Você está aqui: Página Inicial / Sociedade / Madeiras de sangue

Sociedade

Ameaça

Madeiras de sangue

por Carlos Minuano — publicado 06/04/2011 09h01, última modificação 07/04/2011 10h41
Indústria do desmatamento ilegal avança para áreas intocadas da floresta amazônica e atinge território de índios isolados. Por Carlos Minuano
Madeiras de sangue

Indústria do desmatamento ilegal avança para áreas intocadas da floresta amazônica e atinge território de índios isolados. Por Carlos Minuano

Indústria do desmatamento ilegal avança para áreas intocadas da floresta amazônica e atinge território de índios isolados

O desmatamento ilegal na Amazônia tem crescido de forma acelerada nas últimas décadas e avança cada vez mais para dentro da floresta, chegando agora a territórios até então intocados onde vivem diferentes comunidades de índios isolados.

Uma das regiões mais afetadas pela ação ilegal de madeireiros é uma área onde vive o povo indígena awa, no Maranhão, segundo um relatório da Funai, de 2010. O documento, ao qual a reportagem da Carta Capital teve acesso, aponta dados alarmantes. O levantamento informa que 31% dessa terra indígena foram devastados pelo desmatamento ilegal – o maior na região durante o período.

Outras comunidades sofrem com a destruição criminosa da mata. Imagens divulgadas pela Funai há algumas semanas mostram índios isolados que estão migrando para o Acre afugentados pela presença de madeireiros no lado peruano da fronteira.

E o encontro com as comunidades indígenas brasileiras não tem sido tranquilo. Desde 2006, aldeias são alvos de ataques e saques – tudo regado a uma boa porção de flechadas. É o caso dos kaxinauás que vivem às margens do rio Humaitá, uma das áreas onde o desmatamento no Estado é mais intenso.

Vítimas de sucessivas investidas, os indígenas do Acre, perplexos com o fenômeno que colocou índio contra índio, apelidaram os novos vizinhos de “os brabos”. De fato, nômades e ariscos, os ‘isolados’ não parecem nada dispostos a fazer amizade.

“Eles roubam as aldeias e comunidades ribeirinhas, levam machados, facões e qualquer outro utensílio que possa ser usado como arma”, conta o indígena, Nilson Tuwe Huni Kui, integrante da comunidade kaxinauá e presidente da Associação dos Povos Indígenas do Rio Humaitá.

A explicação para tanta animosidade provavelmente está na violência que fez os isolados saírem em fuga mata adentro (em alguns casos, sob a mira de armas), a procura de paz e, prudentemente, mais isolamento.

Segundo afirma Elias Bigio, coordenador geral de Índios Isolados da Funai, desmatamento é apenas uma das ameaças. “Além da exploração de madeira, tem o avanço da soja, a mineração, prospecção de petróleo e gás, e o narcotráfico.”

O tema ganhou destaque mundial nas últimas semanas com a exibição de um documentário da série “Human Planet” da BBC. O filme, produzido com a colaboração da Funai, foi realizado durante um sobrevôo, encomendado pela emissora britânica, pelo território em que vivem os isolados do Peru.

Ainda sem data de exibição no Brasil, o documentário analisa a questão com o auxílio experiente do indigenista José Carlos Meirelles, que durante mais de quatro décadas trabalhou na Funai, monitorando comunidades de índios isolados e a ação de invasores.

Apesar dos anos de floresta, e de algumas flechadas, ele afirma que ainda se sabe muito pouco sobre essas comunidades. “É difícil convencer até o próprio Estado que eles existem”.

Por isso mesmo o rodado sertanista é favorável à circulação mundial das imagens desses povos. “Se não provarmos que existem não vai haver nenhum movimento a favor deles”, afirma Meirelles no documentário da BBC.

É possível assistir um trecho do filme [sem tradução para o português] no site da ong estrangeira Survival (http://www.uncontactedtribes.org). A beleza do filme impressiona, assim como o olhar sensível do apaixonado indigenista. “Minha utopia é que tivessem a opção de continuarem isolados”, observa Meirelles.

Entretanto, o documentário também suscita interrogações ao apontar falta de ações de governos e destacar a responsabilidade do Brasil e do Peru para a urgente proteção aos últimos indígenas isolados do planeta. Faltou mencionar e responsabilizar os clientes da atividade ilegal, ou seja, países como Estados Unidos, Inglaterra, entre vários outros do bloco europeu.

