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Não queime sem ler

Escritora distribui de graça 4 mil exemplares de seus livros que seriam destruídos pela editora. Por Fábio Fujita
por Fábio Fujita — publicado 18/01/2011 16:55, última modificação 19/01/2011 14:57
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Não queime sem ler

Escritora distribui de graça 4 mil exemplares de seus livros que seriam destruídos pela editora. Texto e foto: Fábio Fujita

Escritora distribui de graça 4 mil exemplares de seus livros que seriam destruídos pela editora

Num certo dia de abril do ano passado, a escritora paulistana Chantal Dalmass recebeu pelo correio uma carta registrada, cujo remetente era a Planeta, editora pela qual publicara, em 2005, dois livros: Mentiras e Confissões e A Cama Redonda de Maria Beatriz (este sob o pseudônimo de Maria Beatriz Soares). Tratava-se de uma notificação em que Chantal era informada que os exemplares restantes das duas obras, “por apresentarem um nível insatisfatório de rotação comercial, serão submetidos à destruição física, para saneamento de estoque”.

Ainda que os termos empregados no comunicado não dessem margem a dúvidas, Chantal achou por bem tirar a limpo. Ligou para a divisão de direitos autorais da editora e perguntou à responsável: “‘Destruição física’ é força de expressão ou é para valer?” Mesmo previsível, a resposta foi dura: “Os livros serão incinerados”, ouviu. Em números documentados, eram 2.062 exemplares do primeiro título (portanto, mais da metade da tiragem de 4 mil) e outros 1.654 do segundo programados para virar cinzas.

A autora não se conformou. Especulou- junto à editora destinação mais digna para os livros encalhados – talvez alguma venda promocional, um evento de aproximação com potenciais leitores, qualquer coisa que conseguisse dar visibilidade àqueles títulos legados ao pó das gavetas. Tudo em vão. “A ideia de queimar livro é uma coisa que me agride, me causa repulsa, fico indignada. Não importa se é meu livro ou de outra pessoa”, ela diz. Decidida a reaver os volumes, Chantal fez até uma proposta de compra. A editora decidiu que a autora poderia ficar com eles, desde que os retirasse no depósito da empresa até um determinado prazo. Chantal, a princípio, pensou em buscá-los numa Kombi. Mas, como se tratava de 75 caixas, ela se deu conta de que precisaria de um veículo maior. Fechou com uma transportadora, que pôs um caminhão para fazer o carreto – naturalmente, pago pela autora. “Economizei o fósforo para a editora”, ironiza. Chantal e o motorista só não evitaram a queima de algumas calorias para fazer chegar ao apartamento dela, no nono andar, as 2,8 toneladas de livros.

Os quase 4 mil exemplares comprometeram a decoração do apartamento e irritaram os dois territorialistas gatos pretos de Chantal, mas ainda havia outra etapa a se resolver, talvez até mais desafiadora do que a de salvar literatura de fogaréus inquisitórios: como desovar aquele montante de livros? No começo, a autora optou pelo conceito difundido como “livro livre”: o de “esquecer” exemplares, aleatória e anonimamente, em lugares públicos estratégicos, como nos bancos de uma praça, nos assentos do metrô, nos balcões de bares e padarias. “Mas isso pouco alterava o volume das caixas”, recorda. Ocorreu-lhe, então, a ideia de distribuir as obras em portas de cinema, num verdadeiro corpo a corpo com seus potenciais novos leitores. No geral, ela diz, a reação é de incredulidade. “Se as pessoas estão andando na rua e você chega e aborda, acham que você quer vender alguma coisa”, explica, sobre o comportamento viciado dos passantes. Muitos chegam a ser até hostis com ela, baseados numa alucinante lógica capitalista. “Já ouvi gente dizendo: ‘Ah, se está dando, é porque os livros devem ser uma droga. Nada que é bom é de graça’”, recorda Chantal, que prefere não abordar pessoas sozinhas, porque a desconfiança tende a ser maior (“só acreditam quando junta um bolinho de gente”).

Chantal Dalmass, que há alguns anos assinava uma coluna sobre sexo na revista masculina Vip, faz uma literatura, digamos, “afrodisíaca” – de relatos (biográficos ou não) sobre afeto, fetiches, libido – similar ao que propôs Bruna Surfistinha no best seller O Doce Veneno do Escorpião. Para Chantal, o encalhe de seus dois livros só aconteceu porque a editora Planeta não trabalhou de forma efetiva a divulgação das obras junto à mídia especializada. Garante não ter sido procurada para uma entrevista sequer, no ano de lançamento dos títulos. Também diz ter observado que os livros de autores desconhecidos só ficam à vista nas prateleiras das livrarias até o segundo mês depois do lançamento, quando passam a constar somente nos terminais de busca. “Publicam os livros de tiragem pequena e esperam um ou dois meses para ver se dão sorte de deslanchar”, teoriza. “Claro que não vende: como procurar um livro que você não sabe que existe? É como um gato preto no escuro.” Procurada pela reportagem, a Planeta optou por se manifestar por e-mail, em que diz ter feito, na época do lançamento, “as ações que entendia serem adequadas às obras, como divulgação via assessoria de imprensa e exposição em pontos de venda” – não confirmando nem negando a prática da destruição de livros encalhados.

Mesmo que as obras não tivessem entrado na mira dos fornos crematórios, mas permanecido no limbo dos depósitos, o efeito prático, crê Chantal, seria o mesmo. “Para um escritor, isso é morte em vida, é estar em coma, vegetando”, compara. Ela reconhece que tem sentido muito prazer em ver seus rebentos ganharem uma segunda chance a partir de sua esforçada iniciativa nas ruas, ainda que jamais imaginasse ter de fazer isso quando trocou a toga – é advogada de formação – pela carreira literária. Dos 3,7 mil exemplares, ela já repassou 3,2 mil até o dia 9 de janeiro, restando, portanto, cerca de 500. Seu principal ponto de distribuição está na feira da Praça Benedito Calixto, no bairro de Pinheiros, que acontece aos sábados. “É uma alegria ver os livros circulando de novo. Um vai ler, passar para o outro. Depois podem usar de papel de rascunho- – ou até queimar. Mas, por enquanto, ainda estão vivos”, festeja.

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