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Jaraguá

Indígenas vivem situação precária dentro de SP

No menor território indígena do país, moradores enfrentam problemas de saúde e saneamento enquanto buscam ampliar limites da sua terra
por Piero Locatelli — publicado 18/09/2013 07h07, última modificação 19/04/2016 09h43
Piero Locatelli
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Falhas na saúde pública afetam mais as crianças

Seu Joaquim foi trabalhar como caseiro nos anos 60 em uma chácara ao lado do pico do Jaraguá, ponto mais alto da cidade de São Paulo. Índio guarani, ganhou a posse da terra quando ela foi abandonada por seu dono. A área, distante 25 quilômetros do centro de São Paulo, era limpa e preservada – cenário que permaneceu assim durante décadas. “Quando eu era mais novo, nos anos 90, eu conseguia pescar peixe, a gente se alimentava deles e ainda plantava. Tudo aqui era limpo,” diz David Martim, morador da aldeia.

Nos últimos vinte anos, a urbanização da região se acentuou e chegou à aldeia indígena, formada a partir da família de Seu Joaquim e da sua esposa, Jandira Kerexú. O cenário da aldeia agora é muito diferente daquele recordado por David, que é neto de Jandira. Hoje há animais abandonados, água poluída e esgoto a céu aberto. “Há muito rato, cachorros e fezes deles. Tudo isso acaba contaminando o solo da nossa aldeia, que é muito pequena. As crianças brincam em cima desse espaço, e aí têm diarreia, verminoses e problemas respiratórios por causa da friagem,” conta David.

Delimitada em 1987, a aldeia Tekoá Ytu, conhecida como “aldeia de baixo”, é a menor terra indígena do país, com dois hectares. Ao seu lado, a estrada do Estrada Turística do Jaraguá divide a área dela e da aldeia Tekoá Pyaú, a “aldeia de cima”. Os indígenas buscam a demarcação de 530 hectares para a aldeia de cima, mas a regularização da terra ainda espera aval do Ministério da Justiça. A população das aldeias só tem aumentado e, com a urbanização, os indígenas dizem que os problemas também têm se tornado maiores.

“Não foi a gente que poluiu o rio e o solo. Não foi a gente que escolheu essas chácaras todas ao redor da aldeia. Não foi a gente que jogou esgoto. E não foi a gente que escolheu fazer a Rodovia dos Bandeirantes, que matou os animais que tinham aqui. O governo tem que por a mão na consciência diante desse descaso e nos ver como injustiçados. Precisamos que o nosso direito nesse lugar seja reconhecido,” diz David. “Nós somos julgados, sofremos preconceito. As pessoas dizem na rua :“a, eles não são índios. Eles usam roupa e estão na cidade”. Mas quando meu avô chegou aqui não tinha esse monte de casa. Os problemas foram gerados pela população em volta.”

"Crianças sofrem mais"

Os indígenas que conversaram com a reportagem contam que as crianças sofrem as maiores consequências dos problemas da aldeia. Nuas, muitas delas brincam em cima do esgoto que corre pela aldeia e fezes dos cachorros espalhadas pelo chão. No campo de futebol, no fundo da aldeia de baixo, o jogo acontece ao lado da água poluída, onde as crianças buscam a bola de pés descalços.

“O maior problema que a gente enfrenta na aldeia, a saúde, é mais forte para as crianças, que sofrem mais. A gente que é adulto ainda consegue manter uma higiene, sabe que por a mão no lixo e no chão vai fazer mal. Mas as crianças infelizmente não têm essa noção, porque elas brincam a vontade na terra,” diz David.

Depósito de cachorros

A aldeia se tornou um depósito de cachorros rejeitados, que são abandonados por carros que chegam ao local e os soltam ali. De tarde na aldeia, é mais fácil avistar cachorros do que moradores. Segundo estimativas dos indígenas no local, as duas aldeias, juntas, tem cerca de oitocentas pessoas. Os cachorros são quase quatrocentos.

Fora a castração e palestras informativas, os índios dizem que o terceiro setor e o Estado não fazem nada para solucionar o problema. “Dentro da cultura guarani, nós não temos o hábito de cuidar de cachorros. Nós criamos os animais do mato: quati, arara, lagarto. Já passou do limite,” diz Pedro Luiz Macena. “Hoje se fala muito dos animais. A gente vê na televisão e na internet que não pode maltratar os animais, mas a gente tem que se preocupar com o ser humano primeiro.”

Saneamento precário

Os problemas gerados pelos cachorros são potencializados com o saneamento precário no local. Na aldeia, há diversos rastros de esgoto a céu aberto além de lixos acumulados ao lado das casas. Alguns moradores também reclamam da falta de água no local. Sônia Sucuru Cariri conta que muitas vezes só há água corrente disponível depois das oito da noite.

“Aí os vizinhos que moram perto das aldeias vêem uma criança que vai para a feira toda suja, mas não sabem o que está passando aqui dentro. Falam 'olha, o índio não dá banho na criança'. Mas não sabem que a água na aldeia é um problema,” conta. As casas não tem banheiro próprio e os moradores usam estruturas coletivas, construídas pela Funasa (Fundação Nacional de Saúde). Os indígenas dizem que seis famílias chegam a usar o mesmo banheiro, muitos deles sujos e alguns com chuveiros queimados.

"Em relação ao saneamento básico, não melhorou nada nos últimos dez anos. E isso seria necessário para uma saúde de qualidade. A gente não tem uma água boa para tomar, fazer alimento, higiene pessoal, uma simples lavagem de mão. Se você não tem isso, o que a gente vai ter então?" diz Sônia. “Remédio feito em laboratório não vai resolver o problema.”

Falta de terra impede medicina tradicional

A terra, pouca e contaminada, compromete a medicina tradicional do povo guarani, segundo Pedro. Ele conta que não é possível colher os remédios necessários na área reduzida da aldeia. “Aqui é um território pequeno, não tem mato, não tem água boa, não tem nada para a gente poder ter nossos remédios. Isso dificulta bastante a nossa saúde,” diz Pedro. “Ter saúde para a gente é ter água potável, caça, pesca. Tudo isso é saúde para os povos indígenas, e isso você não tem mais. E a consequência disso são as doenças mesmo.”

A aldeia de baixo conta com uma Unidade Básica da Saúde (UBS). Quando a reportagem visitou o local, os funcionários, incluindo uma médica, disseram que não estavam autorizadas a dar entrevistas. Os indígenas que conversaram com CartaCapital disseram que os funcionários da UBS fazem um bom trabalho, mas não é suficiente para a demanda do local. Eles também dizem que o transporte até o hospital de Pirituba, para onde são levados os casos mais graves, é deficitário. “A gente sabe também que os recursos do governo federal são destinados para melhorar saneamento e saúde na aldeia, mas isso a gente nunca teve,” diz Pedro.

Pedro diz que o atendimento de saúde na aldeia só tem piorado desde a criação do Sesai, a Secretaria Especial de Saúde Indígena, área do Ministério da Saúde responsável pela saúde indígena criada em 2010. “Parecia bom, mas até agora, o Sesai não funcionou.”

Segundo Pedro, a única forma de melhorar a saúde dos índios é com a demarcação de mais terras. “O remédio feito em laboratório não vai conseguir resolver o problema dos povos indígenas,” diz Pedro. “O remédio que vai resolver o problema dos povos indígenas é um dia o governo chegar e dizer: “nós vamos oferecer a terra suficiente para o povo viver, onde tem caça, a água não é poluída, tem terra para vocês plantarem, colherem, e viverem à vontade.”

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