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30 anos de MST

MST 30 anos – vida, paixão e delírio

por Raul Jungmann — publicado 10/02/2014 05h48
Com Lula no poder, o movimento perdeu seu inimigo externo. Com a aliança do PT com os ruralistas, viu sua campanha se tornar uma miragem
Fabio Rodrigues Pozzebom / ABr
MST

Integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST) chegam para reunião no Palácio do Planalto em agosto de 2011. A reforma agrária ainda é um objetivo distante

O Movimento dos Sem Terra tem por "pais" a Comissão Pastoral da Terra (CPT), a Teologia da Libertação e o declínio das vocações eclesiásticas, padres e freiras, colocando em risco a continuidade da Igreja Católica no Brasil.

Como atesta pesquisa do Instituto de Estudos da Religião (Iser)¹, as vocações eclesiásticas encontram-se confinadas à agricultura familiar da região sul, e esta vem sendo desarticulada pelo avanço do agronegócio no campo desde os anos 70.

É então que a CPT irá recrutar quadros, capacitar e dar apoio logístico ao Movimento, cuja saga e mito iniciais dar-se-ão na Encruzilhada Natalino, Rio Grande do Sul - célebre ocupação de terras ocorrida em 1979, em plena ditadura.

Inicialmente restrito aos estados do Sul, pois o velho sindicalismo rural permanecia forte no Norte e Nordeste, o MST se nacionalizou, dramaticamente, na esteira da tragédia de Eldorado dos Carajás, em 1996, e alcançou seu ápice em 1997, com a Marcha sobre Brasília e a novela o Rei do Gado, da Rede Globo.

Foi nesse momento que os sem-terra semearam acampamentos de Norte a Sul do País, realizando mais de 600 invasões em 1998. À época, eles estavam presentes em todos os conflitos que pipocaram no meio rural, como, por exemplo, as estiagens e secas, chegando a ocupar escolas e supermercados no meio urbano...

Toda essa disposição e vitalidade entraram em declínio, crise, e beiraram o colapso com a chegada de Lula à Presidência da República – que prometeu fazer a reforma agrária "de uma só canetada".

Nascidos no berço do sindicalismo urbano do ABC paulista, Lula e o PT jamais foram devotos da reforma agrária e seus movimentos, para além da retórica. Ainda por cima, ambos migravam ao centro político, visando alcançar a Presidência da República, dando passos nessa direção tanto no Congresso do Anhembi, quanto, em seguida, na Carta aos Brasileiros, e, por fim, via aliança duradoura com o peemedebismo em 2006. Portanto, nada mais distante do esquerdismo e das ações radicais do MST, que foi, adiante, amortecido e "domesticado".

Inicialmente, pela cooptação da sua direção e quadros intermediários, via Incra e Ministério do Desenvolvimento Agrário, além da irrigação de verba grossa nos cofres das cooperativas e ONGs satélites dos sem-terra.

De espetacular impacto, porém, foi a expansão do programa Bolsa Família que, chegando aos grotões, em especial no Nordeste, decretou a queda da demanda real pela reforma agrária, com o correlato despencar das invasões de terra e da média de invasores por ação.

Essa queda se refletiu no número de hectares desapropriados, que, na média dos anos FHC (Fernando Henrique Cardoso), foi de 1,3 milhão de hectares - chegando a 2,5 milhões em 1998 -, para uma média de 400 mil hectares nos governos Lula/Dilma e inexpressivos 6 mil hectares em 2008²!

Certamente decisivo para levar o Movimento a sua atual crise política, a chegada do PT ao poder subtraiu ao MST seu elemento principal de coesão e impulso: o mal absoluto, encarnado no "neoliberalismo" dos governos FHC, ironicamente quem mais desapropriou terras e assentou famílias em toda nossa história...

Carente do seu inimigo externo, o Movimento perdeu o rumo. Pior ainda: no poder, o lulo-petismo se aliou a outro dos seus adversários, o agribusiness, resultando que, mesmo dispondo de oceânicas maiorias no Congresso Nacional, em nada a legislação agrária avançou. O mesmo pode-se dizer da promessa de revisão dos índices de produtividade da terra que, permanecendo intocados, tornaram os milhões de hectares que seriam liberados para os sem-terra em uma miragem.

No tempo em que se propor um projeto para o Brasil tinha por imperativo a realização de uma reforma agrária, nossa urbanização era incipiente. De quebra, estávamos a meio caminho da transição da ancilar economia rural para a industrialização e caminhávamos para criar um mercado nacional, interligando infraestruturas regionais.

Hoje, temos um expressivo parque industrial, um sistema de cidades aonde vivem nove em cada 10 brasileiros, e o campo caminha para a redução inexorável da sua população remanescente. Em paralelo, desenvolvemos um agronegócio globalmente competitivo e a nossa secular pobreza rural vai sendo reduzida, via programas de transferência de renda e crescente malha de assistência social.

E o MST? Ainda que tenha o mérito de ter colocado na agenda nacional as demandas dos sem-terra e ajudado a reduzir a violência do patriciado rural, segue irreformável. Autoritário, centralizador e organizado dentro de uma hierarquia rígida que impõe os mesmos líderes de 30 anos atrás – egressos em sua esmagadora maioria do sul –, tende a assumir coloração milenarista, pregando a chegada futura da Era. Em realidade, o delírio de um passado sem volta.

Raul Jungmann, vereador no Recife pelo PPS, foi presidente do Incra e ministro do Desenvolvimento Agrário no governo Fernando Henrique Cardoso

¹ Survey realizado pelo Instituto de Estudos da Religião
² Dados oficiais do Incra

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