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Análise / Samantha Maia

Não é só pelos bailes funks

por Samantha Maia — publicado 14/01/2014 15h02, última modificação 15/01/2014 08h46
“Rolezinhos” surgem em meio a proibições na periferia; ao se verem discriminados, os meninos cheios de gírias e sonhos moldados pela ostentação criaram um debate sobre cidadania
Reprodução / TV Gazeta
Rolezinho

Correria durante "rolezinho" em shopping de SP

Em vez de manifestação, é encontro. No lugar da passeata, tem “rolezinho”. A mobilização de jovens da periferia de São Paulo em shoppings foi uma forma encontrada para chamar a atenção sobre a sua realidade. Faltava apenas a sanção do prefeito paulistano Fernando Haddad (PT) para que a proibição a bailes funks em logradouros públicos, independentemente do horário, entrasse em vigor na capital. O projeto - o primeiro de autoria do vereador Conte Lopes (PTB), ex-comandante da Rota - passou pela aprovação da Câmara sem grandes dificuldades em 2013. Parecia não existir oposição.

Eis que no dia 7 de dezembro daquele ano, o shopping Itaquera, na Zona Leste de São Paulo, foi surpreendido pela presença de cerca de 6 mil garotos e garotas do funk. Na página da organização do evento no Facebook, adolescentes na faixa dos 15 a 20 anos comentavam que era para "tirar umas fotos", "dar uns beijos", "rever os amigos". Não se sabe exatamente se a proibição aos bailes foi o verdadeiro estopim do movimento. O principal objetivo manifestado pelos milhares de jovens era se divertir.

O número elevado de pessoas causou tumulto. A presença massiva de garotos da periferia, em sua maioria negros, causou mal estar no centro comercial. Houve medo dos frequentadores diante de um grupo antes escondido nos rincões com suas músicas proibidas. A primeira notícia divulgada, a partir de fontes oficiais - leia-se, a polícia -, era de que se tratava de um arrastão. Na tevê, as cenas eram de correria. No pé das reportagens, a observação da administração do shopping passava batido: não houve arrastão e os furtos eram casos isolados.

A repercussão negativa levou os participantes do “rolezinho” a uma discussão para além do que o encontro pretendia. Dentre os questionamentos levantados pelos funkeiros nas redes sociais estavam o porquê não serem bem-vindos ao shopping. Por que a polícia agia de forma hostil sem que eles fizessem algo errado? Mais: como eles poderiam mostrar que tinham o direito de entrar no shopping?

Além de atentar para o problema mais premente, o da proibição do baile funk, a galera dos “rolezinhos” jogou luz sobre o preconceito de classe e o racismo na cidade de São Paulo.

A invasão do templo do consumo por habitantes de guetos é uma subversão da ordem higienista. Ao ocupar aquele espaço, ultrapassaram uma das barreiras mais sérias da estrutura social urbana nas grandes cidades brasileiras: a da segurança e da exclusividade de ser um consumidor em um shopping center.

Não faltaram xingamentos aos “rolezeiros”: bandidinhos, maloqueiros, vagabundos, gente que não tem mais o que fazer. Deveriam, segundo indignados frequentadores de shoppings, trabalhar e aprender a falar igual gente, dentre outras sugestões nada amigáveis. Muitos jovens já estão, no entanto, no mercado de trabalho, a desempenhar funções mal remuneradas, na base da pirâmide social.

Ao se verem discriminados, os meninos e meninas cheios de gírias e com sonhos moldados pela ostentação do consumo envolveram-se em um debate valioso sobre cidadania, seus direitos e seu papel na sociedade. Mesmo que sem perceber, faziam política. Como um dos inimigos apontados, surge a mídia, taxada pelos “rolezeiros” de “mentirosa” – que, segundo comentários de participantes nas redes sociais, estaria em busca da audiência a qualquer custo ao retratar os eventos de maneira pejorativa.

O tom dos encontros seguintes foi o de provar que não eram o que haviam pintado sobre eles. Um dos organizadores do segundo “rolezinho”, no shopping Internacional de Guarulhos, alertava para a situação desfavorável em seu perfil no Facebook: "Temos que manter a disciplina sem baderna, sem drogas, sem bebidas alcoólicas. Nós vamos pra curtir. Se quiser fazer essas coisas, não estará participando do encontro. Faça fora do shopping porque estão todos voltados a nós: a tevê e os jornais estão olhando pra nós. Se nós fizermos baderna não vamos ter moral para pedir nossos direitos e vamos ser passados como marginais". No “rolezinho” realizado no dia 14 de dezembro houve novamente confusão e 23 pessoas foram levadas até a delegacia sem justificativa.

Outros eventos semelhantes ocorreram sob a repressão policial e críticas da sociedade que não diferem das apontadas a outras manifestações. "A gente não tem mais sossego nem no shopping", disse uma dona de casa entrevistada.

A lógica é clara. Que as pessoas tenham problemas para resolver, finge-se entender, desde que não atrapalhem o trânsito ou o passeio no shopping.

No dia 8 de janeiro, o prefeito Haddad vetou na íntegra o projeto de lei que proíbe a utilização de vias públicas para realização de bailes funk. A decisão não apaziguou, porém, os ânimos e outros “rolezinhos” continuam em alta. Agora os jovens funkeiros querem mais espaços de lazer e respeito do seu direito de ir e vir. Como uma paródia dos 20 centavos da tarifa de ônibus, estopim das manifestações de junho, pode-se dizer hoje que “não é só pelos bailes funks”. O debate levantado pelos “rolezinhos” diz respeito a toda a sociedade.

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