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Sociedade

Diálogos Capitais

"A proteção da África não pode se basear na caridade perpétua"

por Marsílea Gombata publicado 11/09/2013 13h26, última modificação 11/09/2013 13h55
Para Mafa Chipeta, representante da FAO na Etiópia, O Brasil deve ajudar o continente a instituir políticas públicas permanentes
Marcos Méndez / CartaCapital
Mafa Chipeta

Mafa Chipeta, representante da FAO na Etiópia fala durante debate da série Diálogos Capitais, nesta quarta-feira 11. Para ele, a caridade não pode ser uma condição eterna

Dependentes, durante décadas, de ajuda externa e da caridade, os países do continente africano precisam pensar em políticas públicas capazes de levar a um desenvolvimento social e econômico definitivo. A afirmação é do conselheiro de segurança alimentar Mafa Chipeta, ex-coordenador sub-regional para a África Oriental e representante da FAO na Etiópia. “Não podemos falar de proteção social sem falar do desenvolvimento econômico na África. Não podemos sustentá-la sem um bom desempenho da economia. Nossa proteção social não pode estar baseada na caridade internacional perpétua”, disse Chipeta durante o debate “Um Mundo Sem Fome: Estratégias de Superação da Miséria no Brasil e na África”, parte do projeto Diálogos Capitais.

Ao apontar a necessidade de se criar um processo uniforme e sistemático na agenda social da África, Chipeta lembrou que o continente que consome 30% dos alimentos globais “sempre teve ajuda de fora para alimentar seu povo, mas vem falhando ao alimentar a si mesmo”. “Isso vai continuar por décadas e décadas ou vamos, hoje, fazer alguma coisa pela África?”, questionou. “Temos de priorizar não apenas a agricultura para encher estômagos, mas também como atividade econômica, que pode ajudar no nosso desenvolvimento e na promoção de uma proteção social.”

Ao lado de Chipeta, a ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Tereza Campello, comparou os desafios do Brasil aos dos países africanos. Nos dois casos, segundo ela, o desafio é "crescer incorporando a parcela gigantesca da população que sempre esteve excluída das oportunidades e de serviços públicos como educação e saúde”. De acordo com Campello, se em 2003 o desafio do Brasil era reduzir desigualdade e superar a fome a miséria, hoje “a falta de uma nutrição adequada não é mais uma pauta nacional”.

Parte desse avanço, ressaltou a ministra, deve-se ao progresso em setores da economia, como o aumento da renda per capita especialmente para a população mais pobre; a inclusão horizontal, com destaque para o aumento de renda das mulheres e da população negra e parda; e a redução da mortalidade infantil em 40%, possível através da combinação de melhores indicadores como saúde, educação e acesso à alimentação. “Vinte e cinco por cento dessa redução deve-se ao Bolsa Família, e só isso justificaria todo esse esforço e luta contra a pobreza e desigualdade social que fizemos até aqui”, lembrou. Segundo a ministra, a cada 1 real investido no programa, 1,40 real retornam para a economia brasileira.

Em sua fala, a ministra destacou a geração de 20 milhões de empregos formais em dez anos, o aumento de 72% do salário mínimo acima da inflação, o fortalecimento da agricultura familiar e programas como o Luz Para Todos, que atingiu 3 milhões de ligações, como alicerces para o fortalecimento da agenda social e do consequente desenvolvimento econômico do País.

“O Brasil conseguiu construir uma politica pública que estabelece um patamar mínimo de renda ao qual não é aceitável que nenhum brasileiro viva abaixo”, disse. “Temos de começar por quem mais precisa. O fim da miséria é só o início. Queremos superá-la em todos os aspectos”, disse ela, ao defender as políticas para a educação e a capacitação profissional. “Dos brasileiros que estão no Cadastro Único, 700 mil tiveram qualificação profissional. Também estamos ampliando o acesso das crianças à sala de aula, e agora com o Mais Médicos vamos completar uma lacuna muito importante, que é garantir o acesso à saúde para a população mais pobre.”

Chipeta elogiou o modelo brasileiro e pediu intervenção das autoridades brasileiras nas negociações Brasil-África para mudar o modo como o continente negocia e planeja. “O mais importante seria ajuda para mudar as políticas públicas e mudar o modo de ver da África”, afirmou. “Como disse uma vez o presidente Lula na África, ‘precisamos ter a fome e a miséria como responsabilidades institucionais, não apenas incluí-las no orçamento’. ‘Tem de ser um compromisso permanente, independentemente do partido no poder’.”