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Comissão da Verdade

Filhos e mães de vítimas da ditadura contam suas vidas

por Redação — publicado 05/11/2014 09h24, última modificação 05/11/2014 11h23
Livro é resultado do ciclo de audiências “Verdade e Infância Roubada” realizadas em maio de 2013 na Assembleia Legislativa de São Paulo
Arquivo Pessoal
família lucena

Denise, Adilson e Ângela Telma, em 1970, em Cuba

A Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva” lança nesta quarta-feira 5 o livro Infância Roubada – Crianças Atingidas pela Ditadura Militar no Brasil. O livro traz uma série de depoimentos e histórias de mães e filhos de presos políticos, perseguidos e desaparecidos durante o regime militar, em vigor de 1964 a 1985 no Brasil. O lançamento ocorre a partir das 19h na Biblioteca Mario de Andrade, no centro de São Paulo.

Confira abaixo um dos depoimentos:

 

A inocência perdida

Por Ângela Telma Oliveira Lucena

Sempre que a gente fala desses assuntos, as pessoas têm uma tendência a achar que filho de comunista é amargurado, mal-humorado, irritadiço. Somos seres humanos como todos os outros. Passamos por um processo difícil, sem dúvida nenhuma, mas isso não nos tornou monstros e nem insensíveis. Temos a nossa dor, claro. Todos nós temos. Até os filhos dos comunistas. Ao contrário do que dizem, que comunista não tem sentimento.

Sou Ângela Telma Oliveira Lucena. Sou filha do Doutor, que era o apelido do meu pai. Como ele era um cara de extrema inteligência, as pessoas o chamavam assim, apesar de ele ser analfabeto. Minha mãe, Damaris Oliveira Lucena, era operária e a nossa casa sempre foi um ponto de reunião dos companheiros e de muito movimento.

Assim, eu poderia dizer que nós perdemos a inocência muito cedo. Porém, perder a inocência não significa que nós também não fôssemos crianças e tivéssemos momentos felizes. O que tínhamos era muita clareza sobre a atividade dos nossos pais. Sabíamos no que eles estavam envolvidos, embora não imaginássemos a magnitude e os desdobramentos que poderiam trazer.

Mas a nossa mãe sempre dizia: “Olha, não se afastem muito de casa, brinquem aqui perto, cuidado com o que vocês falam, não desapareçam. Porque se a polícia chegar a gente tem que sair correndo”. Parece maluco dizer isso para crianças. Mas quem é filho de nordestino entende. Nordestino fala claramente com os filhos. Nossos pais eram muito claros, muito objetivos quando conversavam com a gente.

Então, no momento em que ficamos clandestinos, para lá e para cá, aconteceu uma coisa muito curiosa. É uma lembrança muito boa que eu tenho, porque, na verdade, eu tive muitos pais. E tem um pai em especial que eu quero destacar aqui, que me tratou com muito carinho, com muito respeito, que era o Eduardo Leite Bacuri. Ele frequentava muito a nossa casa, tinha muita paciência, me pegava no colo, trocava minhas fraldas, me dava comida. Eu tive a possibilidade de contar isso para a Duda [Eduarda, filha de Bacuri]. E ela falou que tinha uma dor muito grande. E disse: “Eu queria que o meu pai tivesse feito isso para mim”. Nós fomos formando uma família. Não era uma família biológica, mas foi mais importante e mais significativa do que a nossa própria, com quem nós não convivemos.

Eu era perdidamente apaixonada pelo Bacuri, porque ele tinha olhos lindos. Ele me pegava no colo e eu ficava olhando para aquele homem. Acho que meu sonho era casar com um homem de olho claro por conta do Bacuri. Eu olhava para ele, aquele homem tão bonito. E falava para minha mãe: “Ele é tão bonito, não é?” Muitos anos depois, casei com um homem de olhos azuis.

Então, fomos tendo várias famílias, vários irmãos, primos, tios. Para falar a verdade, de muita gente eu vim a descobrir o nome recentemente. Eu não sabia como eles se chamavam. Essa convivência com os companheiros foi muito forte, muito marcante, porque eles faziam o papel dos pais que não estavam ali. Ficávamos nos aparelhos, dormíamos aqui e acordávamos ali. Um penteava o cabelo e o outro escovava os dentes. Você dormia com um companheiro de noite e quando acordava já era outro.

