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Novo Alto da Sé de Olinda

por Celso Calheiros, de Recife — publicado 12/12/2010 15h26, última modificação 12/12/2010 15h26

O Alto da Sé em Olinda, em Pernambuco, está prestes a ver concluída uma longa fase de obras. O ponto privilegiado da cidade histórica ganhou um elevador panorâmico que possibilitará uma vista espetacular, o comércio informal está organizado e o passeio foi totalmente reformado. As calçadas têm cerâmicas e pedras novas, todo espaço é acessível a cadeirantes, a fiação foi totalmente embutida e os postes de cimentos darão vez a equipamentos mais adequados ao entorno.

De todas as novidades, o maior destaque é o elevador com paredes com vidro laminado que ascenderá o visitante 18 metros, direto a laje da caixa d’água de Olinda. Ele verá mais do que, em 1543, o português Duarte Coelho viu ao pronunciar “Oh! Linda situação para se construir uma vila” e fundar a cidade – pelo menos de acordo com a história mítica.

A visão que o terraço no alto da Caixa D’Água oferece é de tirar o fôlego. A proximidade com o litoral possibilita ver quatro praias com recorte delicado e mar verde. A prova de que o ponto é destacado está a poucos metros dali. O Farol de Olinda em seu prédio com 42 metros com listras pretas e brancas orienta os navegantes. Fica à vista as razões pelas quais a cidade é classificada pela Unesco como patrimônio cultural da humanidade. São ruas de pedra estreitas, casario histórico, quintais arborizados, monumentos tombados e edificações religiosas. Uma atrás da outra. No 1,2 quilômetro quadrado demarcados pelo Iphan como área de preservação rigorosa, estão as igrejas do Carmo, de São Pedro, do Bonfim, de Nossa Senhora de Guadalupe, de São João e da Conceição, todas mirando para a Igreja da Sé, no alto. O mosteiro de São Bento, o seminário de Olinda e o convento de Santa Teresa participam do conjunto de prédios católicos com a tradicional Academia Santa Gertrudes.

O elevador panorâmico será utilizado apenas para os visitantes subirem. A descida será pelas escadas, com a ajuda dos santos. Nos vãos livres do prédio, escadas de madeiras foram construídas. A área livre de cada andar abrigará exposições de artes plásticas e, ao se chegar ao térreo, um café ao ar livre. Embora a caixa d’água se pareça com um prédio caixão, a edificação é um marco da arquitetura moderna por utilizar cobogós, elementos de alvenaria vazados e uma invenção pernambucana.

O Alto da Sé também possui o Observatório Astronômico da Sé. Um marco no passeio atesta a primeira a observação da passagem do planeta Vênus pelo círculo solar feita pelo astrônomo Emanuel Liais, em 1860. O registro estava escondido, cercado por barracas de vendedores de artesanatos. Eles foram relocados para um mercado construído ao lado Escola de Samba Preto Velho, também com excelente vista para os telhados do sítio histórico e, ao longe, o porto e os prédios do Recife.

Até mesmo admiradores das belezas de Olinda se surpreendem com o Horto d’el Rey, outra paisagem desvendada pela requalificação do Alto da Sé. O horto é considerado o segundo jardim botânico mais antigo do país, criado em 1811, e os cerca de dois hectares de área estavam escondidos dos olhos dos que passeiam pela cidade por causa do antes caótico comércio informal direcionado aos turistas. A mesma situação ocorria com o cruzeiro.

Tantas iniciativas têm como objetivo criar um ambiente propício para o passeio pelo sítio histórico, conta a secretária de Patrimônio e Cultura de Olinda, Márcia Souto. As calçadas ficaram espaçosas e tradicionais vias foram liberadas. “Queremos que todos andem pelas nossas ruas”, planeja Márcia. Como reforço ao plano, a Prefeitura de Olinda iniciou a licitação de uma espécie de bonde sobre rodas que possibilitará subir e descer as íngremes ladeiras sem grandes esforços.

Todas as novidades procuram trazer de volta ao endereço o movimento que existia até o início dos anos 80, quando o Ministério Público Federal conseguiu impedir que ônibus de turismo subissem pelas estreitas vias de pedra. O movimento colocava em risco um conjunto arquitetônico que possui prédios do século 16. O vendedor de artesanato José da Silva do Nascimento, 50 anos, lembra dos tempos de boas vendas com saudades. “De lá para cá, o movimento caiu”, reclama, com autoridade de quem circula pelas ruas históricas, desde quando era menino e contador de histórias.

A atividade de contador de histórias, antes repleta de meninos que ganhavam seus cobres como guias, ficou no passado. A abordagem “quer que eu conte a história de Olinda” não existe mais. Os jovens e adultos (nenhuma criança) são cadastrados na Associação dos Condutores Nativos de Olinda (ACNO) e profissionais. O condutor Artur Guilherme, 17 anos, é um exemplo. História? “Só conto nos locais em que eu levo os turistas”, explica.

A tapioqueira Ladjane de Albuquerque, 43 anos, tem no seu cardápio os sinais dos novos tempos. A tradicional tapioca de coco ou de queijo são agora duas das várias opções que buscam atrair turistas interessados em novas variações regionais. “Os sabores mais pedidos são as tapiocas de carne de sol ou cartola”. A primeira utiliza carne curtida no sol desfiada. A segunda é uma variação de uma sobremesa tipicamente pernambucana e tem como recheio banana, coco, queijo coalho, leite condensado e canela. “É R$ 5”, anuncia.

As mudanças no Alto da Sé são parte de um calendário de atrações maior, lembrado pelo prefeito Renildo Calheiros (PCdoB), a cada evento. São atrações durante diferentes épocas do ano. Janeiro e fevereiro dispensam ideias, a alta estação e o carnaval atraem visitantes sem esforços extras. Durante a Semana Santa, a cidade é tomada por procissões e possui sua representação teatral da Paixão de Cristo.  Em setembro é a vez da Mimo (Mostra Internacional de Música em Olinda), que reúne música erudita e instrumental em concertos em igrejas, mosteiros e faculdades. Em novembro ocorre a Festa Literária Internacional do Pernambuco, a Fliporto. Em dezembro, é a vez do Olinda Arte por Toda Parte, um evento integrado por 76 ateliês e 231 artistas e artesãos que expõem em diferentes espaços, privados e públicos, pelas ruas olindenses. Um convite ao passeio a pé.