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Corrupção no futebol

Investigação na Fifa atinge Ricardo Teixeira

por José Antonio Lima publicado 28/05/2015 11h25, última modificação 28/05/2015 11h27
Presidente da CBF por mais de 20 anos, ele teria recebido US$ 15 milhões em apenas um contrato
Marcello Casal Jr. / Agência Brasil
Ricardo Teixeira

Ricardo Teixeira durante evento da Copa do Mundo do Brasil em 2010, na África do Sul: sua gestão é manchada por inúmeros casos de corrupção

A investigação do FBI sobre o esquema de corrupção na Fifa e na Confederação Brasileira de Futebol atinge de forma direta Ricardo Teixeira, que presidiu a CBF entre 1989 e 2009. O nome do dirigente não é citado abertamente, mas a investigação das autoridades norte-americanas deixa claro que ele recebeu propina em ao menos dois negócios: no contrato da entidade que comanda o futebol brasileiro com a Nike e na venda de direitos de transmissão da Copa do Brasil.

O Departamento de Justiça dos EUA tornou públicas duas peças acusatórias na quarta-feira 27: uma delas contra o empresário J. Hawilla, dono da Traffic, e outra contra uma série de integrantes da Fifa, inclusive José Maria Marin, sucessor de Teixeira na presidência da CBF até 2015, quando deu lugar a Marco Polo del Nero, atual dono do cargo.

Nos dois inquéritos, os investigadores citam o caso de patrocínio fechado entre a CBF e a Nike, cujas negociações tiveram início em 1994 e foram finalizadas em 1996. Segundo as autoridades, Ricardo Teixeira e J. Hawilla negociaram o contrato com a Nike para a empresa norte-americana se tornar a fornecedora de material esportivo da seleção brasileira. Com validade de dez anos, o contrato era avaliado em 160 milhões de dólares.

Do valor total previsto no contrato, 40 milhões de dólares deveriam ser remetidos diretamente pela Nike à Traffic, como comissão pelos serviços prestados pela empresa de marketing esportivo de J. Hawilla. Os inquéritos não explicam como isso ocorreu, mas em vez de 40 milhões de dólares chegaram à Traffic 30 milhões de dólares. Metade desse valor, afirma J. Hawilla, foi entregue para Teixeira, ou seja, 15 milhões de dólares.

Esse personagem que negociou o contrato entre a CBF e a Nike ao lado de Hawilla (Teixeira, como mostram registros históricos) aparece como "co-conspirador número 11" no inquérito em que Marin é citado nominalmente e como "co-conspirador número 13" na ação contra Hawilla. Designado como um integrante de “alto nível” da Fifa e da CBF e membro da Conmebol, o "co-conspirador número 13" só pode ser Teixeira, pois ele foi o único todo-poderoso do futebol brasileiro por mais de duas décadas.

A prova mais cabal sobre o co-conspirador ser Teixeira, no entanto, está posta no inquérito contra Marin. Ali, os investigadores detalham como os direitos de transmissão da Copa do Brasil, torneio anual de clubes brasileiros, eram alvo de corrupção. De acordo com a acusação, a Traffic pagava propina a Marin e a outros dois dirigentes da CBF 2 milhões de reais por ano por esses direitos.

De acordo com a denúncia do FBI, em 2014 Marin se encontrou com J. Hawilla em Miami, nos Estados Unidos, e foi questionado sobre a necessidade de a propina continuar fluindo para "seu antecessor como presidente da CBF", que era Ricardo Teixeira. Marin, então, respondeu: “’Já é tempo de vir na nossa direção [a propina]. Certo ou errado?’ O Co-Conspirador #2 [J. Hawilla] concordou dizendo  ´Claro, claro, claro. Esse dinheiro tem que ser dado a você. Marin concordou: ´É isso. Está certo’”. 

Na peça contra J. Hawilla, esse diálogo entre Marin e o empresário não consta, mas é possível saber quando a corrupção na Copa do Brasil teve início: em 1990, ainda durante a segunda edição da competição, criada pelo próprio Ricardo Teixeira ao assumir a CBF. Segundo Hawilla, ele pagou, entre 1990 e 2009, propina pelos direitos da Copa do Brasil “de tempos em tempos” a Teixeira.