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Sociedade

Dia Mundial do Orgulho Gay

Nós somos a resistência!

por Jean Wyllys publicado 02/07/2013 09h30, última modificação 02/07/2013 09h34
Quando uma minoria tenta mexer nas peças do jogo que lhe oprime, os guardiães da ordem social mobilizam-se. Por Jean Wyllys
Fernando Frazão/Agência Brasil
Orgulho gay

Marcha pelo Dia Mundial do Orgulho LGBT reuniu centenas de pessoas no Rio em protesto contra a homofobia e o Projeto da Cura Gay

Confira o discurso feito pelo deputado Jean Wyllys na Comissão de Direitos Humanos do Senado mexicano durante o Dia Mundial do Orgulho Gay:

 

"Agradeço muito à senadora Angelica de La Peña e a Hector Salinas pelo convite para participar desta conversação sobre Direitos Humanos de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais na Comissão de Direitos Humanos (CDH) do Senado Mexicano e saúdo a todas as autoridades presentes nesta mesa e na plateia. Sinto-me muito prestigiado pelo fato de os senadores mexicanos empenhados na defesa e promoção dos DHs em seu país desejarem saber quais as minhas impressões e concepções sobre o tema e como tem sido minha atuação parlamentar em relação ao mesmo.

Fico feliz de a CDH do Senado Mexicano não ter expulsado do amplo guarda-chuva dos DHs os direitos da comunidade LGBT. Digo isso porque a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados Federais Brasileira, tomada por fundamentalistas religiosos, desprestigiada entre organismos e pessoas defensoras dos DHs e presidida por um deputado pastor evangélico homofóbico e intolerante, não só expulsou os direitos das minorias do guarda-chuva dos DHs, mas propõe projetos de lei que reduzem a dignidade das minorias, como, por exemplo, o projeto que legaliza terapias de reversão da homossexualidade - por isso mesmo apelidado projeto da "cura gay" - ao propor derrubar resolução do Conselho Federal de Psicologia que proíbe tais terapias.

E fico feliz de estar participando desta conversação no dia de hoje, 28 de junho. Hoje é o dia em que se comemora em todo mundo o Orgulho Gay ou o Orgulho LGBT. Porque foi num dia 28 de junho, há 44 anos, que aconteceu o levante do bar Stonewall, em Nova York, nos EUA. Gays, travestis e lésbicas, cansados das freqüentes humilhações e violências físicas por parte da polícia, reagiram em nome de sua dignidade, inaugurando uma nova fase do movimento homossexual, no rastro dos movimentos de contracultura do final dos anos 60 e início dos 70, como o feminista, o hippie e o de afirmação dos direitos civis dos negros.

Comemorar o levante de Stonewall é, portanto, mais que constituir uma mitologia para os homossexuais: é reafirmar as conquistas políticas e culturais feitas por aquela geração.

A herança dos anos 60 e 70 é bastante considerável e devemos defendê-la a qualquer preço contra todas as tentativas de retorno às situações anteriores. Contudo, o que nos surpreende é o fato de que essa herança, que afetou a situação das mulheres em geral e dos gays e transexuais, ao menos nas sociedades ocidentais, não tenha alterado, definitivamente, a estrutura mesma daquilo que o sociólogo Pierre Bourdieu chama de "dominação masculina". Devemos, portanto, refletir não somente sobre o que mudou a partir de Stonewall, mas também analisar o que permaneceu; o que não variou e denunciar as instituições que operam para perpetuar as ordens social e sexual, promovendo, em contrapartida, o orgulho que poderá desafiar política e culturalmente essa ordem.

Por que precisamos promover o orgulho LGBT?

Porque a sociedade define um lugar estigmatizado para os homossexuais e, por causa disso, eles são assim definidos coletivamente, seja qual for a maneira através da qual cada indivíduo pensa — aceita ou recusa — a sua relação com tal coletivo. Essa definição coletiva é feita, sobretudo e primeiramente, a partir do insulto que vitima "viados" e "sapatões" desde a mais tenra infância, quando se apresentam os primeiros sinais da "inversão", seja a da identidade de gênero (o menino que gosta de "coisas de meninas" e vice-versa), seja a da orientação sexual (o garoto que gosta de garotos em vez de garotas ou o contrário). Cada gay ou lésbica é, assim, e desde muito cedo, ao menos potencialmente, vítima do insulto em sua própria família, na rua, no local de trabalho, em todos os lugares onde se desenvolve sua vida.

E esse insulto aparece também sob a forma de estereótipos ridículos ou difamantes em jornais, na tevê e no cinema. Tudo isso forma o que o antropólogo Didier Eribon chama de “mundo de injúrias”, responsável pela estruturação da relação do homossexual com os outros e consigo mesmo (no caso da relação consigo, é praticamente impossível o homossexual não experimentar principalmente na adolescência um ódio ou vergonha de si; de seu desejo).

