Sociedade

Crônica do Villas

Minha avó

por Alberto Villas publicado 30/10/2014 10h31
Quando chegava o horário de verão, ela se negava a mexer nos ponteiros do relógio
Acervo Pessoal

Na verdade, ela nem era minha avó de verdade, era minha avó torta, mãe do meu sogro, avó da minha mulher. Mas mesmo assim, sempre a chamei de vó Romilda. Tinha cara de vó, cabelo branquinho de vó, óculos de vó e alma de vó.

Vó Romilda foi uma figura inesquecível. No dia em que me conheceu, senti seu olhar meio enviesado, tentando me entender. Ela era amiga do peito do ex-marido da minha mulher e achei, num primeiro momento, que estava com o coração ferido.

Mas, aos poucos, fui conquistando o seu jeitinho de ser.

Todo verão eu me lembro muito dela, quase que diariamente. Não que ela gostasse de calor, sol, suor e cerveja, mas é porque ela tinha pavor do tal horário de verão. A coitada passava esses quatro meses numa agonia danada.

Vó Romilda reclamava demais do novo horário, isso porque ela colocou na cabeça que, adiantando o relógio em uma hora, ela dormia uma hora a menos todo dia.

Mas não era só o sono que sentia, de manhã e de tarde, por ter dormido uma hora a menos (sim, ela garantia que dormia uma hora a menos), mas por tudo o que acontecia durante o dia.

Ela sentia fome mais cedo, perdia a hora do lanche da tarde e quando abria os olhos, já era tarde demais para uma velhinha jantar. Tudo culpa do horário de verão.

Como se não bastasse, ela costumava passar uns dias do verão em Manaus. Imagine. Logo em Manaus onde o horário já é diferente do nosso aqui, em São Paulo, mesmo sem horário de verão. Ai a coisa piorava.

Vó Romilda ficava furiosa quando ligava a televisão pra ver o Cid Moreira e o Sérgio Chapelin no Jornal Nacional e já estava passando Rainha da Sucata. No dia seguinte, fazia as contas, olhava bem no relógio e ligava a TV mais cedo pra não perder as noticias. E o que que estava lá na telinha? Malhação!

Vó Romilda era radical. Com horário de verão ou sem horário de verão, ela não mexia no relógio que carregava no pulso há décadas. Nem a pau ela acertava aqueles ponteiros. Dai a confusão.

Quando vinha almoçar na nossa casa, sempre perguntava:

- Que hora vocês vão me pegar?

Na verdade, ela queria saber se era no horário de verão, no horário normal, no horário de Manaus ou no horário do seu relógio de pulso.

Vó Romilda sempre chegava na nossa casa trazendo um presentinho pra gente. Nem que fosse um pacotinho de biscoito Maizena embrulhado num saquinho plástico de supermercado. Mas trazia.

Durante muitos anos, foi ela quem forneceu pijaminhas de flanela para as minhas filhas. Costurava como ninguém. Fazia pijaminhas de flanela pra todas as bisnetas e também para os pobres do Canindé, onde morava.

A casinha dela, eu adorava. Ficava numa vila coberta de plantas e muitas flores. Vó Romilda tinha uma mão boa pra plantar violetas mas, principalmente, avencas. Suas avencas eram as mais lindas do mundo.

Muitas vezes trouxemos pra casa mudinhas que ela me dava, depois que ganhou confiança e acostumou com o novo marido da neta dela.

Eu nunca me esqueço da língua fatiada que ela fazia. De comer de joelhos. Nunca consegui imaginar como ela preparava aquela língua com ervilhas frescas e purê, que desfiava no prato.

Todo final de ano, por volta de novembro, a gente recebia um cartão de Natal da vó Romilda. Era uma tradição. Daqueles cartões com neve, pinheirinho,  renas, trenós e purpurina. Ela riscava com lápis as linhas para não escrever torto e quando apagava, deixava marcas visíveis do lápis. Essa era a minha vó Romilda.

Mas numa noite de verão ela nos deixou. Foi encontrada morta sentada no sofá, na sala da casa dela. A TV estava ligada mostrando chuviscos e a revista Caras no seu colo. Ela adorava a vida das celebridades e aquelas palavras cruzadas enormes da revista.

Ah, como eu gostava da minha vó Romilda!

Agora, a minha vó verdadeira, a mãe da minha mãe, a Zizinha, também era uma figura inesquecível. Um dia eu falo dela. Nunca pegou numa vassoura pra varrer uma casa ou num espanador para espanar os móveis. Era assim uma espécie de Betty Friedan, uma espécie de Chiquinha Gonzaga, meio Patrícia Galvão. Acho que também merece uma crônica.

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