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Análise

Manifesto sobre a esquerda-caviar

por Rosana Pinheiro-Machado publicado 15/12/2014 13h42, última modificação 15/12/2014 14h40
Quando alguém te chama assim, esta pessoa está amedrontada, mas também revoltada pelo sentimento de uma suposta traição de classe

Não, eu não vim aqui defender as ovas de peixes. Isso seria tão ridículo como insultuoso. Mas sim, eu vim aqui reivindicar a abundância, a distribuição de renda e o direito ao prazer.

O termo “esquerda caviar”, ao tentar associar a esquerda ao voto de pobreza, não é apenas intelectualmente falho, como também é moralmente desonesto. A expressão procura vender a ideia de que a esquerda deveria ser paupérrima, uma vez que defende um regime igualmente paupérrimo. Dupla mentira.

Para quem orquestra essa ideia, o objetivo é requentar velhas mitologias que procuram espalhar o medo, conter a identificação com o socialismo e deslegitimar seus integrantes por meio da acusação de um comportamento contraditório. Quando alguém te chama de esquerda-caviar, esta pessoa está amedrontada, mas também revoltada pelo sentimento de uma suposta traição de classe.

Para começar, eu gostaria de retomar uma frase citei no passado, a qual causou alvoroço entre alguns setores da direta: "a pobreza é uma invenção do capitalismo". Acrescentei, ironicamente, que, se essa afirmação é válida, faz todo o sentido ter uma direita-coxinha e uma esquerda-caviar. Não é de admirar que, após esse tipo de declaração, além do cliché de me mandar para Cuba, tive que enfrentar uma verdadeira caça às bruxas, com direito a telefonemas em meu local trabalho, caixa de e-mail lotada de insultos, vida pessoal vasculhada, fotos expostas, ameaça de estupro e o sincero desejo de que eu morresse – pobre e podre – na Coréia do Norte. Foi aí que entendi que não se toca em pontos sensíveis impunemente...

Ao associar a pobreza ao capitalismo, eu não apenas questionava o monopólio do deleiteque a direita usa como trunfo simbólico para vender o sonho da distinção (a cenourinha inalcançável que se coloca lá na frente na corrida de classes) – , como também lembrava que esse sonho, inescapavelmente, apenas se concretizaria entre muitos poucos. Afinal, a pobreza – para qual toda a esquerda deveria sacramentar seus votos –, é uma condição necessária da desigualdade estrutural do capitalismo global: a miséria de muitos sustenta a riqueza de poucos.

Teria sido interessante, àquela altura, ter repassado a lição que aprendemos na oitava série: a de que o bem-estar dos países ricos foi construído sobre espoliação violenta – física e psicologicamente – de continentes inteiros, de povos nativos que desconheciam a miséria e que se mantinham por meio de regimes autossustentáveis e autorregulados. Mesmo com o fim do colonialismo, as formas de dependência econômica e cultural continuaram agindo para manter um aparato de intervenção sobre a pobreza que, em última instância, visa o seu controle disciplinar e a sua manutenção. Infelizmente, não há nenhuma previsão de que o mundo esteja mudando positivamente neste sentido. Ao que tudo indica, estamos adentrando em um dos piores cenários já produzidos pelo capitalismo global.

O resultado desse sistema que se regenera e se renova e é o aumento da produção da riqueza e a pobreza concomitantemente. O mundo nunca foi “tão rico” e desigual. Segundo o último relatório da Credit Suisse, nos últimos dez anos, a riqueza global dobrou (USD 263 trilhões). O problema é que a desigualdade também é recorde: 1% da população mundial detém praticamente 50% dessa riqueza. Essa fotografia que vai ao encontro do badalado relatório da Oxfam de 2013, que constatou que 85 famílias detêm a mesma renda que 3,5 bilhões de pessoas, isto é, a metade da população mundial.

Temos, hoje, evidências poderosas de que a desigualdade é extrema e crescente. O modelo vigente é duplamente falho, seja porque é insustentável e destrói os recursos naturais do planeta, seja porque é incapaz de lidar com a miséria que ele mesmo produziu. Mas há quem prefira viver na fantasia dessa riqueza virtual. Ao contrário do argumento liberal – de que a riqueza produzida gera mais riqueza em forma de crescimento econômico, trabalho e oportunidades – o capital não tem retornado ao mercado, mas tem se concentrado nos cofres privados de poucas famílias, o que nos leva a uma forma de capitalismo patrimonial, como mostra o economista Thomas Piketty.

Em vez de promover uma apologia à pobreza, a esquerda reivindica a distribuição de riqueza e o direito a abundância, que é gerada tanto pelo trabalho coletivo tanto pela própria natureza.

O imaginário da esquerda “franciscana” é totalmente equivocado porque vai de encontro ao o próprio princípio da luta de classes: de que é preciso encontrar um equilíbrio entre os poucos que têm muito e os muitos que têm pouco. O direito ao prazer deve ser uma bandeira central no socialismo também porque isso vai contra a cultura cristã ocidental que valoriza o sofrimento, a punição e a culpa, resultando na subordinação do mundo material ao imaterial. A luta é pela possibilidade de corpos mais livres, por experiências sensoriais diversas e por menos biopoder. O problema, portanto, não é – nem deve ser o desfrute da vida, dos sabores, dos cheiros, das texturas, dos lugares. O problema é justamente a privatização dos prazeres.

Para alguns, o direito ao deleite tem sido a bandeira do lulismo, que se caracteriza pela a inclusão dos setores populares na sociedade de consumo. Para mim, trata-se de coisas diferentes. Esse modelo de consumo desenfreado que se baseia na acumulação de bens é insustentável. Eu me alio aos movimentos de compartilhamento e aos teóricos do decrescimento econômico, pois acredito que seja possível perseguir de estilos de vida mais humanos e recíprocos em economias de dádivas, que possam culminar em plenitude física e material.

Dito tudo isso, por fim, parece-me que diante de um mundo em que 85 famílias concentram a metade de renda global, preocupar-se com a marca do computador de Leonardo Sakamoto ou com o restaurante que Gregório Duvivier frequenta é um ato não apenas de mesquinharia, mas também de covardia intelectual. Afinal, é preciso muita coragem para imaginar e lutar por um mundo fora de nossa casinha e zona de conforto. Grandeza e ousadia epistêmicas são qualidades necessárias para enfrentar o monstro gigante que detém uma centena de trilhões de dólares.

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