fim da polaridade EUA x URSS.

Mas seguirá veloz, dando poucas oportunidades de recuperação àqueles que não puderem acompanhar seu ritmo. Esse trem não voltará a estações passadas para resgatar  passageiros atrasados.

Nosso país tem pouco tempo para decidir-se pelo mundo em que sua gente, detestada pela classe dominante,  deverá viver. Quem não produz sua própria tecnologia estará condenado  a depender da tecnologia dos outros, que não está à venda nas gôndolas dos supermercados. E essa dependência tem o custo econômico que conhecemos – a começar pelo peso no balanço de pagamentos –, custo com o qual todos somos obrigados a arcar. Se no plano interno ela dificulta o equilíbrio econômico, no externo ela reduz a competitividade da economia brasileira e nos faz um país fundamentalmente primário-exportador.

Possuímos uma base científica relevante, mas somos retardatários na produção de tecnologia e, principalmente, na introdução de inovações.

A chave, claro está, é a Educação. A afirmação é um truísmo que virou lugar comum em dissertações, teses, artigos, discursos, programas de governo e tudo o mais. E, como virou clichê, carimbo de retórica, perdeu valor, perdeu sentido, perdeu força, enquanto a educação reclamada se degrada.

Os números depõem contra nós.

Um dos indicadores do desenvolvimento de um país é o número de artigos científicos publicados em revistas de referência. Em 2011 nossos cientistas publicaram 49.819 artigos. Colegas nossos nos BRICS, a Índia publicou 88.136 e a China, 377.630. Estes números nos ajudam a entender, suponho, porque o Brasil exporta minério de ferro para China e dela importa trens. A inovação, produto da decantação tecnológica, é curialmente  medida pelo número de pedidos de patentes de invenção junto ao Escritório Americano de Marcas e Patentes (USPTO, na sigla em inglês). Ainda os números dos nossos colegas dos BRICS: em 2012 a Índia registrou 5.663 pedidos; a China 13.273 e o Brasil, 679. Haverá de residir, aí, a explicação para o fato de o Brasil não ter marcas internacionais. Há 60 montadoras de veículos automotores no país, nenhuma nativa. O Brasil é o maior produtor de café (em grão…) do mundo, mas a Alemanha é a maior exportadora de café solúvel, ao lado da Suíça, e as máquinas que coam nosso café, na verdade agora o espresso, são italianas.  Ora, se não investimos em pesquisa e desenvolvimento, como pensar em inovação tecnológica?

O Brasil necessita de 800 mil engenheiros.  Mas em  2010,  apenas 5,8% dos graduandos (59.506) eram alunos de engenharia.  Também em 2010, na Rússia, os formandos em engenharia representavam 22% (454.436) do total. Nas áreas de ciências, matemática e computação, sendo as engenharias o coração da produção tecnológica, o disparate é  igual. Enquanto em 2010 formamos 55.860 profissionais, a Rússia, em 2009, havia formado 125.881. A Coreia, com seus 49 milhões de habitantes (o Brasil já ultrapassou os 200 milhões), forma 80 mil engenheiros por ano.

O próximo governo, além de manter e ampliar o  ‘Mais médicos’ (nossa carência atual, Segundo o MS,  é de de ter mais 168.424 médicos; Só na cidade de São Paulo, segundo a Prefeitura, há um déficit de 2,4 mil médicos. ) terá de  criar o ‘Mais engenheiros’‘Mais matemáticos’ e assim por diante.

Com uma população de quase 200 milhões de habitantes, formamos (2011) 45 mil engenheiros, quando precisamos de 70 a 95 mil engenheiros por ano, algo como  2,48 engenheiros por 100 mil habitantes. Os EUA formam 9,5 engenheiros por grupo de 100 habitantes, a China 13,8 e o Japão 17.

Formamos pouco, e formamos mal.

O Programa Internacional de Avaliação de Estudantes-PISA, apura o desempenho de estudantes de 15 anos de todo o mundo em leitura, matemática e ciências . Na edição de 2009, o Brasil empacou no 57º lugar! Na Coreia, 51,8% dos alunos de matematica foram classificados no nivel 4, no Canadá 43,3% e na China nada menos de 71,2% dos alunos.

Em compensação, nos últimos 20 anos, o número de faculdades de direito, no Brasil, saltou de 200 para 1.260. Porém… no ‘Exame da Ordem’ deste ano   89,7%  dos bacharéis foram reprovados.

