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Laudo desmente versão oficial sobre morte de militante da ALN

por Marsílea Gombata publicado 11/12/2013 17h29
Arnaldo Cardoso Rocha teria levado o dobro de tiros do que o atestado pela repressão e morto sob tortura no DOI-Codi
Arnaldo Cardoso Rocha

O ativista Arnaldo Cardoso Rocha

Diferentemente da versão oficial - a de que teria sido morto em confronto -, o militante político Arnaldo Cardoso Rocha foi assassinado por uma equipe do DOI-Codi em São Paulo, pouco antes de completar 24 anos de idade.

As circunstancias da morte, em 15 de março de 1973, foram esclarecidas após a exumação em seu corpo, realizada no dia 12 de agosto. Na ocasião, os peritos concluíram que o corpo não havia passado por uma autópsia e que havia mais projéteis na vítima do que o indicado no documento oficial.

Segundo os laudos da pericia criminal da Comissão Nacional da Verdade e de medicina legal da Secretaria de Direitos Humanos, Arnaldo foi ferido por projéteis, antes de ser levado para o DOI-Codi, na rua Tutoia, Vila Mariana, onde foi torturado e morto.

O militante da Ação Libertadora Nacional (ALN) estava ainda com os companheiros Francisco Emanuel Penteado, de 20 anos, e Francisco Seiko Okama, de 26 anos. À época, a versão oficial divulgada pela polícia era de os três haviam resistido à prisão ao serem abordados pelas forças de segurança na rua Caquito, na Penha, e que dois deles teriam morrido no local. Entretanto, testemunhos colhidos nos anos 80 apontam que, pelo menos dois deles, Rocha e Seiko, foram atingidos e levados para o prédio parte do aparato da repressão militar.

De acordo com o fisiologista Marco Aurélio Guimarães, que coordenou a exumação realizada por peritos do Centro de Medicina Legal da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP), o corpo do militante da ALN estava sepultado em uma urna metálica, em um local onde havia um alagamento. “Trata-se de um fato muito inusitado. Implica que a inundação ocorreu logo em seguida do sepultamento”, explicou o perito nesta quarta-feira 11, durante a apresentação oficial do laudo durante o Fórum Mundial de Direitos Humanos, em Brasília.

Além disso, segundo Guimarães, foram encontrados seis projéteis que ainda estavam no corpo de Rocha, além de lesões bastante peculiares. “O padrão de distribuição de simetria e bilateralidade das lesões indica intencionalidade e é altamente sugestiva da ocorrência de tortura”, afirmou.

Assim, enquanto a causa da morte atestada passou a ser de traumatismo crânio-encefálico, a causa jurídica da morte de Rocha foi revisada para homicídio doloso. Presente na apresentação do laudo, a ministra de Direitos Humanos Maria do Rosário pediu que o Estado brasileiro assuma a responsabilidade pelo assassinato do militante.

Viúva. A exumação do corpo do militante morto há mais de 40 anos foi feito por Iara Xavier Pereira, viúva de Rocha, também presente da apresentação dos laudos.“Queremos que os agentes responsáveis por esse crime respondam por ele. Queremos o esclarecimento das circunstâncias”, declarou na sessão em Brasília. “Esses assassinos foram anistiados, e se não pressionarmos, nada será feito.”

No laudo necroscópico original, os médicos Isaac Abramovitc e Orlando Brandão, atestam a versão da repressão e informam que o corpo de Rocha possuía sete perfurações de bala. Os peritos, no entanto, encontraram marcas de pelo menos 15 tiros, em um total de 30 perfurações.

“Trabalhou-se com o laudo da mentira para transformá-lo em laudo da verdade”, observou a advogada Rosa Cardoso, membro da Comissão Nacional da Verdade. “Essa pessoa foi assassinada.”