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Sociedade

Crônica do Menalton

Muito riso e pouco siso

por Menalton Braff publicado 20/10/2014 10h12
O inferno é infinitamente mais interessante do que o purgatório e o céu. No inferno nos identificamos, lá se encontram nossos vícios, os vícios humanos
Domínio Público
Divina Comédia

A exploração de Dante do mundo espiritual mostrado em um exemplar da Divina Comédia, em um afresco de Michelino

Pessoa de minha total confiança foi quem me contou. Uma dessas loiras contratadas por canais de televisão para divertir e instruir o povo brasileiro foi pega cometendo o que mais elas cometem: uma gafe dantesca. São esses os momentos em que mais sentimos a falta do Stanislaw Ponte Preta. Sentimos nós, os que tiveram a ventura de viver numa época em que ele vivia. E escrevia. Seu Festival de Besteiras que Assolam o País, além de fazer as delícias de uma geração inteira, era uma válvula na panela de pressão, que foi a ditadura de 1964, mas não eram besteiras apenas de políticos. Uma de suas frases mais célebres ─ “Televisão é máquina de fazer doido” ─ comprova a abrangência de seu olhar arguto e caberia muito bem neste caso relatado por meu amigo.

A dita loira, interrogada por alguém sobre A divina comédia, de Dante (mas isso também já é crueldade), não teve dúvida e lascou, com a maior cara-de-pau, que tinha rido do início ao fim do livro.  Pobres meninas, obrigadas que são, no fogaréu de programas ao vivo, a fingir o que não são porque não podem decepcionar seu público sempre ávido por heroínas.

Conheço muita gente que nos continua merecendo o maior respeito e que confessa honestamente não ter lido A divina comédia. Pode ser uma deficiência cultural, jamais um defeito humano. Mas nossas apresentadoras, as tais heroínas, não sabem disso.

A palavra “comédia”, nos séculos XIII e XIV, não significava o mesmo que hoje. Ela era usada para designar qualquer narrativa que não tivesse final catastrófico, isto é, para narrativas que não terminassem tragicamente.

O riso, nesse caso, foi o disfarce da ignorância.

Só pra terminar, e lembrando uma entrevista recente de Umberto Eco: o inferno é infinitamente mais interessante do que o purgatório e o céu. No inferno nos identificamos, lá se encontram nossos vícios, os vícios humanos. A coisa amarela no limbo e se santifica no céu. A Beatriz, como imaginá-la a mulher amada senão aureolada de luz da santidade? Não, Dante não quis provocar nosso riso.

Não tenho notícias a respeito das convicções de Umberto Eco a respeito de religião. Talvez seja ateu e, por isso, não deseje o céu nem tema o inferno. Lembro-me de que declarou sua preferência com um sorriso bastante malicioso. O que me parece indiscutível, entretanto, (pelo menos foi a impressão que me causou) é que o julgamento do mestre prende-se apenas a uma avaliação poética.