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Mulheres ricas. De verdade

por Redação Carta Capital — publicado 16/05/2012 07h50, última modificação 06/06/2015 18h59
A Agenda Black, comunidade restritíssima na internet, é um retrato das angústias, manias e ideias das abastadas
São 4,5 mil ablackers. E há outras 4 mil na fila de espera. Não basta ter dinheiro ou fama para ser aceita no grupo

São 4,5 mil ablackers. E há outras 4 mil na fila de espera. Não basta ter dinheiro ou fama para ser aceita no grupo

Por Ana Paula Sousa e Gonzalo Cárcamo (Ilustrações)

Para ser uma ablacker não basta querer. É preciso poder. O Brasil tem hoje 4,5 mil ablackers. E ao menos 4 mil estão na lista de espera para receber o “sim” que as colocaria no grupo. As ablackers, para quem não sabe, são as integrantes da Agenda Black, comunidade do Facebook que reúne uma seleção de mulheres ricas – para usar a expressão que entrou em voga com o programa da TV Band – do País.

Criada em outubro de 2011 pela publicitária paulistana Christine (Titina) McKay Bilton, a agenda explodiu do dia para a noite. Em 15 dias de funcionamento já tinha 3 mil participantes. Rapidamente, virou negócio da China – ou melhor, do Brasil. A inspiração para o nome Agenda Black veio dos cartões de crédito black, que estão no topo da hierarquia financeira de bandeiras como American Express e Mastercard.

Neste mês, depois de ter sido parcialmente vendida para uma agência de comunicação digital, a iThink, a comunidade deu início ao processo de migração do Facebook para um novo aplicativo de iPad e iPhone. Sua criadora, além disso, acaba de anunciar uma parceria com o shopping Cidade Jardim, considerado o mais elegante de São Paulo, e já se fala na criação de um cartão de crédito AB.

Titina, nesta semana, mostrava-se radiante ao dividir sua conquista com as amigas. No post em que agradecia o patrocínio do shopping, louvava o fato de o grupo empresarial ter acreditado no “formato novo, nunca visto, e, ainda, num grupo tão seleto”. Sim, porque, como foi dito acima, para ser uma ablacker não basta querer. É preciso poder.

Fui aceita no grupo há dois meses. Estava editando um texto sobre o grupo, para outra publicação, e quis entender do que se tratava exatamente. Enviei uma mensagem me apresentando para Marcelo Trípoli, sócio da agência iThink, e, depois de um mês, recebi a confirmação. Tinha virado uma ablacker.

Entre minhas colegas de comunidade estão figuras como Maria Antonia Civita, casada com o presidente do Grupo Abril, Roberto Civita, Donata Meirelles, mulher do publicitário Nizan Guanaez, Lucilia Diniz, herdeira do Grupo Pão de Açúcar, Luiza Setubal, neta do fundador do Banco Itaú, Sophia Alckmin, filha do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e, ainda, a jet setter Ana Paula Junqueira, a apresentadora de tevê Silvia Popovic, a atriz Gabriela Duarte e a estilista Cris Barros.

Graças às visitas à comunidade sei, hoje, onde encontrar as melhores arrumadeiras e babás. Sei também onde comprar guardanapos descolados-chiques e como doar “roupas de esqui que não cabem mais nas crianças”. Isso sem falar nos momentos de indignação que partilhei com minhas colegas de comunidade: uma delas, por exemplo, teve de pagar 2 mil reais para tirar as folhas secas de suas palmeiras! Mas é preciso ser justo: há muitos posts divertidos e dicas úteis para qualquer mortal. Eu aderi, por exemplo, à base da Mavala para unhas fracas. Descobri ainda um bom endereço para consertar o celular na Rua Pamplona, nos Jardins paulistanos.

A despeito do momento de profissionalização pelo qual passa a AB – é assim que as habitués se referem ao espaço virtual – e das insistentes tentativas, não consegui entrevistar nem Trípoli nem Titina. De acordo com o relações públicas da iThink, Titina estava viajando; e Trípoli só dá entrevista com ela. Mas, como ensina o lugar-comum, “a agenda fala por si”.

Titina, que tem três filhos e uma irmã gêmea, Caroline, outra das coordenadoras da agenda, escreve, na apresentação do grupo no Facebook, que o objetivo principal da AB é permitir a troca de informações sobre as próprias experiências que deram certo, seja para a compra de uma joia, seja para a cura da depressão. “Mas não se trata de um meio para venda de produtos”, enfatiza. O que ela estimula são as “dicas úteis para o bem comum”.

Na regra número 4 de sua lista, ela avisa que “pessoas que ficarem postando diariamente, semanalmente, produtos e serviços já registrados ou anunciados, serão excluídas”. A regra número 5, por sua vez, dá a ela própria o direito de apagar algo que “julgue não estar de acordo com o perfil do grupo ou que insulte ou ofenda alguém”. Mas, claro, depende de que alguém é esse.

Passear pela AB é descobrir, sem os filtros do politicamente correto e dos cuidados que todos tomamos ao falar em público – sim, porque a agenda é considerada uma espécie da casa das amigas –, como e o que pensa parte da elite brasileira. Não por acaso, algumas das integrantes chegam a recomendar certo cuidado com o que se publica ali. “Gente, não dá pra pensar que em um grupo com 3,5 mil mulheres (era o número de então) vai existir algum segredo! Todos os veículos podem usar tudo o que falamos aqui, afinal, quanta matéria oferecemos de mão beijada com alguns absurdinhos que abrimos aqui?” Muita matéria.

Uma das reportagens que a Agenda Black inspira poderia levar o título do mais famoso livro de Gilberto Freyre (1900-1987): Casa-Grande & Senzala. Nenhum assunto parece mobilizar tanto as ablackers quanto a discussão sobre empregados. Umas pedem indicações, outras dão dicas superseguras de gente que é “quase da família” e todas palpitam sobre essa tão delicada relação entre quem paga e quem recebe.

A primeira coisa que chama a atenção é a ansiedade provocada por qualquer baixa doméstica. “Abs (é assim a abreviação de ablackers), socorro!!!!
Minha arrumadeira pediu demissão hoje e minha cozinheira está saindo de férias (...) Pânico!!!!!” Mas, para cada mulher ansiosa, há outra, experiente, que conhece alguém incrível para indicar. “Meninas, se alguém se interessar por um caseiro e copeiro que arruma, dirige e serve à francesa, eu tenho uma pessoa para indicar. Ele só não cozinha e passa. O resto, faz tudo (...) É de superconfiança. Trabalha na família há uns 30 anos.”

Discussão mais complexa surgiu quando uma ablacker perguntou se alguém ali podia recomendar um plano de saúde destinado às empregadas. As sugestões foram infindáveis. E os toques sobre cuidados a tomar, também.

“Eu dei (plano) uma época. Ela usou duas vezes somente, mas acho válido. Porém, como elas todas moram longe, prefiro um que atenda perto da MINHA casa. Senão, elas faltam no emprego no dia da consulta, gente! Pensem nisso”, alertou a patroa escaldada. O eco veio rápido. “Penso em dar (plano de saúde), mas uma das minhas (empregadas) não sai do médico. Vive fazendo exames disto e daquilo, e, cada médico que ela vai (sic), indica mais outros médicos e pede exames. E isso tudo pelo SUS. Imagina se ela tivesse plano de saúde!”

Nesse ponto da conversa, muitas ablackers admitiam que, realmente, não tem o menor sentido dar plano de saúde para as empregadas: “Desisti ao perceber que elas iam sempre ao postinho de saúde perto da casa delas”.

Outro tema que preocupa fortemente as ablackers é a falta de segurança em São Paulo. Cabe abrir um parêntese para informar que boa parte das integrantes da agenda vive na capital paulista – ou melhor, em pequenas ilhas da cidade.

“Queridos moradores do Morumbi e arredores, estou muito assustada com todas as notícias que, diariamente, ouvimos sobre a violência no bairro”, registra uma delas. “Como moradora, confesso que passei a ter medo, coisa que nunca tive aqui. Gostaria, se possível, Titina, (...) de contar com todos da agenda e encaminhar pessoalmente ao nosso vizinho Governador uma carta assinada por todos.”

Apesar de muitas das ablackers garantirem possuir ótimos sistemas de segurança privados, a tentativa de mobilização parece animá-las. “Meninas, meu esquema (de segurança) também é superbom, mas isso não me conforta. Quero, sim, fazer parte do Grupo do Morumbi. Mas acho que temos que agir rápido e com união. E se marcarmos, algumas de nós, de nos encontrarmos uma tarde na Praça Vinícius para montar um esquema de ação?”

O que elas mais lamentam, quando o tópico é a segurança, é o fato de estarem impedidas de usar joias e relógios de luxo por aqui. “Gente, sei que já falamos disso ‘n’ vezes, mas vale relembrar: os ladrões de relógios estão de olho na saída de restaurantes top”, alerta uma executiva, que cita restaurantes como A Bela Sintra, Figueira Rubayat e Antiquarius, todos na região dos Jardins.

E, no meio da discussão, lá surgem eles de novo: os empregados. “O marido de uma amiga conheçe todos os grandes delegados de São Paulo (...) e eles falaram para ele que é uma rede entre manobristas, seguranças e bandidos!! Em todos os casos envolvendo restaurantes e shoppings, quem passa as informações são os próprios funcionários!! Desconfio até dos garçons, que informam os manobristas e por aí vai!!”, completa a amiga. “Não sei se essa turma de assaltantes vieram (sic) das favelas do Rio ou se é a turma da cracolândia que se espalhou por Sao Paulo. Socorro!!!!”, grita outra.

A conclusão a que se chega é a de que acessórios da Rolex ou da Tiffany’s só são possíveis de usar depois do check-in no aeroporto, tendo como destino, obviamente, lugares “acima do Equador”. Em São Paulo, ensinam, dá para usar, no máximo, um relógio Michael Kors – que custa a partir de 1,5 mil reais.

Estrangeiras no próprio País, muitas das ablackers referem-se ao Brasil como um lugar distante, que lhes é pouco familiar. “Meninas, raramente compro roupa em São Paulo”, admite a mulher de um executivo. “Sinto falta da antiga Daslu, onde eu achava de A a Z. Que lojas vocês mais gostam para roupas do dia a dia? Onde preferem fazer as compras: no shopping ou na rua? Estou precisando de varias coisinhas do dia a dia.”

O fato de o Brasil estar localizado nos trópicos também desponta, vez por outra, como um problema. “O que vocês fazem com as roupas de esqui que nao servem mais nas crianças? Doam para onde?”, pergunta uma mãe. A resposta não se mostrou simples. Até que alguém atinou: “Tem um grupo que se chama Doar É Chique”. Questão duplamente resolvida.

Também insuficiente, no universo black, é a língua portuguesa. Marido vira hubby, divirta-se é quase sempre enjoy, os filhos são kids e por aí vai: welcome, cute, anti-aging etc. Chique aparece sempre escrito chic.

Curiosamente, a própria língua portuguesa foi tema de uma conversa que deixou certo “clima” entre as amigas. É importante dizer, neste momento do texto, que salvo uma ou outra exceção anotada com a sigla sic as frases aqui reproduzidas passaram todas por correção ortográfica e de pontuação – não só por erros, mas também em decorrência de características que a escrita foi adquirindo na internet e que não se adaptam ao texto impresso, como as abreviações. Pois bem, a confusão teve início quando uma das integrantes do grupo resolveu manifestar seu desagrado com a constante ausência do H em conjugações do verbo haver.

“Meninas, não sou melhor do que ninguém e me desculpem o que vou escrever: tenho notado um erro de português do verbo haver. Algumas escrevem, por exemplo, ‘a 7 meses’. O certo é há 7 meses por aí vai”, ensinou. Feito torcida de futebol, as ablackers se dividiram entre as que consideravam boa a correção e as que viam a intervenção como inadequada. Agressiva até. “Pessoal, discutir português está no mesmo nível que discutir política e religião. Nossa língua é extremamente complexa e dá margem para uma polêmica infinita. Fato este (sic) que até mesmo o nosso “pai dos burros”, Aurélio, passa por constantes mudanças e nunca está atualizado!” E uma empresária completa: “Depois que o Lula assumiu este País, falar errado tá tudo certo”.

