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I Castrati

por Thomaz Wood Jr. publicado 11/01/2011 13h00, última modificação 11/01/2011 13h08
A moderna mitologia corporativa celebra grandes líderes, mas esconde por trás da fachada seres impotentes a seguir com insegurança roteiros inviáveis

A moderna mitologia corporativa celebra grandes líderes, mas esconde por trás da fachada seres impotentes a seguir com insegurança roteiros inviáveis

Um cantor castrato é um homem cujo peculiar timbre de voz foi produzido pela castração antes da puberdade. A castração inibe a produção de testosterona e impede o amadurecimento sexual. Tal condição, aliada ao treinamento, provê uma excepcional flexibilidade vocal.

O apogeu dos cantores castrati ocorreu no século XVIII, quando substituíram os papéis masculinos nas óperas e se tornaram grandes estrelas, adorados pelo público. A castração era tratada misteriosamente na Itália, mas estima-se que mais de 4 mil garotos eram castrados anualmente. Muitos deles vinham de lares pobres, sendo vistos por suas famílias como oportunidade para ascensão social. O reinado dos cantores castrati durou cerca de cem anos. No século XIX, sua fama decaiu e a castração para propósito musical tornou-se ilegal.

Um fenômeno similar, porém, nada musical, está agora ocorrendo nas corporações. Como esta coluna já comentou em outras ocasiões, o conceito de liderança sofreu mutações nos últimos cem anos. O primeiro personagem a representar o mito da liderança foi o grande empreendedor. Os grandes empreendedores criaram indústrias e fundaram bancos. Foram sucedidos, nos anos 1960, pelo gerente eficiente. Os gerentes eficientes marcaram a consolidação das grandes corporações, maximizando resultados e minimizando custos. Nos cintilantes anos 1980 e 1990, o gerente eficiente cedeu espaço ao executivo celebridade. Os executivos celebridades eram seres da ribalta, que almejavam a fama e sonhavam com suas fotos nas capas das revistas de negócios.

Agora, em muitas organizações, parece estar emergindo o líder castrato, um personagem de grande amplitude vocal, capaz de ter boa presença no palco, porém, sem testosterona. Ao contrário dos cantores castrati, eles (e elas) não sofreram violência física antes da puberdade, mas foram arduamente adestrados nas melhores escolas e nas maiores empresas. Eles (e elas) sofreram para chegar ao topo, e tiveram de cimentar seu caminho com favores, alianças e concessões.

Ao menos quatro fatores estão por detrás do fenômeno dos líderes castrati. Primeiro, o aumento do poder de influência de diversos grupos de interesse, como os sindicatos, os órgãos de defesa do consumidor, as associações de classe e as organizações sociais. Todos procuram interferir na realidade organizacional, resultando em um contexto que condiciona e limita a ação dos líderes castrati.

Segundo, as reestruturações e mudanças ocorridas nas últimas décadas. Com elas, as modernas corporações tornaram-se redes interconectadas, com centros de poder descentralizados. Nessas redes, o líder castrato não é o núcleo, mas apenas mais um “nó”, a mediar conflitos e interesses, e a tentar influenciar uma agenda na qual nem sempre tem voz ativa.

Terceiro, o aumento da dependência de fornecedores, subcontratados e parceiros comerciais. À medida que as empresas se concentram em certas atividades e terceirizam tudo que não lhes parece essencial ou charmoso, atribuem a terceiros grande poder de influência sobre os seus resultados e o seu destino.

Quarto, o contexto de escassez de recursos humanos. Com o crescimento econômico, combinado com a falta de quadros qualificados, as empresas têm cada vez menos liberdade para demitir incompetentes e atrair talentos. Assim, seus líderes castrati precisam se acomodar aos profissionais existentes, mesmo que queiram vê-los pelas costas.

Com isso, os novos líderes castrati tornaram-se operadores de redes inerciais e amorfas. Operar mudanças nestas redes é uma atividade temerária, de alto risco. Garantir a própria sobrevivência passa a ser a tarefa principal. É preciso manter os diferentes grupos de interesse satisfeitos, os funcionários contentes e o barco tranquilo. O líder castrato foca, acima de tudo, a qualidade de sua performance, na qual aperfeiçoa suas habilidades dramáticas e encanta plateias cativas. A falta de testosterona não o impede de criar uma imagem forte e arrojada.

O líder castrato não é necessariamente um mau líder. Na maior parte do tempo, as empresas precisam de timoneiros bem adestrados e disciplinados, atores conscientes de seu papel de adorno nos rituais corporativos. Porém, não se deve dele esperar ações decisivas, mudanças de curso ou brilhantismo em situações de crise. Afinal, não foi talhado para tais situações. E, infelizmente, não há como lhe devolver os atributos removidos ao longo de anos de vida corporativa. Para contextos mais difíceis, é aconselhável que as organizações mantenham um pequeno estoque de líderes non castrati. Eles estão saindo da moda, mas ainda podem ser úteis em situações de emergência.

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