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Feminismo Negro

Mulheres negras em marcha sim: persistir e avançar sempre!

por Maíra Kubík Mano publicado 17/11/2015 17h58
Marcha quer afirmar que mulheres estão alertas e prontas a ocupar espaços, mesmo que esses espaços tenham sido ocupados por outrem
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Milhares de mulheres negras de todo o país estão reunidas na capital federal essa semana para dialogar sobre saberes tradicionais, racismo, sexismo, identidade,  autoestima e violência – não custa lembrar que foi divulgado recentemente um novo dado assustador sobre o crescimento de feminicídio entre as mulheres negras – entre outros temas.

É a Marcha das Mulheres Negras 2015, que no encerramento terá um ato em frente ao Congresso Nacional com cerca de 20 mil participantes. Entre elas, Thaís Renata de Lima, professora da rede estadual de São Paulo, que escreve aqui sobre as motivações da ida à Brasília:

Persistir e avançar sempre!

A marcha das mulheres negras carrega no nome uma enorme responsabilidade ao pautar os avanços e as lutas cotidianas da maioria da população brasileira e que ainda é vista como minoria.

É preciso destacar a polifonia carregada de sentidos quando ouve-se “.. mulheres negras..”, pois a luta dessas mulheres representam aquelas nossas ancestrais que foram à luta, que persistiram, que compraram com seus quitutes a alforria dos seus filhos, pais, maridos e irmãos.

E com determinação e ousadia permaneceram altivas e residem em cada um (a) de nós, constituindo papel importantíssimo na construção da identidade brasileira.

A intensa jornada de lutas a que somos submetidas, as vitórias que devem ser celebradas e os retrocessos que não devem ser permitidos em meio a tempos tão sombrios, a escassez da sensibilidade e empatia que precede ódio e perda de direitos necessita ser exposta, a pauta é urgente.

A mulher negra sempre foi vista como “produto exótico”, que “aguenta dor”, “resiste”, objeto sexual do “senhor” e perpetuada historicamente como o que há de menor prestígio na sociedade, parafraseando Elza Soares “a carne mais barata do mercado é a carne feminina negra”. As questões de gênero e etnia se cruzam e desaguam numa realidade assustadora para as mulheres negras.

A divisão sexual do trabalho afasta as mulheres da vida pública, logo diminui-se a representatividade. Marchamos por que é importante lutar contra o machismo, contra a violência doméstica e psicológica, contra a erotização das nossas meninas, destacando que isso não parte de um pressuposto moralista e/ou moralizante, e sim, como preservação da infância e combate a pedofilia e a cultura do estupro.

Marchamos para combater a opressão étnica e de gênero que visa nos inferiorizar de maneira estúpida ao considerar a biologização reafirmada pela mídia, e, que perigosamente forma o imaginário coletivo tido como consenso, ao nos colocar como seres emocionais, passivos, frágeis e pouco racionais desconsiderando as vivências dessas mulheres que são arrimo de família e privilegiando somente aqueles e aquelas que se normatizam dentro de um padrão que segrega e exclui.

Porém, as mulheres resistem, trabalham em suas múltiplas jornadas, são namoradas das namoradas, são esposas, mães, filhas, estudantes, correm contra o tempo em seus múltiplos papéis a desempenhar e ainda assim, participam ativamente da política do país.

Politica? Sim. Pois a autoestima elevada traz ânimo à luta da trabalhadora e a partir dessa busca configuramos reais números nas instâncias representativas. Números esses que crescem timidamente, mas avançam rumo a superação da opressão de raça, gênero, classe e orientação sexual ,e principalmente, rumo a ruptura de todo e qualquer tipo de hegemonia.

Marchamos para afirmar que estamos em alerta, que estamos prontas a ocupar espaços, mesmo que esses espaços tenham sido ocupados por outrem. Regozijar de mãos dadas, fortes, resistentes, combativas na construção de uma sociedade igualitária que valorize a diversidade cultural e as especificidades inseridas neste mundo plural.

Nas delicadezas ou nas palavras de ordem bradadas ofegantemente, nas paisagens, pairagens, em que as distâncias são diminuídas e pouco a pouco é possível perceber que não existem limites instransponíveis.

Marchamos por sororidade e que esta não seja seletiva, persistimos, acolhemos, avançamos e de braços dados marchamos afim de embalar e abalar o que está estruturalmente inerte, levando a cair por terra todo e qualquer resquício dos séculos de escravidão e da imposição de submissão que o patriarcado tratou de enraizar na sociedade como um todo.

Incentivar o protagonismo dessas fortes mulheres que figuram no topo da pirâmide das estatísticas de pobreza, situação de violência e invisibilização político-sócio-midiática. E essa é a nossa grande tarefa, potencializar as lutas afirmativamente através da reflexão e da ação política, pois a minha voz não pode ser somente a minha voz, ela necessita da projeção, legitimidade e acolhimento que só é agraciado se conquistado coletivamente.

Dessa forma é preciso que preservemos toda integridade física e psicológica que advém do abandono do Estado, encarceramento (e esquecimento) das mulheres negras, e que combatamos a perversidade racista, machista e lesbofóbica, constituindo memória e arquivo de uma militância aguerrida , pois marchamos por igualdade, não por que somos iguais (pois não queremos) e sim, por que somos equivalentes.

 

* Thaís Renata de Lima é professora da rede estadual de SP e integrante da Uneafro.