Os brabos

Os isolados da fronteira com o Peru não são tema apenas do filme da BBC. Nilson Tuwe, que vive na aldeia Humaitá também está produzindo um documentário sobre os conflitos que tiram o sossego de sua comunidade. O filme está sendo produzido em parceria com o Instituto Catitu, que trabalha na formação de cineastas indígenas e deve ficar pronto até o segundo semestre desse ano.

Diferentemente do documentário inglês, o filme de Nilson Tuwe vai além de imagens aéreas mostrando malocas e índios com arcos e flechas, “Ele procura retratar de maneira sensível o cotidiano dos que vivem naquela região”, observa Mari Corrêa, do Instituto Catitu. “O fato de ser feito por uma pessoa que vive diretamente a problemática dá um significado especial ao filme”, acrescenta a cineasta.

Etnomapeamento

A ideia de filmar o imbróglio com os isolados surgiu durante uma série de oficinas realizadas entre 2009 e 2010, organizada pela Comissão Pró-Índio do Acre (CPI), Funai, governo do estado e associações indígenas locais. “Um dos objetivos dos encontros foi mobilizar as comunidades afetadas pela presença dos ‘brabos’ para discutir soluções para o problema”, explica o indígena.

Dos encontros, segundo Nilson, saiu uma proposta de um trabalho em conjunto no sentido de proteger os irritados vizinhos. “Antigamente a tendência era de tentar ‘amansá-los’, mas agora vamos protegê-los”. O diálogo com as comunidades, segundo ele, também aponta para a possível criação de uma nova terra indígena para os isolados, em área cedida pelos kaxinauás.

Outra ação da Funai é um etnomapeamento feito com base em relatos colhidos durante as oficinas realizadas também nos rios Tarauacá, Jordão, Envira, Muru e Iboiaçu. Foram mais de 50 aldeias visitadas pela equipe, informa o sertanista Meirelles.

Essas mobilizações realizadas junto às aldeias do Acre levantaram mais de 200 ocorrências de isolados na região durante os últimos 40 anos. “Vão desde simples aproximações até roubos e confrontos com morte”, diz Meirelles.

Frentes de proteção

Atualmente a Funai mantém 12 frentes de proteção. E ainda é pouco. Só no Acre são aproximadamente mil indígenas de quatro povos isolados, segundo o relatório produzido a partir das oficinas na terra indígena do Rio Humaitá.

Essas ações todas refletem uma nova política adotada pelo órgão desde 1987, explica o coordenador, Elias Bigio. “Contato com os índios sempre trazia para eles impactos danosos, como colonização, criação de fazendas distribuição de terras, violência e morte.”

“Optamos por ação de preservação e de não contato com essas tribos”, acrescenta. Aproximação de fato, diz Bigio, só em casos de urgência, quando grupos se encontram em situação de vulnerabilidade.

Eixo da destruição

Segundo informações do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), desmatamento da Amazônia cresceu 8% entre agosto e dezembro do ano passado, comparado ao mesmo período em 2009. Em números, foram 1.236km² de desmatamento.

Embora não seja possível dimensionar com exatidão, de acordo com o Ibama, a maior parte desse número é produto do eixo de destruição do chamado cinturão do desmatamento, que inclui os estados do Pará, Mato Grosso e Rondônia. Estima-se que 20% da madeira ilegal que sai da Amazônia brasileira seja destinada ao mercado internacional.

Do lado peruano, pressionado por entidades internacionais, governo começa a sinalizar com possível cooperação no combate ao desmatamento ilegal. No começo deste mês embaixador do Peru esteve reunido com o Itamaraty para tratar de possíveis ações conjuntas.

Impactos do desenvolvimento

Não são apenas as atividades ilegais que ameaçam áreas em que vivem índios isolados. Alguns projetos de desenvolvimento na região de fronteira e atividades econômicas também podem trazer impactos, de acordo com informações da Comissão Pro-Índio (CPI), que há 30 anos atua junto às comunidades indígenas do Acre.

Além de algumas obras de infra-estrutura do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), outro programa de desenvolvimento está tirando o sono de índios e ambientalistas. É o Iirsa (Iniciativa de Integração da Infra-estrutura Regional da América do Sul), que tem por objetivo fazer a integração entre os dois países, principalmente no comércio de mercadorias.

Dois casos são apontados como os de maior impacto: a estrada Interoceânica, ligando Rio Branco ao Peru, passando por Assis Brasil e os projetos de estrada, ferrovia e interligação energética (“linhão”) entre Cruzeiro do Sul e Pucallpa (no Peru), que devem passar por dentro do Parque Nacional da Serra do Divisor e da Reserva Territorial Isconahua – além de morada de índios isolados, áreas de grande biodiversidade.

registrado em: