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Crônica

Michele, a alma do Sanatório Penal

por Luiz Alberto Mendes Jr. — publicado 27/11/2014 06h24
Ela havia sido um dos primeiros 300 casos de Aids detectados. Depois que um monge parisiense a converteu ao budismo, mudou
Ed Ferreira/Estadão Conteúdo
Na prática, Michele tocava o Sanatório todo

Na prática, Michele tocava o Sanatório todo

O ano é 1989, a época da Aids, a síndrome mortal. Não sabíamos nada acerca do vírus, a não ser que matava. Nós víamos os companheiros infectados saindo no carrinho do IML todos os dias. Apenas sacos de pele com ossos dentro. Ninguém havia se dado ao trabalho de nos avisar de alguma coisa, salvo o doutor Drauzio Varela. Preso nunca importou. Era até bom que viesse uma praga e nos matasse a todos. Se bandido bom é bandido morto, imagine então um preso. Por conta desse pensamento, muitos se contaminaram e morreram miseravelmente. Na Penitenciária do Estado, havia uma área de isolamento que servira aos presos com tuberculose. No Sanatório Penal, os portadores de HIV foram isolados e amontoados com presos com a síndrome e doenças decorrentes.

Fui levado até lá pelas mãos de um amigo. Queria ver, precisava saber mais sobre aquela tragédia. Depois de ver e saber, precisei tomar uma decisão: ficar e ajudar, ou sair correndo para nunca mais voltar. Foi então que conheci Michele. Ela havia sido um dos primeiros 300 casos de Aids detectados pelo Instituto Pasteur, na França. Sobrevivia ao vírus há 12 anos. Eu já conhecia sua fama, e ficamos amigos rapidamente. Estava condenada por um duplo assassinato. Liderou uma quadrilha internacional de tráfico de “escravas brancas”: agenciavam, financiavam e davam todo o “suporte técnico” para garotas e travestis da América Latina e África se prostituírem na Europa.

O ganho era fabuloso. Michele vivia no topo do mundo. Morava em um palacete e circulava por Paris a bordo de um rolls-royce cor-de-rosa. No Brasil, ela possuía uma rede de salões de beleza com filiais em quase todas as capitais. Possuía propriedades no Brasil, em alguns países africanos e em Miami. Nadava em dinheiro. “Suas mulheres” trabalhavam em um quarteirão inteiro de Montmartre dominado por sua organização. Claro que havia violência, drogas e coerção. Garotas foram atiradas de edifícios, algumas tiveram overdose e outras foram assassinadas e depois tiveram seus corpos desovados em parques. Nunca conseguiam saldar suas dívidas. As drogas, roupas, a “montagem”, a alimentação e a moradia que lhes era oferecida custava caríssimo. Acabavam tornando-se então escravas sexuais para pagar a organização.

Nesta época, um casal de repórteres conseguiu documentar a ação da quadrilha. Ambos acabaram assassinados, mas a polícia chegou à organização de Michele. Foi chamada a depor, mas conseguiu se safar. Foi nesta época que adoeceu. Fez inúmeros exames e não chegavam a uma conclusão sobre o mal que a afetava. Até que o Instituto Pasteur deu o veredito: era HIV. Naquele tempo, os médicos a aconselharam a voltar para a família, pois estaria vivendo seus últimos dias.

Desesperada, só encontrou paz quando converteu-se ao budismo. Um monge parisiense a converteu e, dali em diante, Michele mudou. A primeira coisa que fez foi apresentar-se à polícia, confessando ter sido a mandante do homicídio do casal de jornalistas. Foi presa, enfrentou julgamento comum e terminou condenada a dezenas de anos de reclusão.

Chegou à Penitenciária do Estado adoecida e já foi encaminhada ao Sanatório Penal. Naquela pequena sucursal do inferno, havia sempre uma meia dúzia de companheiros moribundos, definhando e aguardando a morte. Outros completamente isolados com doenças como hepatite ou meningite. Eram 38 celas e dezenas de doenças oportunistas a espreitar aquele povo ali, abandonado e entregue à morte.

Os enfermeiros não entravam no Sanatório. Distribuíam remédios na grade através dos presos com o vírus que estavam em melhores condições. Michele, diante daquela situação, chamou para si toda a responsabilidade. Passava o dia todo limpando, lavando, medicando, dando injeções e cuidando daqueles que não tinham mais condições de fazer nada. Convenceu outros companheiros e montou uma equipe para cuidar dos que estavam morrendo ali. Comprava remédios, alimentação, roupas, pedia ajuda aos religiosos que por lá aportavam – os únicos que apareciam por ali.

Na prática, tocava o Sanatório todo. Da estrutura oficial vinha só a alimentação. Era ainda por cima sempre algo grosseiro, que doentes não conseguiam comer. Michele então retemperava e fazia sopa para aqueles que não conseguiam mais mastigar. Durante quatro anos, roubamos a dispensa da diretoria da prisão para levar tempero, legumes e verduras para o sopão da Michele.

Várias vezes eu a vi enchendo seringas de 20 cc de legumes batidos com frutas para encher o estômago de companheiros entubados.  Sou testemunha dela ressuscitando inúmeros presos que chegaram ali em coma ou semimortos. Eu a vi fazendo "aviãozinho" com a colher, com voz doce e carinhosa de mãe, para que "seus" doentes comessem. Assim como a vi bastante brava com marmanjos que estavam bem e não queriam se alimentar. Só faltava bater. E quando eles morriam, então? Ela ficava horas no esforço de fazê-los voltar, socando o peito, fazendo respiração boca a boca, dando injeções. Conseguia com alguns poucos, então tentava com todos.

A maioria morria de problemas respiratórios, buscando aspirar o ar impossível. Os membros ficavam esticados, rijos. Os carregadores do IML vinham e quebravam os ossos para que os defuntos coubessem no gavetão de alumínio. Michele cuidava também de “seus” mortos. Acendia uma vela e entoava mantras budistas, fazendo massagens nos membros esticados. Logo eles cediam e pareciam adquirir a paz. Ela sempre dizia: “Meus mortos têm que sair daqui bonitinhos!”

Michele morreu quando eu não estava mais lá. Sei que fez muito mal no passado, foi terrível de fato: matou, roubou, aliciou, prostituiu, fez o diabo. Mas eu conheci o seu presente. Se tivesse que dar um prêmio Nobel por desprendimento e dedicação aos necessitados, ela, a travesti Michele, seria a minha escolhida.

* O escritor Luiz Alberto Mendes Jr., autor de Memórias de um Sobrevivente (Cia das Letras), passou 31 anos preso em diversas cadeiras brasileiras. No dia do Massacre do Carandiru, estava detido no Pavilhão 8, ao lado de onde aconteceu a chacina (Pavilhão 9)

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