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Fora do Eixo: “Ninguém precisa ter medo de nada”

por Lino Bocchini e Piero Locatelli — publicado 16/08/2013 08h55, última modificação 16/08/2013 11h54
A CartaCapital, Pablo Capilé responde as declarações de ex-integrantes do coletivo Fora do Eixo. Bruno Torturra, da comunicação do grupo (Mídia Ninja), se recusou a responder
Reprodução/Roda Viva
Capilé e Torturra

Pablo Capilé, líder do Fora do Eixo, e Bruno Torturra, o rosto da Mídia Ninja, no Roda Viva

Na apuração para reportagem publicada na edição 762 de CartaCapital, que chegou às bancas nesta sexta-feira 16, a reportagem verificou que diversos ex-integrantes do coletivo Fora do Eixo tinham medo de se manifestar contra o grupo. Diante disso, em resposta a perguntas de CartaCapital, Pablo Capilé disse que “ninguém precisa ter medo de nada”. CartaCapital procurou o líder do coletivo para que ele se pronunciasse sobre as acusações de ex-integrantes das casas Fora do Eixo. Por e-mail, Capilé respondeu sobre a apropriação de bens dos integrantes e as críticas de movimentos sociais. Em seu e-mail, apesar de usar a primeira pessoa durante o texto (“mim”), diz que “essa entrevista foi respondida coletivamente, por vários integrantes do Fora do Eixo.”

A reportagem da CartaCapital também procurou Bruno Torturra, líder da Mídia Ninja, como é chamado o braço de comunicação do Fora do Eixo. Ao contrário de Capilé, que trata as duas coisas como uma só, o jornalista preferiu fazer a diferenciação e se recusou a responder todas as perguntas, inclusive as feitas sobre a Mídia Ninja. "Não sou do Fora do Eixo. Meu trabalho é com a Mídia Ninja, que foi gestada dentro do FdE e que hoje é composta de muita gente e muitos grupos autônomos. Não confunda as coisas.”

Leia abaixo a íntegra da entrevista:

CartaCapital: Dos oito ex-integrantes do Fora do Eixo que a CartaCapital ouviu, quatro aceitaram ser identificados. Os demais se sentiram intimidados e têm medo de retaliações por parte de membros do Fora do Eixo. A que vocês atribuem o medo que essas pessoas sentem? O que vocês diriam para esses e outros ex-integrantes?

Fora do Eixo: Diríamos que ninguém precisa ter medo de nada, e que muito nos espanta este tipo de declaração. Inclusive, chega a ser estranho esta reação sendo que todas as pessoas que passaram pela rede sempre puderam colocar estas angústias quando estavam dentro dela. A rede não pratica intimidação, até mesmo porque, o que poderíamos fazer? São 10 anos de trabalho sem nenhum histórico de violência ou perseguição para que as pessoas não se identifiquem. Isso é muito sensacionalismo. O que as pessoas não colocam em perspectiva é que estas pessoas que hoje estão fora viram no FDE uma possibilidade de realizar as atividades que desejam e se posicionar profissionalmente. Não dar a cara é justamente mais do que evidenciar uma possível perseguição ao FDE, é ter que revelar também o que elas ganharam com esta convivência. Elas participaram de um processo consentindo com a forma como ele se organiza, utilizaram-se das relações que estabeleceram ali dentro, e de repente têm medo de retaliação. Estranho. Uma prova de que esse questionamento é improcedente é que a maioria das pessoas que saem do FDE vão trabalhar com outros parceiros da rede, ou grupos que mantêm diálogo conosco, como o próprio caso da Laís [Bellini], que saiu da Casa SP, e foi trabalhar com o [portal de notícias] Outras Palavras, que ela conheceu justamente como membro do FdE. E posso te dar diversos exemplos como esse. Para mim, levantar estas questões de forma difamatória, sem citar as pessoas e os casos de perseguição não é a melhor forma de se abordar a questão. Que retaliação ou perseguição poderíamos fazer? Emitir nossa opinião sobre o que achamos destas pessoas se perguntados? Isso está todo mundo fazendo, sem nem conhecer o FdE, e não vimos pergunta alguma questionando se o FDE estaria se sentindo perseguido. Por quê?

CC: Além da bilheteria e dos editais, há diversas pessoas que tiveram os bens apropriados pelo Fora do Eixo. Segundo ex-integrantes, o uso do cartão de crédito e a apropriação de bens como computadores ou automóveis são práticas usuais. Isso é uma prática sistemática da organização e apoiada por vocês?

FdE: Não, isso não é uma prática nossa. Muito nos impressiona que todas as perguntas e questionamentos que têm chegado não exploram a nossa forma de se organizar, mas buscam enquadrá-la e criminalizá-la como se fosse um modelo convencional de empresa. Primeiro,  como é um processo coletivo, esta pessoa que chega já tem acesso a uma série de coisas que já existem. A destinação de seus bens para o uso do processo é um ato livre. Se você tem um carro e vem para uma casa, é natural que este carro seja usado, até porque já tem muita gente emprestando coisas para que o processo exista e se realize. Se você tem um cartão de crédito e quer disponibiliza-lo pra ações da rede, a mesma coisa. Não tem uma prática de apropriação, tem um processo que gera consensos e consentimentos livres e esclarecidos. Da mesma forma que muita gente chega sem ter nada e, a partir da construção coletiva e colaborativa, bens materiais são disponibilizados para esta pessoa desempenhar suas atividades. É importante ficar claro, o Fora do Eixo trabalha com a perspectiva de propriedade coletiva e compartilhada, com definições claras para o acesso pessoal. A chave para entender isso não está numa leitura maniqueísta ou na abordagem que tenta ver o Fora do Eixo como uma empresa capitalista. É muito desonesto, principalmente para pessoas que participaram deste processo e fizeram suas escolhas, partirem pra uma criminalização depois que se desapontam com uma experiência. Não existe sequestro compulsório de bens e é um absurdo a CartaCapital afirmar em uma pergunta que "há diversas pessoas que tiveram os bens apropriados pelo Fora do Eixo". Não existe apropriação nenhuma desses itens. Obviamente, as pessoas que saem do FdE levam o que é de sua propriedade: sejam cartões, computadores ou automóveis. Se nos apropriássemos estaríamos com estes itens até hoje.

