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Mudanças na Igreja Católica?

Afirmação do papa Bento XVI sobre uso de camisinha em alguns casos é apenas a ratificação do que a pastoral da AIDS no Brasil já faz há oito anos
por Paula Thomaz — publicado 26/11/2010 15:34, última modificação 29/11/2010 13:34
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Mudanças na Igreja Católica?

Afirmação do papa Bento XVI sobre permissão para o uso de camisinha em alguns casos, publicada em livro, é apenas a ratificação do que a pastoral da AIDS no Brasil já faz há oito anos. Por Paula Thomaz. Foto: Alberto Pizzoli/AFP

Afirmação do papa Bento XVI sobre uso de camisinha em alguns casos é apenas a ratificação do que a pastoral da AIDS no Brasil já faz há oito anos

Depois de fazer uma declaração polêmica dirigindo-se aos brasileiros sobre o direito ao aborto em plenas eleições presidenciais, o papa Bento XVI voltou ao centro das atenções no domingo 21 com a divulgação de um trecho de uma entrevista concedida ao jornalista alemão Peter Seewald em que falou, pela primeira vez, positivamente sobre o uso da camisinha. “Quando a intenção é reduzir o risco de infecção, pode ser, no entanto, um primeiro passo para abrir o caminho a uma sexualidade mais humana”. Essas palavras do pontífice fazem referência às relações que envolvem prostituição e é um pequeno trecho que está no livro “Light of the World: The Pope, The Church and the Signs of the Times” (“Luz do Mundo: o Papa, a Igreja e os Sinais dos Tempos”), sem previsão de lançamento no Brasil, divulgado pelo jornal do Vaticano L’Osservatore Romano.

A declaração soou como um avanço da Igreja para alguns ativistas. “É um começo para que a Igreja preste atenção que a vida mudou, que a sociedade moderna é outra e eles não podem continuar com os dogmas de antigamente. Se ele ‘libera’ o uso do preservativo para prostitutos e prostitutas, é porque ele admite que existe sexo fora do casamento”, afirma Gabriela Leite, ex-prostituta, criadora da marca Daspu e militante do movimento das prostitutas.

Na tentativa de que o pequeno trecho não fosse distorcido, a Santa Sé divulgou, por meio de seu diretor de imprensa, o padre Frederico Lombardi, uma nota esclarecendo alguns pontos da entrevista de Bento XVI. “O Papa rebate claramente que ele, naquela oportunidade, não tenha desejado tomar posição sobre o tema dos preservativos em geral e reafirmou que a Igreja não considera os preservativos como a solução autêntica e moral do problema da Aids. Em si, o raciocínio do Papa não pode ser certamente definido como uma mudança revolucionária.”

Para o padre Valeriano Paitoni, fundador de casas para crianças e jovens com HIV/AIDS, que atua na Igreja Católica de São Paulo incentivando o uso de preservativo desde os anos 80, quando surgiu a primeira epidemia de AIDS, a declaração do pontífice confundiu ainda mais. “O papa não abriu mão dos pontos morais da Igreja Católica. Se tento comparar com o que ele já disse sobre o assunto, fico mais em dúvida ainda sobre o que ele pensa. Ele não se posicionou claramente nem a favor e nem contra a camisinha. Como padre acredito nos valores evangélicos, na castidade, na sexualidade responsável, na fidelidade. A minha pregação inclui esses valores. Mas como Igreja, não posso me colocar contra e dizer que preservativo não funciona para prevenção da AIDS perante uma declaração da Organização Mundial da Saúde como ele fez em 2009 na África.”

O fato é que, para a Igreja brasileira, incentivar o uso de camisinha para esse caso determinado não é novidade. Ainda que haja reservas de alguns membros da religião, essa é a base da teologia da pastoral da AIDS da qual o sociólogo Claudio Monteiro participa desde a sua fundação em 2002. Monteiro enxerga a declaração como uma ratificação do trabalho que a pastoral da AIDS vem realizando. “Uma semana antes dessa declaração vir a público, o papa havia abençoado nossa pastoral. A imprensa nunca falou da existência dela. A benção apostólica que nos foi dada é como um diploma do papa para a pastoral da AIDS no Brasil, que é a única no mundo”, afirma o sociólogo e também coordenador da pastoral da AIDS de São Paulo.

