Você está aqui: Página Inicial / Sociedade / Este homem quer imprimir TODA a internet

Sociedade

Arte

Este homem quer imprimir TODA a internet

por Piero Locatelli — publicado 08/06/2013 17h43, última modificação 08/06/2013 18h22
Projeto colaborativo do poeta norte-americano Kenneth Goldsmith é uma homenagem ao ativista Aaron Swartz, que cometeu suicídio em janeiro
Divulgação
Kenneth Goldsmith

O poeta norte-americano Kenneth Goldsmith.

“A ideia é simples: imprima tanto quanto você quiser da web, seja uma folha ou um caminhão, envie para a Cidade do México, e nós vamos apresentá-lo na galeria durante a duração da exposição.” Com esse convite, o poeta norte-americano Kenneth Goldsmith busca colaboradores para imprimir a internet e a expor. Os voluntários devem enviar e-mails, posts de blog ou outros sites impressos de forma simples em papel A4.

Estimativas do site Techhive dão conta que seriam necessárias 4,73 bilhões de páginas para imprimir todos os sites da internet, que ocupariam mais de 23 mil caminhões. Isso sem contar os 144 bilhões de e-mails enviados todos os dias. Então, para que imprimi-los? “A internet é o maior poema já escrito. Como usuários da web, todos nós estamos contribuindo neste projeto poético. Vamos chamá-lo de um poema colaborativo,” diz o poeta, em entrevista por e-mail à CartaCapital.

A tarefa, de conclusão impossível, é uma homenagem a Aaron Swartz, ativista que se suicidou em janeiro deste ano. O norte-americano de 26 anos aguardava o julgamento pelo download de milhões de artigos acadêmicos, posteriormente disponibilizados gratuitamente na internet.

Goldsmith foi convidado pela galeria mexicana Labor para fazer uma homenagem ao ativista. Para cumprir a tarefa, ele escancarou a quantidade de informações presentes na internet. “Como tantas pessoas hoje em dia, Aaron estava trabalhando para liberar as informações que deveriam ser de domínio público, com acesso gratuito a todos. Mas ele foi perseguido por um ato que nasceu da generosidade. É uma lição para todos nós, que nos faz querer lutar ainda mais para o livre acesso à informação cultural vital,” diz o poeta.

Goldsmith compara o legado de Aaron ao seu trabalho na Ubuweb. Ele concebeu o maior arquivo digital de arte de vanguarda do mundo, apesar de não deter os direitos das obras. Como não lucra com ele, diz nunca ter sido processado.

Críticas ao projeto

No site usado para viabilizar o projeto, Goldsmith publica links das críticas ao seu trabalho, ajudando a divulgá-las. “Na arte conceitual, a conversa é muitas vezes mais importante do que o produto resultante. Os críticos são parte essencial da conversa,” diz.

Entre os textos que o criticam, uma petição pede o fim do projeto por causa da sustentabilidade: "embora se reconheça que o senhor Goldsmith pretende reciclar o papel usado em sua exposição de arte, a redução do uso é mais importante do que a reciclagem pós-uso." Um artigo, na revista Vice, faz crítica semelhante com o título “quantas árvores são necessárias para encher um espaço mexicano com sites impressos?”

“Toda arte é espetáculo, todo espetáculo é material, e todo material deve vir de algum lugar,” diz Goldsmith em sua defesa. O poeta compara sua obra com a Bienal de Veneza, principal exposição de arte do mundo que está ocorrendo atualmente na capital italiana. “O evento trás uma imensa pegada de carbono e iates hediondos.” Ele também critica as obras de Jeff Konos, autor de esculturas de alumínio que chegam a custar 35 milhões de dólares. “Eu diria que o meu projeto, com a sua atitude inclusiva e final reciclável, parece muito bom em comparação (a essas obras)”, diz.

A íntegra desta resposta e a pergunta deste repórter foram copiadas e coladas no site do projeto feito por Goldsmith. A sua “cópia” vai de encontro às outras obras do autor e da sua concepção de “escrita não criativa” – em que o poeta age como um curador e não busca a originalidade. Ele já fez um livro com a transcrição de uma edição inteira do The New York Times. Em outra obra, transcreveu locuções feitas no rádio em sete desastres, como a morte de John Kennedy e os ataques de 11 de setembro. Será que alguém vai imprimir esta entrevista e enviar ao México?

registrado em: