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Sociedade

Crônica

Nossos ídolos já não são mais os mesmos

por Matheus Pichonelli publicado 19/08/2013 15h33, última modificação 18/11/2014 21h52
Enquanto cientistas provam se o beijo foi de língua ou não, Almeidinha escreve a Feliciano e pede a cassação dos títulos do ex-ídolo
Agência Brasil
Feliciano

O deputado Marco Feliciano durante a votação, na Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara, do projeto de "cura gay"

Caro senhor Feliciano,

Escrevo ao senhor pela segunda vez em quatro meses. Na primeira oportunidade, dei os parabéns pelo trabalho do senhor à frente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, que antes mais parecia um esquenta da parada gay do que uma comissão séria como sempre deveria ser.

Desta vez, porém, escrevo para pedir socorro.

Como o senhor deve saber, a ditadura gayzista atingiu patamares nunca antes imaginados. Antes estava no submundo, ou em alguma reunião de bêbados em San Francisco. Hoje está em todo lugar. Existem religiosos gays. Professores gays. Deputados gays. Jornalistas gays. São formadores de opinião cuja opinião podemos combater na mesma moeda: trocando de igreja, de escola, de jornal ou trocando o voto. Era uma minoria barulhenta espalhada em cada canto do planeta, menos um: o futebol.

Sou boleiro das antigas. Gosto de assistir aos jogos do Brasileirão tomando cerveja, arrotando e coçando as partes íntimas. Poucos exercícios nesta vida me fazem me sentir mais homem do que assistir a uma partida de futebol, seja no estádio, seja em casa. Se o juiz erra um lance, nós o chamamos em coro de viado. Se o adversário erra o chute, chamamos de viado. Se nosso atacante erra o gol, chamamos de viado. É uma ofensa eficaz que constrange quem estiver na frente: não há barreira de raça ou cor da camisa.

Quando assisto às mesas redondas de futebol, ou meus programas esportivos favoritos, chego a perder o fôlego de tanto rir com os apresentadores, a maioria deles ex-jogadores que dançam, cantam e provocam a masculinidade da torcida, dos jogadores ou dos colegas de bancadas. Basta alguém aparecer com uma camisa cor-de-rosa para que o assunto dê a graça a um programa que preserva o humor acima de tudo.

É uma tal de tiração de sarro que às vezes até a apresentadora loira entra na brincadeira sem demonstrar qualquer irritação, como prova de que a patrulha do politicamente correto não tinha chegado ainda aos estádios e aos estúdios de programas esportivos.

Pelo rádio, muitas vezes, me divirto com as vinhetas com gritinhos histéricos toda vez que algum jogador cai de bunda no gramado ou arremessa a bola de um jeitinho esquisito, com pose de miss. Não tem uma transmissão ao vivo que o narrador não pergunta ao repórter de campo: “você já tomou picadura de penislongo?”. É uma alegria que só.

Outro dia, durante a comemoração de um campeonato, um repórter de campo perguntou ao jogador se naquele dia valeria tudo na festa do título. A resposta dele virou um mantra para todos os que fizeram do esporte uma porta corta-fogo contra qualquer invasão estranha: se você for da comunidade gay e tiver qualquer interesse em futebol, seu lugar não é aqui.

E assim estava tudo muito bem, obrigado.

Foi assim durante muito tempo. Há alguns anos, meu time atravessava um período de jejum. Quem ganhava tudo era o São Paulo. A gente não ligava: toda vez que eles levantavam a taça, fazíamos questão de frisar que eles eram, sim, campeões, mas tinham um jogador magrela que corria e falava de um jeito meio estranho, pra não falar outra coisa, e não negava a raça. Esfreguei na cara de todos os meus amigos a notícia de que aquele mesmo jogador havia soltado a franga em uma boate GLS. Entre 2005 e 2008, compensei com juros e correções a minha frustração com os títulos rivais lembrando o apelido da torcida: bambi, bicharada, lôcas. Não teve um dia que não compartilhei fotos de são-paulino encoxando são-paulino, de mãos dadas nas ruas, ou com a camisa do time no meio da parada gay.

Até que um dia eles entraram em crise e meu time voou para o topo. Conquistamos todos os títulos de forma honrada e sem viadagem. Me orgulhava por ter, do goleiro ao centroavante, homens de família brigando, correndo, levantando a taça. Mas eis que descubro, por uma foto publicada no Instagram, que nosso maior ídolo, heroi da grande final, beijou outro homem na boca. Enquanto cientistas de todas as áreas tentam descobrir se teve língua ou não, se teve sentimento ou não, a sensação de invasão de uma área até então superprotegida tomava conta.

Vergonha.

Revolta.

Decepção.

São muitas as palavras que definem este momento.

Por isso te escrevo. Escrevo para pedir que o título intercontinental, que esperamos 102 anos para conquistar, seja retirado da nossa sala de troféus. A taça está contaminada com batom. É como descobrir que o atleta jogou dopado.

No futebol, como na vida, não importa quanto tempo ficamos sem títulos. Importa o quanto nos esforçamos para sermos homens e dar o exemplo. Se o exemplo for este, prefiro voltar aos tempos de vacas magras: sem títulos, mas honrados.

E nossa honra foi violada. Nosso último bastião da honra. Não bastasse viver em um país onde terroristas chegam à presidência, onde filhos de ex-presidentes compram fazendas em Paris, onde por causa de vinte centavos meia dúzia de baderneiros fecha as ruas e impede os trabalhadores de circular, onde pagamos impostos suecos para receber serviços africanos, onde financiamos o ócio do povo que não quer trabalhar com bolsa esmola, onde nossos filhos perdem a vaga na universidade para o filho da empregada por causa do sistema de cotas, onde damos pensão a vagabundos e onde pagamos para os bandidos ficarem presos na mordomia ou soltos para afrontarem nossas famílias.

O que nos sobrava? O futebol. Mas hoje temos medo até de comemorar gol: até mesmo na bola, o ídolo que hoje você aplaude pode estar, na verdade, apenas levantando uma bandeira que nos levará à ruína e à destruição.

Até quando?

Conto com a sua sabedoria, a sua força e a sua coragem para tomar as atitudes necessárias para corrigir o rumo que estamos tomando, a começar pela aprovação da cura para este tipo de problema. A Rússia tem dado exemplos para todos nós neste quesito. Que a Yelena Isinbayeva sirva de inspiração a todos os que querem um mundo livre das ditaduras de comportamento ou manifestações públicas de afeto. A começar pelo esporte. É praticamente tudo o que nos resta, juntamente com a certeza de que em pelo menos um campo da existência poderemos praticar nossa hombridade sem risco de esbarrar a nossa masculinidade nas coxas da ditadura gay.

Conto com o senhor nesta luta.

Um abraço fraterno, e guardado em boa distância,

Almeidinha

 

Nota da Redação: Almeidinha é um personagem fictício. A crônica é só um apanhado de chavões e lugares-comuns espalhados todos os dias nas redes sociais que, conscientemente ou não, reforça preconceitos antigos na sociedade brasileira. Este texto é  uma forma de ironizar as manifestações de homofobia relatadas ao longo do dia por conta da polêmica envolvendo um beijo entre homens no mundo do futebol.