CC: O FdE começou a receber dinheiro público durante a gestão do tucano Wilson Santos em Cuiabá. O que mudou para o coletivo hoje em dia descartar o apoio do PSDB?

FdE: As politicas públicas não são partidárias. Não acreditamos em política de governo, acreditamos em políticas de Estado. A pergunta está muito mal feita e descontextualizada. O Estado não é o PT e muito menos o PSDB! Alguns partidos estão abertos ao diálogo e outros não, mas as políticas publicas independem deles.

CC: CartaCapital colheu diversos relatos do uso sexual de mulheres para atrair novos integrantes ou parceiros para o FdE. E, em menor número, de homens. Seria proibido pela direção não apenas namorar pessoas de fora da casa, mas também namorar alguém “de dentro” de forma espontânea, já que seriam relações que “não trazem ativos” para a rede –sempre de acordo com relatos de ex-integrantes. A cúpula do FdE decide quem deve namorar quem, como parte de uma estratégia de crescimento interno? A prática, que teria até nome (“catar e cooptar”), faz parte da estratégia da rede?

FdE: Estas acusações são gravíssimas e quem as coloca tem que estar preparado para provar. Temos plena convicção que isso, além de ser uma grande mentira, é um ato gravíssimo de calúnia e difamação, e muito nos espanta uma revista como a CartaCapital, que inclusive tem jornalistas que já estiveram muito próximos à rede, trazer a tona uma calúnia, sem provas. As relações afetivas não são determinadas por regras do movimento, mas construídas por cada indivíduo, a partir dos desejos de cada um. Sem o nome de "várias" não é jornalismo. É baixaria. E as garotas que vivem nas casas Fora do Eixo estão sendo absolutamente desrespeitadas com este tipo de especulação. Isso sim que é de um machismo intolerável.

CC: MPL, DAR, MH2O, Mães de Maio, moradores da Favela do Moinho, o Cordão da Mentira e outros movimentos sociais já fizeram críticas ao FdE. Recentemente, um integrante da Mídia Ninja foi expulso da favela do Moinho e outros já haviam sido hostilizados em protestos. Ao que vocês atribuem a hostilidade de diversos movimentos sociais ao FdE e suas iniciativas, como a Mídia Ninja?

FdE: Ao mesmo tempo somos parceiros e temos recebido diversas moções de apoio e solidariedade de vários outros movimentos como o MST, a CUFA, o Afroreggae, a Agencia de Redes pra Juventude, o Movimento Nacional dos Direitos Humanos, o Movimento Ação Griô, o Movimento de Povos de terreiro, a UJS, e vários movimentos ambientais, sociais e culturais. Existe algum ponto de consenso nos movimentos sociais? O que existe, no nosso entendimento, é um espaço enorme de diversidade e de disputa de narrativas e alinhamentos a partir dos valores e interesses dos movimentos. Acho complicado mais uma vez transformar dissenso, que é algo natural das sociedades democráticas, em uma questão moral que distorce a realidade. Primeiro que nunca nenhum integrante do Mídia Ninja foi expulso de lugar nenhum, muito menos da Favela do Moinho. Esses mesmos movimentos citados criticam vários outros movimentos, e criticas fazem parte do processo de debate em uma sociedade democrática. Não conhecemos nenhum movimento que seja um consenso absoluto dentro das lutas sociais que são realizadas no Brasil e no Mundo, e isso deveria ser visto como algo natural, sem alarme e tanto alarde.

CC: Ao que vocês acham que se deve a proliferação de depoimentos contra o FdE na última semana?

FdE: Vivemos num momento de grandes mudanças. As jornadas de junho no Brasil, alinhadas a diversos movimentos que correm o mundo todo hoje, mais as mudanças tecnológicas vividas recentemente nos colocam no olho do furacão, neste processo de mudanças sociais dramáticas, trazidas pelo digital. Somos um laboratório de experiência de rede digital único no Brasil e talvez único em todo o mundo. Trabalhamos fortemente nos últimos 10 anos dentro do circuito cultural e a pelo menos três anos estamos num diálogo constante com diversos setores da sociedade brasileira. Fazemos tudo isso de forma aberta e transparente entendendo que somos Beta, e que estamos em processo permanente de atualização. E pra completar tivemos uma enorme visibilidade nos últimos dias com o sucesso e quantidade de questionamentos que a Mídia Ninja teve e trouxe. Como movimento fortemente enraizado nas redes sociais, também recebemos os ônus e bônus de tudo que acontece ali. Ou seja, natural que um movimento que questiona sistemas de representatividade na rede, receba primeiramente os resultados disso. Pra gente essa é uma oportunidade grande de aprendizado para melhorarmos nossos processos. Não temos problema algum em receber a primeira ação tão ostensiva das redes sociais, como gostaríamos que outras entidades, estados e empresas estivessem recebendo, e realmente esperamos que esta experiência possa servir para que avancemos na construção das novas formas de participação e controle social trazidos pelo digital. Somos o pretexto pra um grande debate que precisa ser travado, e apesar da dor da injustiça, seguimos firmes acreditando que debate vai ganhar a profundidade necessária para que o Brasil encontre seus novos caminhos.