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Lutero, mestre e modelo de jornalista

por Edgard Catoira — publicado 23/12/2011 14h19, última modificação 24/12/2011 09h49
Edgard Catoira escreve sobre Lutero Mota Soares, ex-editor de O Globo, e um de seus padrinhos no jornalismo

Não me lembro quando conheci o jornalista Lutero Mota Soares. Sempre o via atrás de uma mesa, trabalhando, sério. Poucas vezes sorria. Lembrava muito um russo, com olhar profundo nos olhos da gente, quando conversava. Devia ser resultado de sua formação universitária de seis anos na Rússia.

Fui conhecê-lo mais intimamente quando fui para o Globo, em fins dos anos 80, depois de ter editado diversas publicações importantes. Confesso que eu tinha até a impressão de que já sabia tudo como editor. Ledo engano. E descobri isso quando assumi a editoria de Projetos Especiais do Globo. Até então, eu trabalhava ao lado do diagramador, dizia a ele quais eram as matérias principais, as fotos que iriam ilustrar as matérias. E ele me passava quantos toques teriam títulos, textos e legendas.

Só que o Globo já tinha passado dessa fase. Estava computadorizado.

Minha primeira responsabilidade no novo trabalho era fechar duas páginas, na área de Economia. Naquele dia eu era, sem me dar conta, um “foca”, aprendiz, no jargão dos jornalistas. Ainda acompanhado de um diagramador, editei a página dupla. Sem ter ideia se estava tudo correto, como eu desejava.

O secretário de redação era o, para mim sisudo, Lutero. Cheguei a seu lado, envergonhado porque por ele passavam todas as páginas do jornal, e o momento era de fechamento de algumas editorias. Assim mesmo, de pé ao seu lado, voz baixa e insegura, perguntei:

– Lutero, você poderia verificar um material para mim?

Ele me olhou – fundo, como sempre fazia – sorriu, puxou uma cadeira, e perguntou qual era o problema. Contei que estava inseguro para mandar minhas páginas e queria que ele desse uma verificada nelas para mim.

– Manda para cá que a gente resolve tudo.

Passei as páginas editadas para ele. Leu tudo, comentou pormenores, tocou numa tecla e me disse:

– Pronto, está na oficina. – E continuou:

– Você ainda vai levar algum tempo para se acostumar com o sistema digital. Não tenha problema. Sempre que precisar mandar alguma coisa para a produção, manda para mim que eu baixo! Você é bem vindo à nossa equipe. Sucesso, companheiro!

Eu estava constrangido. Ele parou tudo para, carinhosamente, fechar meu trabalho. E me assumia até que eu aprendesse os caminhos da edição digital.

Ainda comentei que, antes de ir embora, queria dar uma olhada final na prova de página. Antes de ele se virar de novo para a tela, avisou:

– Se quer mesmo ver as provas das páginas, desce já para a produção: elas já devem estar indo para a gráfica.

Como verdadeiro foca, sem ter noção se ele estava gozando de mim, agradeci, e fui tomar um café, para disfarçar minha ignorância sobre o sistema digital.

Sempre como quem não quer nada, fui para a produção e procurei o chefe do setor, cujo nome Lutero tinha me dado.

– Ah, você é o editor novo – saudou. O Lutero me disse que você estava vindo aqui. Mandei tirar cópia das páginas porque elas já foram para o fotolito.

E me entregou a cópia das páginas. O que eu estava acostumado a ver depois de horas de espera, realmente, em dez minutos, já estava indo para a gráfica.

Peguei as páginas com a boca literalmente aberta, bestificado com o que via, quando entrou o editor de Economia, Celso Itiberê e me viu com ar idiotizado. Perguntou o que acontecera e eu expliquei que estava vindo de uma locomotiva a carvão e caíra naquele inacreditável disco voador.

Quando contei ao Celso que quem tinha feito o trabalho fora o Lutero, já confessando que não esperava a agilidade toda, Celso confirmou:

– Sorte sua! Você está com o mestre Lutero.

Nunca me cansei de agradecer ao Lutero pelo carinho e a paciência nos dias seguintes. E jurando, sempre, que um dia pagaria sua ajuda, sua acolhida.

Na última vez que o vi, ele continuava a doce figura. Foi no aniversário de outro jornalista, o Murilo Rocha. Lutero foi de Visconde de Mauá, onde vivia bucolicamente desde que se aposentara para abraçar o amigo, no Rio. Mais uma vez, abraçando-o, disse que devia muito a ele, repetindo, como sempre, que quando pudesse, retribuiria.

Hoje vejo que ele morreu. Triste, longe de Mauá, minha promessa continua. Farei por alguém, em nome dele, o que ele fez por mim.

 

Uma vida plena de anjos

Desde que comecei minha vida profissional, na década de 60 – pois é, do século passado – sempre tive um apoio amigo, a famosa “mão estendida” de alguém como Lutero, muitas vezes de pessoas que eu mal conhecia.

Por esse motivo, como agradecimento a forças universais que desconheço e que sempre me protegeram, retribuo sempre, ajudando qualquer jornalista que descubro precisando qualquer tipo de necessidade.

Só a título de curiosidade, cito alguns desses anjos que passaram na minha vida. O primeiro deles foi o Giannino Carta, então editor de Internacional do Estadão, que também era responsável pelo fechamento da primeira página do jornalão. Corriam os anos 50. E, pelo menos duas vezes por semana, eu, ainda menino, ia até a redação conversar com ele para saber das novidades do dia. Mesmo com sua carga de responsabilidade, ele me recebia, parava seu trabalho e me mostrava o que acontecia de importante para ser editado na edição da manhã seguinte.

Eis como, ainda na pré-adolescência eu me inclinei para o jornalismo, sabendo das responsabilidades e dificuldades da profissão.

Anos depois, escondido de minha família, pelas mãos de Mino Carta, filho do Giannino, eu entrava numa redação como aprendiz, ou foca, no jargão jornalístico. Fora as primeiras lições de ética e informação que o próprio Mino me passou, contei com a boa vontade de gente brilhante, como Tão Gomes Pinto, Matsumoto, Luis Carlos Secco, ou o fotógrafo Osvaldo Palermo – que me orientava nas reportagens, primeiro amigo avô que tive, e que eu tratava por “você”.

Em 68, conheci Henrique Caban, outro grande mestre que tive na condução e administração de uma redação. Nessa fase, já transferido para a Bahia, a família Souza, que distribuía livros em revistas em Salvador, me adotou. Influentes, abriram todas as portas para mim, me apresentando para as principais figuras da cidade. Enquanto isso, João Carlos Teixeira Gomes, o Joca, do Jornal da Bahia, me ajudava em tudo que podia. Como Quintino, macaco velho do Jornal do Brasil, que criou a Tribuna da Bahia.

E assim foi por todo meu percurso profissional, por onde passei, de volta a São Paulo e depois quando passei a viver no Rio. E, dentro de redações, o último grande apoio que tive, que me tornou um seguro jornalista para enfrentar o novo século, foi o de Lutero.

Sem esquecer outras ajudas que sempre tive, continuo aberto para orientar quem precise de meus conhecimentos. Sempre em nome desses anjos da minha vida! Incluindo o carinho e a seriedade do Lutero.

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