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Entrevista / Thamiris Sato

"Me senti impotente e com nojo", diz estudante que teve fotos íntimas vazadas

por Bruna Carvalho — publicado 29/11/2013 06h32, última modificação 30/11/2013 10h11
Thamiris Sato, 21 anos, acusa ex-namorado de ser responsável por divulgar material após término do relacionamento
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Parte do desabafo-denúncia postado por Thamiris no Facebook

Thamiris Sato, 21 anos, teve sua intimidade exposta na internet. O episódio ocorreu no fim de outubro, quando mensagens de desconhecidos no Facebook oferecendo ajuda em troca de favores sexuais a alertaram para o que havia acontecido: uma foto dela nua estava em sites pornográficos e em perfis falsos da rede social.

A humilhação foi tamanha que a estudante de Letras da USP pensou em transferir o curso para outra cidade ou Estado, fazer um intercâmbio na Rússia e até mesmo em cometer suicídio. Ela decidiu, entretanto, virar o jogo. Também por meio do Facebook, Thamiris publicou um dossiê com mensagens e e-mails para acusar o ex-namorado, um estudante búlgaro da mesma faculdade, pelo vazamento das imagens. “Me senti impotente. E com nojo”, afirmou.

Thamiris decidiu terminar o namoro de um ano e sete meses em julho, e, segundo ela, a partir daí, as ameaças de expor suas fotos começaram. “Foram quase dois meses sem ir à delegacia, até que ele me ameaçou de morte em setembro.”

A estudante fez um boletim de ocorrência contra o ex-namorado no início de outubro e, semanas depois, a foto íntima foi publicada na internet. “Atualmente, a situação mais difícil é ter de trancar meu curso de Letras na USP, pois meu ex-namorado também estuda lá”, relatou.

A reportagem da CartaCapital tentou contato com o ex-namorado de Thamiris por e-mail e por telefone, mas não obteve retorno. Em resposta publicada em seu perfil no Facebook, ele negou ser responsável pelo vazamento das imagens e disse que, apesar de ter feito as ameaças, jamais cogitou concretizá-las. Seu perfil na rede social foi excluído.

CartaCapital: Por quanto tempo você e seu ex-namorado se relacionaram? No Facebook, você relatou ter sofrido ameaças. Quando elas começaram?

Thamiris Sato: Nos relacionamos por mais ou menos 1 ano e 7 meses. O começo e o meio do namoro foram muito bons, eu confiava muito nele e toda a minha família o conhecia. O final do namoro, porém, foi muito conturbado. Terminávamos e reatávamos diversas vezes, porque ele era muito insistente e fazia várias chantagens emocionais. Com um fim mais "definitivo" em julho deste ano, as ameaças de me expor começaram. Foram quase dois meses sem ir à delegacia, até que ele me ameaçou de morte em setembro. Ele continuou enviando e-mails quase que diariamente, dizendo que me perdoava - como se eu fosse culpada -, com ameaças e pedindo atenção.

CC: Como você soube que suas fotos íntimas estavam circulando na internet?

TS: Mensagens de desconhecidos chamaram minha atenção para as fotos. Algumas alertavam sobre o ocorrido, outras ofereciam ajuda em troca de favores sexuais ou ainda mais fotos e houve também quem me convidasse para "festas íntimas" e coisas semelhantes. Me senti impotente. E com nojo.

CC: Você chegou a cogitar suicídio ou fuga?

TS: Diversas vezes, pensei em resolver tudo com suicídio, mas me contive por afeto e amor aos meus familiares. Colocar-se no papel do outro é fundamental. Imaginei todo o sofrimento que um ato egoísta poderia causar à minha família, e como um suicídio afeta cada uma das pessoas que vivem ao seu redor. Lidar com tudo é muito cansativo. Cogitei fazer intercâmbio para Moscou, na Rússia, e também pedir transferências para universidades em outros estados e cidades.

CC: Você sofreu algum tipo de preconceito por causa do episódio?

TS: Apesar de muitos me apoiarem, várias pessoas me culparam, pois eu "deveria saber" que não posso aproveitar minha intimidade da forma que desejo. Claro que para meu ex-namorado essa possibilidade existe, pois ele não é condenado nem perseguido por sua intimidade exposta. A sociedade está dividida, mas, se casos semelhantes ao meu acontecem, é porque não há um combate generalizado em favor das minorias.

CC: Você teve que alterar algum hábito de sua vida depois do ocorrido? Você teme pela sua segurança?

TS: Tenho de lidar diariamente com inúmeras mensagens no Facebook, algumas com assédios. Atualmente, a situação mais difícil é ter de trancar meu curso de Letras na USP, pois meu ex-namorado também estuda lá. Estou tentando contornar isso, pois quero retomar meus estudos, mas não tenho condições diante da perseguição dele. Não sei o que ele é capaz de fazer. Se as ameaças de me expor foram concretizadas, não duvido da possibilidade de ele me matar.

CC: Por que você decidiu tornar sua história pública?

TS: Decidi contar minha história depois de receber centenas de mensagens com todo tipo de conteúdo, como uma forma de retratação pública. Ninguém próximo a mim sabia que eu iria publicá-la, mas, depois, minha família me apoiou muito, assim como meus amigos.

CC: Foi uma forma de contribuir para o debate?

TS: Definitivamente, sim. Diversos sites usaram minha história para reafirmar o caráter da nossa sociedade opressora. Também acredito ser importante informar outras pessoas, principalmente as mulheres muito jovens, sobre os riscos que cerceiam a liberdade, a dignidade e o bem-estar. Afinal, quem não conhece a história está fadada a repeti-la.

CC: Que atitudes você tomou contra seu ex-namorado?

TS: Por enquanto, tenho somente o boletim de ocorrência referente à ameaça de morte. Mas já estou providenciando todas as iniciativas que tenho à mão, como a queixa-crime e a ordem de restrição.

CC: O deputado Romário (PSB-RJ) apresentou recentemente um projeto de lei que criminaliza a divulgação indevida de material íntimo. Acredita que se uma lei como essa já existisse, o que aconteceu com você poderia ter sido evitado?

TS: A lei é necessária, mas não é suficiente. Com a lei, surge a possibilidade de que se encaminhe à Justiça alguns casos, que haja um debate. Mas o problema é estrutural. A sociedade e as instituições que não conseguem, ou não querem, combater o machismo, o racismo, a homofobia e outras opressões nem dentro das escolas, a partir da educação infantil, nunca conseguirão se livrar de seus crimes. Com ou sem lei, ainda não há campanhas efetivas de combate à discriminação.

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