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Na luta por comida e moradia

por Bruno Huberman — publicado 26/10/2010 16h04, última modificação 17/01/2011 00h16
Movimento de sem-tetos mostra como viver em comunidade numa ocupação na avenida Ipiranga e aponta soluções para o problema de habitação em São Paulo
Na luta por comida e moradia

Movimento de sem-tetos mostra como viver em comunidade numa ocupação na avenida Ipiranga e aponta soluções para o problema de habitação em SP. por Ricardo Carvalho e Bruno Huberman. Foto: Bruno Huberman

“Chegou um momento que tivemos de decidir entre comer e morar. Optamos por comer”, revela Osmar Borges, um dos líderes da Frente de Luta por Moradia, movimento que surgiu em 2003 para reivindicar o direito de uma habitação decente que todo cidadão tem. “Na periferia quando uma família deve 800 reais de IPTU a prefeitura já despeja. Esse prédio aqui tem uma dívida de mais de dez milhões e ainda não fizeram nada”, conta, apontando os dedos para baixo, de dentro do número 925 da avenida Ipiranga, no centro de São Paulo.

Na madrugada no dia 3 para o 4 de outubro, enquanto todos estavam preocupados com os resultados das eleições, a FLM ocupou quatro edifício na região central da cidade. Além do prédio da Ipiranga, os sem-tetos ocupam a avenida São João, 572, na rua Álvaro de Carvalho e no edifício Prestes Maia, palco de quinze antigas ocupações. Nesta terça-feira 26, a ocupação já dura 24 dias.

No caso do prédio do Ipiranga, a grande maioria das cerca de 1,2 mil pessoas vieram da Zona Leste, de um terreno conhecido como Alto Alegre, de onde foram despejadas. Maria do Planalto, líder dos novos inquilinos do 925, acusa que a reintegração de posse ocorreu sem aviso prévio, no dia 29 de setembro. Ocupado há anos, a prefeitura havia prometido a desapropriação do local em 2009, mas os moradores foram surpreendidas pela ordem judicial. “O pior é que o terreno pertencia a um grileiro e devia mais de dois milhões de reais em impostos”, indigna-se Maria. Parte das famílias removidas participava de programas municipais de moradia, chamados de Emergencial e Parceria Social. No primeiro, as pessoas recebem quatro cheques que totalizam 2,1 mil reais para deixarem o terreno. Já o segundo é uma ajuda-aluguel de 300 reais mensais por três anos. Segundo Maria do Planalto, a prefeitura havia garantido que as famílias inclusas no programa Emergencial passariam, ao fim de um ano, para o Parceria Social, o que não aconteceu. “Com 300 reais dá pra pagar aluguel na periferia, mas sem essa ajuda, ou se paga aluguel, ou se come”, diz Maria, usando a mesma justificativa de Osmar.

Dentro dessa lógica, Osmar Borges revela que a ocupação da Avenida Ipiranga, além do objetivo de trazer à tona a questão do déficit de habitação em São Paulo, ocorreu também para garantir habitação provisória às famílias. Os quartos lotados e a infraestrutura precária são compensados pelo privilégio de morar perto do trabalho. A costureira Iracema, por exemplo, gaba-se de agora sair às 6:30 da manhã para chegar ao trabalho. Na Zona Leste saia de casa duas horas antes. “As pessoas precisam entender que os pobres também têm direito de morar no centro”, completa Maria.

O edifício da Ipiranga, que está vazio há mais de vinte anos, foi ocupado pela primeira vez na história. Quando os sem-teto entraram no prédio de 15 andares, iluminados apenas pelos celulares, se espantaram com a quantidade de lixo e esgoto acumulados nos banheiros e corredores. O grosso, mais de 15 toneladas de entulho, os militantes já tiraram, mas o mau cheiro ainda incomoda. “No fundo nós estamos fazendo um favor à região ao ocuparmos o prédio. Esse lixo tráz ratos, baratas e doenças para os vizinhos. Nós revitalizamos”, ressalta Maria.

Logo no primeiro dia da ocupação, veio a polícia. “Eles prenderam a gente aqui, sem deixar entrar água e comida, do meio dia até as 10 horas da noite. Gritavam que ia invadir pelo teto e a gente corria para bloquear as portas. Quando ficou escuro, sem nenhuma iluminação, foi um terror”, lembra Maria. Quando, a noite, os policiais liberaram o acesso, um grupo de moradores saiu em busca de comida.

