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Levante em Eldorado

por Thomaz Wood Jr. publicado 17/07/2013 18h21
A malemolente república tropical está em chamas. O povo toma as avenidas. Menos circo e mais pão, bradam as hordas.

O povo de Eldorado rebelou-se. Ganhou as praças e as ruas. Agora ameaça mansões e palácios. A plácida e indolente república tropical, famosa por suas morenas, seus coqueiros e seus zabumbas, não é mais a mesma. É o que dizem...

A revolta surgiu tímida, contra a carestia e a vida vazia. A causa ganhou a simpatia da vanguarda estudantil, motorizada e computadorizada, mas sempre tão ciosa dos interesses do povo.

A onda veio das profundezas, tal qual tsunami asiático. Cresceu por obra involuntária das forças da lei, de cérebro enevoado e gatilho rápido, a fazer da ação sem medida alimento para o revide. O espetáculo conquistou corações e mentes: os peitos desnudos, os braços ao céu, o sangue inocente e a face inchada contra a pirotecnia das garruchas e a coreografia rude das armaduras.

A grande mídia rebolou e titubeou. Correu aos fatos e angariou fotos. Rendeu-se ao momento. Trocou, nas primeiras páginas, celebridades por empapuçados, craques por vândalos. Em busca de luz convocou seus analistas e seus psicanalistas. Criativos e ligeiros, os sabidinhos e sabichões espalharam vastas emoções e pensamentos imperfeitos sobre a crise.

E a causa ganhou outras causas, dezenas delas, contra isso, aquilo e tudo o mais. Tá tudo errado! Se há governo, somos contra! Agora é tudo pelo povo e para o povo! Atenas, nos aguarde! Tal qual o Oriente e a África, também os trópicos precisavam de uma primavera, nem que fosse inverno. Na falta de uma ditadura, a massa rebelou-se contra as fechaduras. E martelou óperas e prefeituras. E os passeantes cantaram, se abraçaram, quebraram e incendiaram. Pelas províncias espalharam fogo e poesia.

O tumulto, vindo das terras do Sul, chegou às praias, subiu às montanhas e avançou pelo descampado central, deixando atônitos os sacripantas de mandato e os velhacos comissionados. Zilma, a grande chefa, heroína insuspeita de lutas passadas, perdeu o prumo e tentou reencontrar o rumo. Laércio, o opositor, gaguejou e silenciou. Zelé, o grande ídolo, rei de mil façanhas, pisou na bola... de novo.

O que querem as hordas raivosas? Tanto lhes foi dado, resmungam os timoneiros magoados: os melhores circos, com as mais famosas trupes. Mas a massa está decepcionada. Prometeram-lhe o céu e entregaram-lhe o purgatório. Eldorado ia ser grande. Este era um país que ia para a frente. Todos iam poder comprar um Fiat, tomar iogurte e ter uma tevê de plasma; ahhh, a tevê de plasma! O olho dos eldoradenses cresceu. E a fatura do cartão de crédito aumento e aumentou.

Depois da exuberância e da euforia, impõe a economia, vem a depressão. O preço subiu, o crédito minguou... e a festa acabou. E ai de quem lembrar: sem trabalho e produtividade não haverá felicidade! A razão, esse efêmero produto do iluminismo, nunca foi forte em Eldorado. Os habitantes da terra foram, são e serão um povo crente, a acreditar piamente nas dádivas divinas e nas benesses estatais. O que não vem do céu deve brotar da terra. O que não é dado pelo empregador deve vir do senador.

Tanta decepção exigia culpados, fossem reais ou imaginados. Então, os suspeitos usuais foram identificados: empresários inescrupulosos, burgomestres altistas e representantes corruptos. Mas, ora, todos eles são crias da terra, nutridos por séculos pelos eldoradenses, que cada habitante da terra tem dentro de si um pouquinho de cada um deles.

Há por isso quem ouse dizer que a revolta de Eldorado é a revolta do espelho: a nação se rebela contra ela mesma, incapaz de realizar seus sonhos de moradia e regalia, sem ralar ou labutar. A massa delira e vocifera, quer tudo pronto, aqui e agora. O eldoradense espera o prazer sem o suor. Esta é uma ilha que Calvino nunca visitou.

A luta agora é uma guerra de espetáculos. Na disputa pelo discurso, a cacofonia alimenta o caos e impede a criação de senso e sentido. Nos bastidores, mestres tentam recapturar suas marionetes rebeldes. Ansiosos, usurpadores de todas as castas buscam um lugar na frente do palco. Enquanto isso, milhões de personagens seguem em busca de um autor. Para onde vão as hordas? Ninguém sabe, nem elas. Por onde elas passam, o vidro estilhaça, a noite explode e a grama desaparece... e a isso estão chamando de utopia

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