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Mulheres se unem contra violência de gênero no Facebook

por Gabriel Bonis publicado 29/05/2013 16h17, última modificação 29/05/2013 16h33
Grupos feministas forçam a rede social a revisar sua política contra conteúdos ao pressionar anunciantes a retirar propagandas do site
Reprodução
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Grupos de mulheres exigiram a retirada de páginas que incitavam ódio de gênero

Foram poucos dias até que o Facebook cedesse à pressão de um viral espalhado pela internet na última semana. Uma carta aberta à cúpula da maior rede social do mundo, com 1 bilhão de usuários, gerou a campanha FBrape e acumulou mais de 60 mil tweets de apoio. A ação aglutinou 100 movimentos de mulheres e organizações de justiça social de todo o mundo em torno da exigência da retirada de conteúdos que denigrem as mulheres e retratam estupros e violência de gênero de forma positiva.

A repercussão da carta, assinada pelas entidades Women, Action & the Media (WAM), The Everyday Sexism Project e pela ativista Soraya Chemaly, e reproduzida no Brasil pelo blog Cem Homens, forçou o Facebook a encarar um problema há muito tempo denunciado por usuários e organizações civis. Após a pressão das ativistas, o site assumiu um compromisso de remover rapidamente conteúdos com discurso de ódio de gênero.

O grupo encorajou os usuários da rede social a entrarem em contato com anunciantes cuja publicidade aparecesse próxima “a conteúdos que colocam mulheres como alvo de violência”. O objetivo era pedir que as empresas retirassem seus anúncios do Facebook até que o site banisse conteúdos que incitassem o ódio de gênero. “Muito já havia sido feito para encorajar o Facebook a agir contra esse tipo de conteúdo. Houve diversas petições e conversas, mas nada pareceu funcionar. Então, queríamos tentar uma nova abordagem", conta Jaclyn Friedman, diretora-executiva da WAM, a CartaCapital.

Além dos milhares de tweets, os usuários enviaram ao Facebook cerca de 5 mil emails criticando a postura do site. Em separado, uma petição online reuniu mais de 225 mil assinaturas. Resultado suficiente para fazer anunciantes relevantes entrarem na campanha, como a montadora Nissan. “Por causa da frustração em obter uma posição do Facebook, decidimos perguntar aos anunciantes o que eles achavam destes conteúdos, se achavam aceitável”, explica Laura Bates, criadora do The Everyday Sexism Project.

Segundo Bates, provocar os anunciantes a suspender suas propagandas foi importante para atrair a atenção do site, mas o apoio dos usuários teve papel crucial. “Centenas de milhares de pessoas se envolveram na campanha, escreveram para os anunciantes, para o Facebook e mostraram se importar com o assunto e que não iriam recuar. É um tributo à ação comunitária colaborativa.”

O grupo de ativistas exigiu que o Facebook não tolerasse mais conteúdos com “discurso que trivializa ou glorifica violência contra mulheres” e que treinasse seus moderadores para reconhecer e remover discurso de ódio de gênero. Destacou ainda páginas que “explicitamente compactuam ou encorajam o estupro ou violência doméstica contra mulheres”. Entre os exemplos estão: “Dando Voadoras no Útero de Vagabundas” e “Estuprando Violentamente sua Namorada só de Brincadeira”.

Páginas como essas são constantemente mantidas no ar sob a alegação do respeito à liberdade de expressão. Um conceito criticado por usuários, pois o site permite milhares de postagens com fotos de mulheres espancadas e feridas, enquanto remove imagens de mães amamentando. “É uma visão de moral contraditória e que fere as mulheres”, diz Friedman.

A repercussão da campanha levou o Facebook a apagar a maior parte das páginas criticadas pelas ativistas, mas o site precisou reconhecer falhas em seus sistemas de moderação, em um comunicado de terça-feira 28.

A rede social ressaltou estar trabalhando para agilizar a resposta às denuncias de violações de políticas do site e assumiu o compromisso de revisar as suas regras sobre discurso de ódio. O site também solicitará o apoio de especialistas legais e representantes da coalizão de mulheres da campanha, além de outros grupos historicamente discriminados, para solucionar o problema. “Precisamos melhorar. E vamos melhorar.”

A rápida reação do Facebook surpreendeu as idealizadoras do protesto. Eles [representantes do Facebook] ficaram assustados. É um assunto que tem sido jogado para debaixo do tapete por muito tempo e as pessoas se recusam a levar a sério em muitas esferas, não apenas no mundo virtual”, diz Bates. “Empresas pequenas nos escreveram para dizer que estavam tirando seus anúncios do Facebook porque isso importava para eles. Então, é tocante a extensão que as pessoas nos apoiaram.”

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