Como é comum nas ocupações dos movimentos sociais, há uma organização muito bem estabelecida. Logo no segundo dia, eles fizeram uma fiação para iluminar todos andares do edifício. Apenas não há energia nos quartos pelos riscos de acidentes. No salão principal, quando a reportagem acompanhou a rotina dos moradores, algumas mulheres conversavam em volta de uma bacia verde cheia de água e sabão enquanto lavavam a louça do café-da-manhã. Já as crianças ainda se satisfaziam com enormes pedaços de melancia, melão e outra frutas conseguidas com os feirantes do Mercado Municipal, que fica a poucos metros. Na parede ao lado da cozinha, e também espalhado pelos andares, há um cartaz que detalha os horários da refeição. “Mesmo subindo isso daqui umas dez vezes por dia, a gente engorda de tão boa que é a comida”, diz Maria ao caminhar pelos antigos degraus da escada espiralada rumo ao primeiro andar do edifício.

Lá se encontra uma sala de carpete e pé direito baixo, apenas com uma luz amarela de iluminação e umas duas dezenas de crianças pulando corda e desenhando. “Nós tivemos que criar esse espaço para as crianças passarem o tempo. Elas estão acostumadas a ficarem na rua onde moravam, lá na Zona Leste. Aqui elas não podem sair na rua, é perigoso”, explica Maria, que ao entrar na “escola” foi abraçada e beijada por todos os alunos. Lápis de cor, giz, papel, bonecas, corda e todos os outros entretenimentos disponíveis são fruto de doações de vizinhos e amigos. Os sem-teto também conseguiram doações de livros didáticos de português e matemática com feirantes e moradores do centro. Assim, duas vezes por dia, uma dupla de moradoras faz às vezes de professora.

Sentada no canto, apenas observando, está Sandra, mãe de uma das crianças. Ela é uma das poucas que participa da ocupação que tem um teto. Está lá para ajudar o máximo que puder, pois conhece a dificuldade que é não ter uma casa. “Já fui sem-teto. Graças a Deus agora tenho minha casa. Meu marido nem sabia que eu estava ocupada aqui. Tive que ir avisá-lo lá em São Mateus”, conta. Sandra divide um colchão de solteiro com o seu filho e acorda todos os dias antes do amanhecer para ajudar a preparar as refeições. Cansada da exaustiva rotina dentro da ocupação, ela diz que ficará até o último dia. “Só saio daqui enxotada pela polícia ou com uma casa decente para todos aqui”.

Outra que acredita na vitória do movimento é a ex-doméstica Márcia, que há dois anos vive de ocupação em ocupação crente que o dia de ter o seu teto chegará. Antes ela morava em casas de famílias e quando tinha alguma ocupação, dormia onde o movimento estivesse ocupado e trabalhava durante o dia. Porém, desde 2008, mora onde a FLM estiver estabelecida. “Graças a Deus eu criei o meu filho, que tem trabalho, esposa, filho. Eu sou uma pessoa muito feliz, apenas me resta um teto para eu passar o resto da minha vida em paz”, conta, da varanda do quarto que tem vista para a esquina da av. Ipiranga com a São João. No canto do colchão, uma pilha de sacos, sacolas e bolsas guarda todos os pertences que ela tem na vida. “São algumas mudas de roupa, escova de dente, xampu, essas coisas, além de alguns livros de oração e a Bíblia Sagrada”, conta ao abrir as sacolas.

O déficit de moradia no centro de São Paulo é uma questão delicada. Segundo o coordenador da FLM, ocorrerão poucos avanços enquanto não houver comprometimento do poder público. Uma das soluções seria a prática de IPTU progressivo nos imóveis abandonados, lei aprovada na cidade neste ano. “A nova disputa é se a Lei deve ser retroativa ou não. Nós achamos que tem que ser, porque caso contrário vamos ter que esperar mais cinco, dez anos, para termos nossas necessidades atendidas”, diz Osmar Borges. O coordenador da FLM garante que o prédio não será desocupado enquanto as reivindicações, publicadas em uma carta aberta, não forem atendidas. Dentre elas, destaca-se a definição da demanda de 53 imóveis garantidos para desapropriação pela prefeitura no centro e a inclusão das famílias despejadas do Alto Alegre nos programas Parceria Social e Emergencial, além de desapropriações de edifícios que são disputados pela FLM há pelo menos oito anos. Como na última reunião com a Secretaria Municipal de Habitação, no dia 18, houve pouco avanço, o número 925 da Ipiranga deve ter inquilinos ainda por um bom tempo.

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