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Sociedade

"Bispo de sangue"

Memórias de Waldyr

por Eduardo Graça — publicado 01/12/2013 18h43, última modificação 02/12/2013 10h32
Eduardo Graça homenageia o "bispo de sangue", que morreu neste sábado: Dom Waldyr tinha uma visão particularíssima do púlpito e da atuação de um líder religioso em tempos bicudos
Reprodução de TV
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Dom Waldyr discursa aos operários em greve da CSN, em 1988

Eu era um adolescente, estudava em um tradicional colégio católico e não tinha a menor ideia do privilégio de se ter como principal liderança religiosa da comunidade uma figura da dimensão de dom Waldyr Calheiros (1923-2013). O “Bispo de Sangue”, que morreu neste sábado, depois de passar o mês no hospital, com uma infecção pulmonar, comandou, durante 34 anos, de 1966 a 1999, a diocese mais importante do sul fluminense, a de Barra do Piraí e Volta Redonda, no Vale do Paraíba do estado do Rio de Janeiro. Foi, provavelmente, meu primeiro entrevistado formal, muito antes de arriscar minhas primeiras reportagens nas redações dos diários cariocas. A tarefa era para um trabalho de alguma disciplina já aposentada do currículo escolar – Organização Social e Política Brasileira, se a memória não falha – e o tema central girava em torno da discussão da separação de Estado e igreja (s) na nova Constituição do país recém-saído da ditadura.

Waldyr – o ‘dom’ foi retirado de cena, a pedido do próprio, na primeira pergunta, certamente formulada de modo confuso, pelo menino de 13 anos, e assim seguirá neste texto – tinha mais o que fazer em tempos atribulados, de inflação alta, desemprego, arrocho e esvaziamento, pelo Vaticano, das Comunidades Eclesiais de Base (CEBS) que tanto defendia, mas recebeu o estudante com alegria e uma nada envergonhada eloquência. A força do discurso me arrebataria, um ano depois, a poucas quadras de minha casa, em suas condenações públicas à ocupação pelo exército da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), em 1988, uma decisão do governo Sarney que resultou na morte de três operários e em um fato inédito na história contemporânea brasileira – o apoio unânime da população a uma paralisação de trabalhadores.

A violência contra os grevistas, o desrespeito à Constituição que havia sido promulgada menos de um mês antes do primeiro confronto nas ruas da Vila Santa Cecília, a morte dos jovens trabalhadores Carlos Augusto Barroso (19 anos), William Fernandes Leite (22) e Walmir Freitas Monteiro (27), foram denunciadas com veemência pelo mesmo Waldyr que recebera o menino com paciência de Jó em seu recanto na Catedral de Nossa Senhora das Graças.

No momento mais difícil da ocupação, e lá se vai um quarto de século, os cidadãos em greve foram encurralados pelo exército nas ruas sem nome atrás do antigo Escritório Central da CSN, cortadas pelas então avenidas 2 e 4. Minha família morava na rua 11. Meu pai estava dentro da siderúrgica. Não havia saída: ou bem se abriam as portas para os operários, ou estes seriam baleados. Não sei precisar quantas almas se inspiraram pelo anúncio – mais uma vez, público, corajoso, cioso de sua relevância para a comunidade – de Waldyr de que ele próprio abrigara, na Sé, a liderança do movimento, mas o ato de solidariedade se repetiu, casa após casa, com a população evitando uma tragédia ainda maior. Foi Waldyr, também, quem liderou as primeiras negociações entre trabalhadores e as forças armadas naquela primavera sombria.

Ele é personagem importante de “A Ditadura Escancarada”, de Elio Gaspari. Em um dos trechos de sua narrativa – cujas fontes principais são “O Bispo de Volta Redonda: Memórias de Dom Waldyr Calheiros”, organizado por Célia Maria Leite Costa, Dulce Chaves Palndolfi e Kenneth Serbin, e editado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV); depoimento dado pelo líder religioso a Paulo Moreira Leite em dezembro de 1988; e entrevista dada a meus ex-colegas de ‘Jornal do Brasil’ Murilo Fiúza de Melo e Francisco Luiz Noel, em 1997 – o jornalista escreve que “D. Waldyr Calheiros costumava brincar dizendo que ‘mexer com bispos traz falta de sorte’”. Ele sabia do que falava.

Segue um trecho do livro, que revela o tamanho do personagem que o Brasil acaba de perder, quando Waldyr denunciou o caso de soldados de um quartel do Exército nos limites de sua diocese, torturados e assassinados em 1971 sob as ordens de um capitão, orientado por um tenente-coronel. Foi por conta de sua movimentação que se descobriu a barbárie contra quatro soldados de 19 anos por conta de uma suspeita de haver uma ‘boca-de-fumo’ dentro do quartel de Barra Mansa. Um foi degolado, um outro teve seu corpo incinerado, um terceiro teve a cabeça colocada em uma prensa. Este foi, aliás, o único caso de torturadores encarcerados e condenados no período mais duro da repressão militar:

“Com d.Waldyr os comandantes do I Exército e do Primeiro Batalhão de Infantaria Blindada (BIB), localizada na vizinha Barra Manda, mexeram até onde puderam. Interrogaram-no, indiciaram-no em IPMs, chegaram a prender os maridos de senhoras que trabalhavam nas obras sociais da diocese. O ministro da Justiça tentara depô-lo pedindo sua transferência ao núncio apostólico. Pouco depois da Assembleia da CNBB um padre que passara pelo BIB contou-lhe uma história horrível. Foi verificá-la no mesmo dia. Um velho senhor que podia confirmá-la confessou:

-       Eu gostaria tanto de falar com o senhor, mas eles proibiram

-       Se eles perguntarem, diga que fui eu quem o procurei – respondeu o bispo.

No dia seguinte, o velho estava preso, mas d.Waldyr conseguiu reconstituir o que acontecera no quartel do tenente-coronel Gladstone Persanetti Teixeira no início de janeiro de 1971. Comunicou os fatos ao núncio apostólico e a d.Ivo Lorscheider, secretário-geral da CNBB. O assunto foi levado a uma das reuniões da Bipartite (nota do repórter: comissão que reuniu lideranças religiosas e militares durante a primeira metade da década de 70). Quando d.Ivo acabou de contar sua história, o general (Antônio Carlos da Silva) Muricy defendeu-se: “Duvido que o Exército brasileiro tenha praticado atos desta natureza”.

Mas Waldyr, que passou a vida incomodando os poderosos, nunca deu muita atenção a bravatas de ocasião, dentro ou fora da Igreja. Depois de sua ação durante a repressão à greve de 1988, em que apontou as contradições do jardim de infância da nova democracia, recebeu reprimenda do Vaticano, dentro da lógica de combate à Teologia da Libertação. Reagiu com humildade, sem deixar de se manter fiel a seus princípios.

Para as cidades de sua paróquia, Waldyr foi inesgotável fonte de inspiração, moral e política. Para o menino curioso, ofereceu a lição, no espaço de um ano, de que o púlpito, por si só, pouco ultrapassa os limites do simbólico. Já a voz, firme, clara, reta, oportuna, fez do “Bispo de Sangue” – epíteto carinhoso, dado pela população local – um líder religioso singular na tal maior nação católica do planeta. Que descanse em paz.