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Militância à brasileira

por Eduardo Graça — publicado 31/10/2010 17h49, última modificação 31/10/2010 17h49
Felipe Matos, carioca de nascimento, emerge como líder estudantil nos Estados Unidos

Felipe Matos, carioca de nascimento, emerge como líder estudantil nos Estados Unidos

O movimento estudantil nos Estados Unidos, que parecia fadado a virar uma simples referência nos livros de história, renasceu pelas mãos de um brasileiro. Dirigente do Students Working for Equal Rights, o carioca Felipe Matos, de 24 anos, tem feito barulho nesses dois anos de governo Barack Obama. Sua principal bandeira? O direito de filhos de imigrantes criados nos EUA desde a infância frequentarem a universidade.
No primeiro dia de 2010, Matos saiu de Miami em uma caminhada de cerca de 2.580 quilômetros até Washington, com o objetivo de informar os norte-americanos que um dos efeitos mais perversos do impasse em torno da reforma da imigração era justamente essa proibição. Foi parar nas grandes redes de tevê e seu perfil, traçado no New York Times. Ao lado de Matos, que entrou nos EUA aos 14 anos, participaram da caminhada, batizada de Trail of Dreams (Trilha dos Sonhos), Gaby Pacheco, 25 anos, desde os 7 no país, oriunda do Equador, Carlos Roa, de 22, que veio da Venezuela aos 4 anos, e ­Juan Rodriguez, 20 anos, que chegou da Colômbia aos 6 anos e é o único a ter conseguido, com o apoio da madrasta, o Green Card.

Ao se exporem, Matos, Gaby e Roa aumentaram os riscos de ser detidos pelo serviço de imigração dos EUA. Ativistas progressistas denunciam que, nos dois primeiros anos do governo Obama, não houve qualquer diminuição no número de trabalhadores sem documentação detidos. Nem no de famílias separadas por conta da deportação de imigrantes ilegais, mas que tiveram filhos em solo americano.
E mais: a galvanização dos movimentos conservadores e o sentimento nativista incrementado pela crise econômica levaram o Senado à decisão de adiar a votação do chamado Dream Act (acrônimo de Development Relief in Education for Alien Minors), que obrigaria instituições de ensino superior a aceitar estudantes não documentados como alunos. Depois de cursarem dois anos de universidade – ou servirem dois anos nas Forças Armadas –, os jovens ganhariam o direito de cidadania. Todos deveriam ter entrado nos EUA até os 16 anos e vivido no país por pelo menos cinco anos.
Matos, que recebeu neste mês o título de Personalidade do Ano pela Massachusetts Alliance of Portuguese Speakers (MAPS), organização não governamental criada em 1970, e é um dos 20 estudantes com notas mais altas em universidades comunitárias do país, foi aceito pela prestigiosa Universidade Duke, mas não pode nem trabalhar como professor nem se mudar de mochila e cuia para a veneranda instituição da Carolina do Norte. Sem o número de Social Security, ele não é considerado um cidadão legal. A única saída, percebeu, era se organizar. É um dos líderes do braço mais atuante do equivalente à UNE nos EUA.

“Somos, hoje, sem sombra de dúvida, um dos maiores movimentos sociais dos EUA. Fazemos parte da United States Students Association (USSA), que reúne 4,5 milhões de estudantes em todo o país e incorporou como prioridade emergencial a aprovação do Dream Act. E a solidariedade entre os estudantes é nítida. A High School é uma máquina de assimilação, nossos colegas nos veem como americanos. Crescemos juntos e não aceitamos mais calados a separação ao atingirmos a maioridade”, afirma o brasileiro.
No momento em que esta reportagem era cerzida, a USSA denunciava a deportação do estudante Hector López, de origem mexicana, da Universidade Estadual de Portland, no estado do Oregon, na Costa Oeste. López chegou aos EUA quando tinha apenas 1 ano e meio de idade e se destacara no colégio secundário como presidente do grêmio acadêmico e técnico do time de beisebol da escola. A documentarista Anne Galisky, que dirigiu Papers Stories of Undocumented Youth,­ sucesso no ano passado no circuito alternativo, saiu em defesa de López: “Ele é um estudante excepcional, um dos melhores de sua turma. É também um caso clássico dos jovens que seriam beneficiados pela aprovação do Dream Act”.
A voz e a imagem de López não desapareceram por obra da militância estudantil. A USSA promoveu conferências de imprensa com o estudante, via internet. “Foi como se minha vida tivesse sido tirada de mim apenas porque passei o primeiro mês e meio de minha existência em outro país. É desumano enviar alguém para um país onde você não conhece ninguém, não tem mais família e não tem como trabalhar para sobreviver”, desabafou. O deportado também contou que voltava da academia de ginástica quando foi abordado por um oficial da Imigração que o seguia.

No mesmo dia em que López falava, emocionado, do México, o Senado, por 56 a 43, com a adesão de quatro democratas, decidiu adiar a votação de uma lei que incluiria tanto a regulamentação do Dream Act quanto o fim do chamado Don’t Ask Don’t Tell, abrindo a possibilidade de homossexuais servirem nas Forças Armadas sem precisar esconder sua preferência sexual. A USSA reagiu e anunciou uma campanha de mobilização em conjunto com as organizações de direito dos homossexuais para pressionar os eleitores a votarem em candidatos comprometidos com o projeto de lei nas eleições de novembro.
Segundo Matos, sua única saída foi a militância. O mesmo aconteceu com Tomas Robles, da Universidade do Arizona, que, revoltado com a lei anti-imigração proposta pelo governo estadual, considerada racista por ativistas liberais, lançou uma campanha estudantil de registro de eleitores que já resultou em 20 mil novos votos no estado fronteiriço com o México. Como se sabe, o voto, nos EUA, não é obrigatório, e pesquisas mostram que cidadãos de origem latino-americana votam menos que os brancos e os asiáticos.
A inspiração maior para a militância do brasileiro – no fim de setembro, ele era um dos estudantes que se deitaram na praia de South Beach, formando com seus corpos um pedido para que os eleitores da Flórida pressionassem seu senador para votar a favor do Dream Act – vem das marchas pacíficas comandadas por Martin Luther King há quatro décadas. “Nossa caminhada foi influenciada pela luta pelos direitos civis dos negros nos anos 60. Nós somos, e os estudantes estão carregando essa bandeira país afora, as novas minorias em busca de seus direitos. Os não documentados e os gays.” •

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