Criada em 1999 inicialmente como um braço da pastoral da Saúde, a Pastoral da AIDS capacita o cristão na prevenção e assistência aos portadores do vírus HIV. O trabalho é realizado em parceria com outras pastorais da Igreja como a da mulher, a carcerária, da mulher marginalizada. E, enquanto pastoral da AIDS, tem por função difundir informação como estratégia de enfrentamento da epidemia. Quanto mais os agentes das demais pastorais sociais estiverem capacitados e puderem inferir em suas pastorais essas informações, maior pode ser a conscientização sobre a infecção pelo vírus. “Temos parceria com a pastoral da criança, por exemplo. Os agentes fazem o trabalho de casa em casa e, ao mesmo tempo em que trabalham o pré-natal, podem falar da transmissão infantil do HIV e da sífilis congênita. Capacitamos pessoas de outras pastorais para trabalhar a questão da AIDS também, já que o número de participantes da nossa pastoral ainda é pequeno em relação às demais”, diz.

Esse trabalho da Igreja e de ONGs ligadas ao movimento de luta contra a AIDS surtiu efeito no último relatório do programa das Nações Unidas para a AIDS (Unaids) divulgado no último dia 23. Nos números globais, o Brasil aparece com a melhor situação quando o assunto é prioridade de investimento da prevenção do HIV. Entre zero e um, o País ficou com a nota 0,8. Segundo o levantamento da Unaids, o número de portadores do vírus HIV com acesso a medicamentos antirretrovirais no mundo cresceu de 700 mil pessoas em 2004 para cinco milhões em 2009. Apesar de no Brasil o número de pessoas contaminadas ter crescido para 460 mil (mínimo) e 810 mil (máximo) ante 380 mil a 560 mil em 2001 e um terço de contaminados da América Latina estar no País, o estudo aponta tendência de queda da epidemia de AIDS. Atualmente com 33 milhões de pessoas infectadas no mundo, 2,6 milhões de novos casos foram registrados, o que significa uma redução de 19% em relação ao pico de 1999.

Prevenção – Considerada por profissionais da saúde como a estratégia mais eficaz na prevenção contra o vírus HIV, a existência da camisinha remonta séculos de existência cuja fabricação passou por vários materiais desde papel manteiga, intestino de animal e até saco de linho, e muitas vezes é um item de decoração nas bolsas das prostitutas. É o que diz a ex-prostituta Gabriela, “a questão é convencer o parceiro a usar”. E não é só isso. A ativista do movimento contra a AIDS vê a confiança no companheiro uma grande questão. O estudo mais recente feito pelo Ministério da Saúde sobre o comportamento sexual dos brasileiros, divulgado em 2008, aponta que entre parceiros fixos 72% dizem não usar camisinha. Nesse caso, “a grande vulnerabilidade é a confiança no amor”, diz.

Também no último dia 23, o estudo Profilaxia Pré-Exposição (iPrEx), que acompanhou 2.499 voluntários em 6 países - 350 deles no Brasil, com participação do Instituto de Pesquisa Clínica Evandro Chagas (Ipec/Fiocruz) e da Universidade de São Paulo, mostrou que o uso profilático do antirretroviral Truvada, reduz o risco de infecção por HIV em até 94,9% entre homens que fazem sexo com homens. Esse é o primeiro estudo clínico do HIV em larga escala a ser realizado em diferentes continentes. “É provável que no futuro nós tenhamos uma cesta com diferentes opções de ferramentas de prevenção complementares. As pessoas, a exemplo do que acontece com o uso dos anticoncepcionais, poderão escolher a forma de prevenção pesando vantagens e desvantagens para sua situação particular”, acredita a pesquisadora Valdiléia Veloso, principal investigadora do estudo no Ipec.

Enquanto isso não acontece, “Igreja e os governos deveriam parar de se criticar mutuamente e trabalhar juntas”, afirma padre Valeriano.

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