Mas citar políticas e políticos de maneira direta não é o forte da AB. Até porque não são poucas as frequentadoras dessa sala de estar virtual casadas com homens que conhecem bem os corredores palacianos. Os maridos, em geral, são citados de maneira anônima, mas sempre envoltos em uma aura de grande influência – sobre elas e também sobre o País.

O que não passa despercebido pelo grupo é a microeconomia, aquela que diz respeito aos preços. “Será que estou ficando pobre ou o povo surtou? Passagem para Miami, em julho, na econômica, U$ 2,5 mil; na executiva, US$ 3,5 mil (melhorou). Orçamento para lavar as cortinas e tapetes da minha casa: R$ 5,3 mil. Não sei se viro porquinha ou minimalista, tirando tudo. Mas, me conhecendo, vou ter que encarar.”

Em situação semelhante estavam a que teve de pagar 1,4 mil reais para consertar a tevê de plasma, de 40 polegadas, e a que recebeu um orçamento de 95 mil reais para a pintura, interna e externa, de uma casa de 500 metros quadrados de construção. A culpa, dizem, é dos novos-ricos: um quer gastar mais do que o outro. O jeito, às vezes, é apelar, até para coisas em segunda mão: “Meninas, hoje estou abusando. Tenho que comprar um carrinho de golf e estou achando caríssimo! Alguém tem interesse em vender um usado? Ou sabe de algum lugar que tenha preço razoável?” Uma ablacker deu a dica de um lugar que vendia por 26 mil reais.

Outras dicas – a maioria delas – são mais prosaicas. Ali, trocam-se informações sobre sapatos, esmaltes, cabeleireiro, limpeza de ar-condicionado, poda de árvore, hotéis – muitos hotéis! –, reposição de louças quebradas, massagens, tratamentos estéticos e tudo mais que se possa imaginar. De receita contra inveja a problemas de cheiro na orelha: “Genteee!! O furo da orelha de vocês, mesmo com brinco, tem um cheiro horrível? Ou são só os meus? Sério. Tenho três furos na orelha, só uso joia e meus furos têm um cheiro de matar!
Alguem tem alguma dica, macumba, solução pra tirar esse cheiro?” Foi uma diversão.

Nas conversas, as blackers gostam de manter o bom humor, a educação e, sempre que possível, divulgam trabalhos beneficentes, apelam para a adoção de filhotes de cães e gatos e dão força umas para as outras. Um post sobre a depressão que uma das integrantes do grupo sofreu após a separação rendeu quase 600 comentários.

Mas elas também podem se irritar. Foi o caso do dia em que a agenda foi citada na coluna de Sonia Racy, no jornal O Estado de S. Paulo. “Não confio nada na imprensa. Sempre que meu marido dá entrevistas sobre construção civil eles erram os números, trocam os dados, talvez propositalmente”, disparou uma. “Coisa de mulher fofoqueira recalcada, isso sim. Vai arrumar assunto/texto para escrever e para de bisbilhotar a nossa Agenda”, prosseguiram. “A Sonia Racy deve estar louquinha para ser uma ablacker! Essa é que é a verdade.”

É porque, para ser uma ablacker, não basta ser famosa. Nem ter dinheiro. Muito menos ser protagonista do programa Mulheres Ricas – nenhuma das integrantes do reality show da Band está no grupo. As ablackers, de maneira geral, têm “pedigree”, detestam Val Marchiori e não gostam de ser vistas como socialites, um termo que as faz se lembrar dos “professores comunistas” da escola.

“Acho um label nao muito legal”, escreve uma ablacker, quando a palavra socialite vem à baila. “(A mídia) usa esse termo de uma forma que denota gente metida e que só se importa com futilidades quando, na verdade, aqui mesmo, se vê que muitos so called socialites se importam, sim, em ajudar os outros, fazer eventos beneficentes, participar de correntes de oração”, explica uma ablacker das mais ativas. “Nem sempre as socialites só vivem de festas e eventos sociais. Elas também têm seu trabalho, seja em ONG’s, projetos sociais ou... até mesmo um trabalho.” Têm também um cartão de crédito black. E, futuramente, quem sabe, ABlack

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