Ora, é justamente essa subjetividade (eu, caráter, identidade) insultada e inferiorizada que se deve superar por meio da afirmação de si; por meio da reinvenção da própria personalidade e da vida, num gesto pessoal e coletivo de desconstrução e ruptura das normas que nos inferiorizam.

Jean-Paul Sartre num livro de 1946 - "Reflexões sobre a questão judaica" - diz que é a sociedade antissemita que forja o ser judeu, e que este só tem como escolha aceitar o que é - o que ele chama de “judeu autêntico” – ou fugir ao que é na vergonha ou na negação de si mesmo (o que Sartre chama de “judeu inautêntico” ou "rebelde"). O mesmo vale para nós, LGBTs: é a ordem social homofóbica da cultura heteronormativa que nos impõe um status inferiorizado, o que determina profundamente nossa personalidade, mas também nossa identidade coletiva.

Logo, não temos outra escolha que não aceitar(-se) e se reapropriar positivamente dessa identidade forjada pela cultura homofóbica na qual nascemos e crescemos ou então vivê-la na vergonha e na dissimulação, frutos da homofobia internalizada. Ser uma lésbica, travesti ou gay "autêntico" ou "rebelde" é, portanto, sentir orgulho de si, daquilo que a cultura homofóbica fez de nós; de nosso desejo/afeto (orientação sexual) ou da maneira como nos percebemos e nos sentimos (identidade de gênero).

Creio que muitas coisas mudaram ao longo dos últimos anos, graças ao surgimento, em escala internacional, de um movimento LGBT que assumiu múltiplas formas. Aliás, o fato de eu, um deputado federal brasileiro, ter sido convidado a falar no Senado mexicano é a prova mesma desse movimento global e globalizado e de suas mudanças. Isso, porém, não fez, claro, desaparecer a homofobia; muito pelo contrário: quem gosta de - e se interessa pela - história da homossexualidade sabe que cada grande momento de afirmação homossexual e de reivindicação do direito à homossexualidade provocou uma reação homofóbica. Basta pensar na repressão da qual o escritor inglês Oscar Wilde foi vítima (ele cumpriu pena de prisão por "crime" de "sodomia") ou na recepção violenta da crítica literária francesa ao romance "Corydon", de André Gide: muitos críticos (se) perguntaram se ainda era possível se ser heterossexual depois da publicação de "Corydon".

Vejam só! A mesma pergunta é feita hoje por toda parte por causa do reconhecimento jurídico dos casamentos entre pessoas de mesmo sexo.

Sempre que uma minoria reivindica direitos ou tenta mexer em certas peças do jogo que lhe oprime e estigmatiza, os guardiães da ordem social - e que gozam de privilégios por conta dela - mobilizam-se para se oporem às transformações e ao progresso que a reivindicação da minoria pode trazer. E a mobilização mais frequente desses guardiães da "ordem e da moral" consiste em afirmar que as minorias estão impondo uma "ditadura" (quem já não ouviu estupidezes como a expressão "ditadura gay"?). Como se afirmar o direito à homossexualidade significasse impedir os heterossexuais de ser o que são... Essa mobilização reacionária é apenas a maneira pela qual os dominantes sempre defendem os próprios privilégios.

Por exemplo, foi a direita conservadora americana que forjou a expressão “politicamente correto” para combater os movimentos de afirmação dos direitos civis das minorias, sobretudo dos afro-americanos. Essa expressão teve pleno sucesso, pois aparentemente - e só aparentemente - defende o bom senso democrático contra os pretensos excessos de movimentos. Fez tanto sucesso que, no Brasil, os nossos reacionários hipócritas, sobretudo os que se escondem sob a máscara do "humor", também fazem uso dela.

Na verdade, a direita conservadora nos EUA, no Brasil, aqui no México ou em qualquer outro lugar não quer ver as hierarquias implícitas nos discursos, na cultura, no saber, na política - e que garantem e mantêm seus privilégios - serem questionadas!

No caso dos LGBTs, trata-se de mantê-los numa situação de inferioridade jurídica e social. Situação que eu me recuso a aceitar!

Não, não creio que estejamos nos dirigindo para uma sociedade melhor na qual a opressão exercida contra LGBTs desapareça por completo. Mas acredito que é possível construir espaços políticos, culturais e sociais de resistência a essa opressão. Esta conversação é um desses espaços. Meu mandato é um desses espaços. Como diz um compositor genial Caetano Veloso, "eu não espero pelo dia em que os homens concordem; apenas sei de diversas harmonias bonitas possíveis sem juízo final". Essas harmonias bonitas são resistência. Acredito em resistência. Nós somos resistência!"

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