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Franquia do Muro

por Celso Calheiros, de Recife — publicado 19/08/2011 13h01, última modificação 20/08/2011 11h13
Na mais antiga sinagoga das Américas, em Pernambuco, fiéis de várias religiões deixam bilhetes com pedidos e graças
Franquia do Muro

Na mais antiga sinagoga das Américas, fiéis de várias religiões deixam bilhetes com pedidos e graças. Fotos: Leo Caldas

Há costumes que nascem sem que se saiba como começaram. A tradição de se colocarem pequenos papéis com pedidos a Deus, praticada entre os visitantes do Muro das Lamentações, em Jerusalém, atravessou desertos, oceanos e é replicada no Recife, na sinagoga Kahal Zur Israel, a mais antiga das Américas. A sinagoga é um dos maiores patrimônios turísticos de Pernambuco. Seu prédio é compartilhado com o Arquivo Histórico Judaico e possui uma exposição permanente com as ruínas- do templo do século XVII.

Nessa sinagoga-museu, visitantes de diferentes confissões de fé escrevem seus pedidos e desejos. Os bilhetes são dobrados, redobrados, enrolados e inseridos entre as frestas de tijolos ou buracos nas pedras. Alguns são presos em pregos ou apoiados uns sobre outros. Ninguém sabe como nasceu a ideia e há quem se arrisque a identificar os grupos mais assíduos na prática.

A diretora do Arquivo Judaico, Tânia Kaufman, acredita que os evangélicos são os que mais frequentemente se comunicam com o Criador via bilhetinhos. Professora por 25 anos do Departamento de Antropologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Tânia afirma que os evangélicos, de uma maneira geral, têm atração pela cultura judaica. “Acredito que isso ocorra por causa da nossa história de resistência e continuidade.” A superstição dos bilhetinhos, afirma a antropóloga, ela nunca viu em outra sinagoga, das muitas que conhece em todo o mundo. E garante que os judeus utilizam apenas o tradicional Muro das Lamentações na requisição direta ao Divino.

Jéssica Franciele da Silva, uma das monitoras que apresentam a sinagoga nas visitas guiadas, é testemunha dos pedidos e dos agradecimentos deixados nas paredes. Ela viu frequentadores colocando seus pedidos, orando como fazem no muro em Jerusalém, ou mesmo agradecendo. Segundo ela, os estudantes são os que mais pedem. Nas paredes construídas em diferentes séculos, é fácil achar papéis pautados ou coloridos, típicos de cadernos escolares.

O estudante soteropolitano Vinícius Casais, de 27 anos, foi objetivo na primeira vez que visitou a Kahal Zur Israel-. Escreveu seu desejo (não revelado), dobrou o papel e colocou seu pedido na parede norte do templo. Católico, vê no costume uma representação da cultura judaica e uma oportunidade. “Serve- para- você refletir, é o momento de agradecer. Não faz mal algum.” Como todo bom baiano, Casais não dispensa- os desejos em cada nó da fita do Nosso Senhor do Bonfim. Na dúvida, é melhor tentar por todas as vias possíveis.

Para Clarissa Lira, outra monitora, o Muro das Lamentações é símbolo de uma época próspera dos hebreus, da mesma forma que o Recife, no período holandês, representou um porto seguro, uma promessa de futuro para os judeus. Logo, as duas paredes – a do Recife e a de Jerusalém – têm uma grande conexão.

A construção da sinagoga é um marco da chegada dos judeus ao continente e comprova o estilo agregador do príncipe João Maurício de Nassau-Siegen. Embora tivesse a missão de governar terras conquistadas sob armas, negociou com devedores, urbanizou a cidade, trouxe artistas plásticos e, mesmo calvinista, permitiu a liberdade religiosa. É nesse ambiente que os judeus chegaram e, ao lado de cristãos-novos arrependidos, trataram de praticar sua religião, sem subterfúgios. A Kahal Zur foi construída na Rua dos Judeus, em 1637.

O ambiente ecumênico acabou com a restauração do domínio português, em 1654. Os prósperos judeus tiveram de procurar novos ares e 23 deles embarcaram no porto do Recife e só terminaram a viagem em Nova Amsterdam, ou Gotham City, hoje Nova York, onde construíram a Sinagoga Shearit Israel, a segunda mais antiga das Américas. O secretário de Turismo de Pernambuco, Alberto Feitosa, brinca ao dizer que gostaria que a história fosse outra, sem a diáspora. “Eles deveriam ter construído Wall Street aqui.”

Não foi o que aconteceu. Os portugueses conquistadores trataram de apagar os símbolos da passagem dos holandeses. A rua mudou de nome e hoje é conhecida como Bom Jesus. O prédio da sinagoga foi dado ao herói da Batalha dos Guararapes Fernandes Vieira. Depois, foi transferido para os padres oratorianos, que fizeram algumas modificações. O trabalho de soterramento da história judaica desse período foi tão exitoso que, até 1998, o que havia no endereço era uma loja de material elétrico, algumas indicações de que a primeira sinagoga foi construída lá e poucas certezas.

Nessa hora os arqueólogos entraram em ação. Foi preciso retirar 1,2 mil metros cúbicos de entulhos para encontrar os vestígios da obra. As escavações revelaram três diferentes pisos abaixo do nível da rua, o reboco das paredes foi raspado e exibe material utilizado nas construções, lembra o professor Marcos Albuquerque, colega de Tânia Kaufman na UFPE, um dos responsáveis pelo trabalho. A comprovação científica de que se tratava de uma sinagoga deu-se com a descoberta do poço com características específicas, o bor, que alimentava o mikvê, a piscina onde ocorrem os banhos cerimoniais, também visível depois da remoção da terra. Um tribunal rabínico fez a confirmação religiosa.

Uma dúvida ronda as preocupações da diretora do Arquivo Judaico. A manutenção das históricas paredes da sinagoga, diz Tânia Kaufman, necessita da aplicação de produtos específicos para proteger tijolos holandeses, pedras colocadas por portugueses e reparos feitos no século XX. “Só não sei o que fazer em relação aos bilhetes.”

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