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Madonna e o abre-alas

por Carlos Leonam e Ana Maria Badaró — publicado 11/02/2010 18h11, última modificação 20/09/2010 18h13
Um cortejo de centena de novos carros da Guarda Municipal engarrafou o trânsito do centro à zona sul. Sob um calor de 50 graus, fez os ouvidos dos cariocas de penico com todas, todas, as sirenes ligadas. É meio que fazer política com a cultura da bica ou da dentadura em pleno século XXI.

Um cortejo de centena de novos carros da Guarda Municipal engarrafou o trânsito do centro à zona sul. Sob um calor de 50 graus, fez os ouvidos dos cariocas de penico com todas, todas, as sirenes ligadas. É meio que fazer política com a cultura da bica ou da dentadura em pleno século XXI.

Lata d’água na cabeça e sorriso nos lábios igual a voto na urna. Mas hoje a população não se ufana de demonstrações banguelas, porque percebe quando tentam manipulá-la com pirotecnias. Aconteceu em janeiro, mas a carreata oficial fantasiada de cidadania ainda ecoa na lembrança.

Neste fevereiro entende-se menos ainda insistirem em colocar batedores abrindo alas para megastars que visitam a cidade. Soa algo provinciano para um País que, hoje, é um dos mercados mais reconhecidos e cobiçados do planeta, inclusive para a música pop. Ou há ao longo desses caminhos abertos para os famosos uma necessidade atávica de ser sempre súditos de todos os reis, qualquer rei? Ou rainha, por mais gostosona que ela seja?

Haverá sirenes estridentes e motos tonitruantes desobstruindo as vias para as estrelas do pop quando esses visitam Londres, Nova York, Paris, Madri? Ou eles passam silenciosos, e nem por isso menos reconhecidos, em suas limusines impenetráveis, como milionários e excêntricos?

Mais uma vez e, em menos de três meses, para passar a cantora Madonna que nos visita até o carnaval, as sirenes oficiais tocaram e carros, ônibus, motos e burros sem rabo tiveram de sair da frente.

Mesmo reconhecendo que as melhores intenções da namorada de Jesus de promover ações sociais no Rio e em Sampa, como faz na África, desemboquem nas antessalas e camarotes do poder, bastaria um cerimonial ir ao desidratado Galeão recebê-la com a gentileza que ela merece. E sem estardalhaço não pareceria suficiente garantir à hóspede da cidade, segurança e conforto até o seu hotel no Arpoador?

O Brasil já foi descoberto e passou a destino rotineiro, a trabalho ou a lazer, das celebs mais famosas do mundo. Mas parece que o País continua se comportando em relação aos megastars como a terra de outrora, aquela que não interessava a quase ninguém importante do showbiz. De lá para cá, e de Beyoncé em Beyoncé, já estamos no aguardo de um aceno de Lady Gaga e de quem mais chegar.

Lembram quando Sinatra veio ao Brasil? Era 2 de fevereiro de 1980. Foi um feito do empresário Roberto Medina, depois de anos de suplício e ansiedade para os fãs do The Old Blue Eyes, quando ele então realizou o sonho de seu pai, Abraão Medina – trazer Sinatra ao Rio. Mas os Beatles, a banda, os quatro Cavaleiros do Império Britânico juntinhos da silva jamais vieram aqui cantar as canções que a gente queria ouvir. Só Paul, trazido pelo mesmo Medina. Acabou-se o que era doce.

De nossa trincheira carioca, garantimos que achamos Madonna um Michael Jackson saudável e de alma magnânima. Um bicho de palco completo que já deixou sua marca na história da música pop. E desconfiamos que ela deveria achar um ó não ter vidros à prova de som nos carros que arrumam para pegá-la quando chega ao Rio de Janeiro.

Samba do avião
O Aeroporto Internacional do Rio está tão caído, tão caído, que deveria fazer por merecer ser chamado Antonio Carlos Jobim. Mas da decadência os vips que aqui aterrissam em jatos particulares são poupados. Por isso vamos voltar a chamá-lo de Galeão. O Maestro merece coisa muito melhor.