Talvez o leitor encontre nesses números a explicação para o fato de, na segunda década do terceiro milênio, 40% das exportações brasileiras serem commodities primárias, de baixo ou nenhum valor agregado, grãos, carnes e minérios. Somente 18% de nossas atuais exportações são produtos de média e alta intensidade tecnológica.

Claro, nada ocorre por acaso. Muitas devem ser as explicações para um atraso que pode comprometer nosso futuro. Uma dessas razões certamente decore de nosso modelo de desenvolvimento vindo dos anos 50, fundado no tripé empresa privada nacional, empresas multinacionais e empresas estatais, estas induzindo o crescimento e ‘protegendo’ a empresa nacional em sua concorrência com as empresas estrangeiras. Naquele então como agora, no Brasil e no mundo, as multinacionais  investem e muito em tecnologia e inovação, mas em suas matrizes. E quase sempre a tecnologia aqui empregada, onde mais uma vez a indústria automobilística (relembremos ‘as carroças’…) é paradigma, era/é atrasada, superada ou obsoleta. A empresa nacional, cingida em sua grande maioria ao mercado interno, não tinha estímulo, ou necessidade, ou cultura, ou capital disponível para o risco, para inovar ou dominar tecnologia. Assim, preferiu e ainda prefere pagar royalties. A produção tecnológica ficou ao encargo das estatais, mas essas foram, em sua maioria, alienadas nos anos do neoliberalismo e da privataria do tucanato.

Assim, ainda hoje o capital privado, no Brasil, qualquer que seja sua origem, não investe em ciência, tecnologia ou inovação. Por isso mesmo não necessita de engenheiros, matemáticos e pesquisadores em geral. Se não há demanda por engenheiros, não há, por óbvio, jovens interessados nas engenharias.

Nos EUA, 80% dos pesquisadores trabalham em empresas privadas e apenas 15% em instituições de ensino. Na Coreia e no Japão, são 75% em empresas privadas. Esse percentual não chega, no Brasil, a 27%. Nos EUA, 60% dos engenheiros com doutorado trabalham na iniciativa privada. No Brasil, apenas 2%.

Às tentativas de explicação de tanto insucesso, acrescentemos mais uma: a depredação de nosso ensino, em particular da escola pública, de primeiro e segundo graus. O ensino universitário, privatizado e mercantilizado, foge dos cursos de ciências e daquelas cadeiras cujo magistério requer altos investimentos. Se conhecimento gera conhecimento, a ignorância nada gera; se a educação gera o conhecimento científico que gera tecnologia que gera inovação, a não-educação gera o atraso.

Mas já não somos nenhuma Malásia, nenhuma Bangladesh, onde o excedente de mão-de-obra desqualificada e barata está à espera da sobre-exploração. Nosso desafio são as fronteiras tecnológicas. Como vencê-lo, sem formar nossos técnicos? Como desenvolver um país capitalista cujos capitalistas evitam o investimento e optam pelo rentismo? Capitalistas que, avessos ao risco, não querem concorrer, e – cracas dos bancos oficiais – ficam a depender do financiamento público, de um Estado que satanizam?

Aonde esperamos chegar com esse modelo?

O Estado brasileiro, porém, nada obstante o fracasso da Educação, cerne de tudo, tem investido no esforço por produção tecnológica. A pesquisa cientifica no Brasil, ou bem é produto direto de estatais, ou decorre de financiamentos sem retorno a universidades privadas ou empresas e a pesquisadores individuais ou grupos de pesquisadores. O sucesso do agronegócio e da agricultura brasileira é um dos efeitos da EMBRAPA; o que temos na indústria aeronáutica (privatizada) é decorrência do sucesso tecnológico do ITA, como devemos à Marinha a pesquisa nuclear e ao Exército os avanços em cibernética. A pesquisa no Brasil depende de uma agência estatal, o CNPq – e a outra agência estatal, a FINEP, devemos o que tivermos feito em inovação, ainda que pouco. Não é preciso falar na contribuição da Petrobras, investindo em praticamente todos os cursos de engenharia do país, financiando mestrados e doutorados, produzindo ciência e tecnologia em seu CENPES e, finalmente, incorporando ao país as riquezas do pré-sal.

São êxitos que devemos reconhecer e exaltar.  Mas alguém acredita que esse desenvolvimento induzido pelo Estado, por si só, nos colocará à altura dos desafios tecnológicos que temos pela frente?

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