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Sociedade

Relato

Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome

por Jean Wyllys publicado 26/06/2014 20h46, última modificação 26/06/2014 20h49
Houve uma semana em que não tínhamos nada - nada mesmo - para comer. Eu só tinha vale-transportes. O ano era o de 1994, e estávamos já em clima de Copa do Mundo
Diego Bresani
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O deputado federal do Psol-RJ exibe sua tatuagem com verso da Maiakovski, cantado por Caetano Veloso

A fome é uma desgraça social. Não me refiro àquela vontade de comer que nos assalta em intervalos entre refeições diárias garantidas. A fome que é uma desgraça social é aquela experimentada por quem não tem perspectiva de saciá-la em momento algum do dia; pelos que não têm garantido alimento algum hoje, amanhã nem depois de amanhã; e por quem não tem os recursos mínimos para assegurar, a si e aos seus, o sal da vida. A fome que é uma desgraça social é esta que tira a dignidade de qualquer ser humano. Quem nunca olhou nos olhos de um faminto - grandes e paradoxalmente sem luz, a suplicar ajuda sem palavras - não faz ideia do que estou falando.

Essa fome que é uma desgraça social já me fez sofrer. Por causa do alcoolismo, meu pai passou a ter dificuldades em achar trabalho, formal e informal; vivia desempregado. Minha mãe se virava como lavadeira e doméstica, mas o pouco que ganhava não garantia comida todos os dias em casa (e quando garantia, era quase sempre o velho café com farinha - meu irmão George Matos não consegue se esquecer do gosto dessa mistura nem eu). Por isso, passávamos muita fome. Dependíamos da bondade dos outros (tias, tios, esposas de tios e conhecidos) para comer. Sou grato demais a quem nos estendeu um prato de comida (embora minha mãe, temendo a humilhação, preferisse que não falássemos da fome que passávamos para os outros), mas a bondade não era freqüente nem solucionava definitivamente o problema.

Não foram poucas as vezes em que fomos à escola famintos, pois, tínhamos a certeza de que só a escola nos daria a chance de vencer a própria fome (e não estou me referindo à merenda escolar, que, naquela ocasião, era intermitente). Foi também o desejo de vencer a fome que nos levou - a mim e a meus irmãos, com exceção dos dois mais novos - ao trabalho tão cedo, sacrificando parte de nossa infância e adolescência.

Até aqui este relato não se refere a uma exceção, mas a quase uma regra. Ainda há, no Brasil, milhões de pessoas castigadas pela fome apesar dos programas sociais e de transferência de renda da era Lula, que, infelizmente, ainda não alcançam a totalidade dos famintos, sejam os do campo ou das cidades grandes.

Os anos se passaram e meus irmãos e eu vencemos a fome (e a miséria que a gerava) graças à educação e ao trabalho. Porém, recém-chegado a Salvador, vindo do colégio interno da Fundação José Carvalho, e dividindo um apartamento de dois quartos no Cabula, periferia da cidade, com duas amigas e colegas de internato - uma deles é a hoje atriz e professora Adriana Drica Amorim e a outra é a hoje defensora pública Firmiane Venâncio - a fome quis me assombrar de novo. De nós três, o único com emprego fixo era eu. As meninas batalhavam por emprego enquanto estudavam. Suas famílias mandavam alguma ajuda, mas elas não abusavam desta porque sabiam que era limitada e fruto de muito esforço. Eu segurava a onda da casa, mas o que eu ganhava não garantia tudo, já que havia também o aluguel e o condomínio.

Então, houve uma semana em que não tínhamos nada - nada mesmo - para comer. Eu tinha vale-transportes, mas estes eram o que asseguraria minha ida ao trabalho. O ano era o de 1994 e, se não me falha a memória, estávamos já em clima de Copa do Mundo. Acordamos no domingo e olhamos uns para os outros sem perspectiva de como resolver aquela situação. Passaríamos o dia com fome (e talvez o restante da semana seguinte caso eu não conseguisse algum empréstimo no trabalho). Mas eis que, do nada (Terá sido mesmo do nada? Eu acredito nos mistérios da vida!), aparece, para nos visitar, um colega da Fundação chamado Jailton. Contamos sobre nossa situação e ele nos levou ao mercado mais próximo, onde compramos comida para o dia e para o resto da semana.

Preparamos uma macarronada com frango e sentamos à mesa, acompanhados de uma coca-cola litro. Ligamos o rádio para ouvirmos música enquanto comíamos, afinal estávamos tão felizes com aquele acontecido... Mal demos as primeiras garfadas e a Globo FM começou a tocar "Gente", de Caetano Veloso. Ao ouvirmos o verso "Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome", silenciamos e nos emocionamos. Era um sinal: não, não morreríamos de fome! E o que fizéssemos na vida seria, dentro dos limites da atividade, dedicado a impedir que gente morra de fome e a ajudar gente a brilhar.

Talvez tudo isso justifique o que fiz e faço hoje da minha vida, mas, com certeza, explica o fato de, anos depois, eu ter tatuado, em meu peito, essa frase de Maiakovski, citada por Caetano em sua canção: Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome!