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Memórias do Alto Rio Negro

por Marina Barbosa — publicado 24/08/2010 16h22, última modificação 27/08/2010 14h50
A antropóloga Marina Barbosa relembra sua viagem ao Alto do Rio Negro onde conheceu um município isolado por matas e rios dos grandes centros que abrigava enorme quantidade de carros. A cidade tinha apenas 10 ruas
Memórias do Alto Rio Negro

A antropóloga Marina Barbosa relembra sua viagem ao Alto do Rio Negro onde conheceu um município isolado por matas e rios dos grandes centros que abrigava vários carros. Foto: Bruno Huberman

Vivenciei algo forte e transformador. Difícil expressar em palavras quando a experiência é extrassensorial, corporal, por alterações de temperaturas e flashes de imagens – um verdadeiro choque que expande a compreensão e o entendimento de algo indescritível. Uma voz indicava o caminho. Eu era capaz de andar no escuro com a plena certeza de onde estava pisando. Ela dizia: “é isso”, “eu sei” e percebia no silêncio que aquela comunicação era comigo e com mais ninguém.

Eu olhava para os lados, naquela imensidão amazônica, no meio de uma comunidade indígena, a uma distância de voadeira-balsa-avião-avião do meu porto seguro, separada pelas grandes nuvens que se transformavam em chuvas fortes e que impediam qualquer movimento de sair daquela situação extremamente incômoda, de medo do desconhecido.

Quando o barulho ensurdecedor dos trovões anunciou aquela quantidade imensa de água que, em poucos segundos, despencaria naquela tapera de palafita sem paredes, me vi pela primeira vez diante da impossibilidade do ser humano de controlar a natureza, ainda que continuemos a acreditar nesta possibilidade, criando continuamente tecnologias e instrumentos de controle. Esse foi o anúncio da grande aventura em que tinha me colocado, um passo que não teria mais volta.

Fui de avião da FAB (Força Aérea Brasileira) para as comunidades indígenas do Alto Rio Negro, acompanhar o trabalho de uma ONG, mais especificamente às comunidades de Taraquá e Camanaus - compostas pelas etnias Tukano, Desana, Pira-Tapuia e Tariana -, localizadas na região conhecida como a cabeça do cachorro, estado do Amazonas, terras que fazem fronteira com a Colômbia e a Venezuela. O município de São Gabriel da Cachoeira possui 39 mil habitantes e a maior concentração de população indígena do Brasil. 90% dos habitantes da cidade vêm de grupos étnicos que conhecia apenas pela visão parcial e idílica, escrita por meus semelhantes nos livros de história. Somente depois fui saber: o que chamamos de índios, na verdade, hoje, no Brasil, são 225 povos totalmente diferentes entre si, com 180 línguas, compostos por 600 mil pessoas aproximadamente, sendo que, na época da conquista do território, viviam no país entre 4,5 a 5 milhões de pessoas.

Na primeira noite, na base do exército, em São Gabriel da Cachoeira, fomos ao “baile de meninas e meninos” no Pop star, onde dançamos brega com índios aculturados, colombianos, venezuelanos, peruanos, antropólogos e militares, todos convivendo dentro do mesmo espaço. Um verdadeiro caldo cultural. O Brasil real. A terra sem lei. A dança do brega, pouco conhecida por nossas bandas paulistanas, é imensamente difundida pela região amazônica, inclusive nas comunidades indígenas daquela região. Todos se aboletavam pelo pequeno espaço, sem distinção de grupos, raças, etnias ou preferências sexuais.

Para mim, naquele lugar remoto, para minhas referências, foi o primeiro “choque de realidade”. Os índios, objetos da minha ignorância, construídos em minha memória a partir da memória coletiva absorvida nos livros escolares – os selvagens que viviam em harmonia com a natureza -, dançando, no meio daquela fumaça? Como podiam eles desejar o carro, o tênis, o relógio das propagandas, bebendo, cantando e dançando como os brancos? E como um município isolado por matas e rios dos grandes centros, podia abrigar aquela quantidade enorme de carros, sendo que a cidade em si tinha apenas 10 ruas? Havia muitos “caciques” de tribos desconhecidas, submersas em uma realidade com a qual nos familiarizamos nas leituras dos jornais (tráfico de drogas, invasões de terras, problemas de fronteira, garimpo, contrabando etc.), coexistindo no mesmo lugar. O silêncio do que de fato acontece naquela região paira no ar. Tudo está à vista, mas nada se verbaliza. O silêncio é proteção.

As experiências são a essência da vida, o que nos redimensiona e nos traz a sabedoria. Para quem vivia dentro do mesmo ambiente durante várias horas do dia, fazendo sempre a mesma coisa, os dias na Amazônia foram a expansão da mente e do coração. Estava mais disponível ao novo, ao diferente.

O convívio com as comunidades indígenas do Alto Rio Negro foi um marco de mudança de minhas perspectivas. Fomos recebidos com apreço, com certa expectativa, olhares curiosos que atentavam sempre para o que não damos valor - um saco de bolacha, uma peça de roupa – somados por abraços calorosos de quem esperou tanto por aquele momento. Momento de conviver, de trocar, de coexistir.

Entrei em outro tempo, um tempo sem tempo, era uma observadora experimental, sem um “propósito” específico de estar ali, sem um plano para a semana seguinte, sem saber para onde ia e quando voltava, rodeada pela densidade da natureza, pelo ar úmido e quente, por pessoas desconhecidas de uma cultura sobre a qual não tinha nenhuma informação. Estava perceptiva, tendo como única bússola para minhas ações os meus sentimentos.

Saía pela comunidade observando, fotografando, registrando o que sentia, escrevendo poemas, me comunicando com os indígenas pelo olhar, às vezes sem dizer uma palavra. Foi-me permitido pelo chefe da comunidade realizar as fotografias, mas os olhares de consentimento foram os mais significativos. Como se abrissem o universo de suas vidas, de suas almas, para que entrasse para conhecê-los, com respeito e admiração. Eu sentia o amor de seu coração, a pureza das crianças, a beleza, alegria, o medo, e com cada um estabelecia uma relação totalmente distinta.

Neste movimento, minhas crenças se foram por terra e eu comecei a me dar conta de que somos partes integrantes da natureza e nossas relações com o outro são essencialmente como é a relação entre seus elementos (terra, vento, chuva, sol, plantas, animais etc).

O mais interessante é que na cultura indígena tradicional, tudo que ainda está preservado segue essencialmente esta dinâmica. O conhecimento e profundo respeito e adequação às suas leis são expressas na maneira de se organizarem em comunidade: o intercâmbio e rituais entre comunidades, a divisão de trabalho entre homens e mulheres, a valorização do funcionamento em unidade (“a união faz a força”, dizia o chefe da tribo de “Camanaus”).

Rememorar todo este trajeto tem a finalidade fundamental de promover a reflexão sobre a importância da memória no resgate de valores e do sentido fundamental da vida, de seus aspectos mobilizadores, necessários para a requalificação das relações humanas.

Até hoje a lembrança da experiência de convívio com os habitantes das comunidades do Alto Rio Negro se eterniza em minha memória. Pessoas que, envoltas na simplicidade e pureza dos sentimentos, me ensinaram a resgatar o amor pela natureza e a reconhecer os valores fundamentais que hoje servem de referência para a vida.

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