Tem algo que eu gostaria de destacar. As pessoas sempre colocam em dúvida se eu realmente consigo lembrar da morte do meu pai. Foi um fato para mim muito marcante. Eu tinha 3 anos e meio e as pessoas questionam e dizem: “Alguém com 3 anos e meio não pode lembrar disso”. Eu gostaria muito de poder apagar esse momento do assassinato do meu pai da minha vida. Mas eu não posso, eu não quero e eu não consigo. E eu não vou. Porque a única memória que tenho do meu pai é exatamente o momento da morte. Foi muito violento para mim. Foi muito triste. Eu tive, daquele momento em diante, fortes crises de enxaqueca. Eu sonhava todas as noites com uma coisa que não sabia exatamente o que era. Eu não conseguia ver filme de guerra, mas não deixava que minha mãe percebesse. Não queria que ela percebesse que a gente estava sofrendo. Porque sofrer também fazia parte da nossa história. Foi difícil? Foi. Foi duro? Foi. Mas eu não quero apagar. Eu lembro perfeitamente. Eu lembro como ele estava vestido. Eu lembro exatamente como tudo se desenrolou naquele dia. Eu estava no colo da minha mãe, e quando fui crescendo, durante muitos anos ficava pensando se tinha sonhado aquilo ou se era realmente um fato que tinha ocorrido.

Eu vivia um conflito entre apagar, riscar aquilo da minha vida, mas, ao mesmo tempo, sabia que se fizesse isso, estaria riscando a história da minha família. E eu não queria isso. Quando nós saímos do Brasil, a minha mãe teve uma oferta do governo cubano para que fôssemos ao psicólogo. E minha mãe disse: “Meus filhos não precisam de psicólogo. Eles próprios vão administrar e eu vou ajudar os meus filhos a administrar a situação. Porque eu nunca menti para os meus filhos. Eu sempre disse para os meus filhos qual era a nossa atividade”. Isso não é uma crítica a quem vai ao psicólogo. De jeito nenhum. Mas eu consegui administrar a situação à minha maneira. Acho que meus irmãos também devem ter administrado da maneira deles.

A morte do meu pai mudou completamente a minha vida. A partir daquele momento sabia exatamente de quem eu era filha, como meu pai tinha morrido. Eu vi minha mãe muito torturada. Ela começou a apanhar no momento em que meu pai foi morto, ali na nossa frente. Me arrancaram dos braços dela. Eu lembro exatamente como aconteceu. Então, a nossa inocência, a minha, particularmente, foi perdida ali naquele momento. Mas isso não me transformou em uma pessoa amargurada nem frustrada nem triste. Talvez uma pessoa mais introspectiva, talvez uma pessoa com excesso de responsabilidade, talvez uma pessoa que, às vezes, raciocina muito porque sabe qual é o peso de levar o sobrenome Lucena. Não é fácil ser filha da Damaris e do Doutor. Não é fácil fazer parte de uma história de dois heróis da nação brasileira. De saber que para estar viva aqui, hoje, contando a nossa história, muita gente morreu. Quantas pessoas tiveram que dar a vida para que a gente tivesse essa democracia? Vivemos um conflito, mas é um conflito que tem um lado muito positivo.

Quando fomos presos, nos levaram para o juizado de menores e as pessoas falavam: “Poxa, mas ela é muito pequena, ela não lembra”. É lógico que lembro. As nossas camas eram molhadas. A gente dormia na cama molhada. Os filhos dos terroristas. Então a gente ficava ali, víamos que todas as crianças nos olhavam de uma forma estranha e nos sentíamos estranhos também. Eu pensava: “Puxa vida, eu estou vivendo isso aqui, que não vai acabar nunca”. Eu não tinha noção de tempo, mas tinha muito claro que tinha muito a ver com a atividade dos meus pais.

Eu não queria causar mais dor e sofrimento para minha mãe do que ela já tinha tido. Então não conversava sobre esse assunto com ela, que já tinha sua parcela de dor, de culpa, de responsabilidade. Por várias vezes ela disse para a gente que se sentia mal de ter colocado os filhos na luta. E um dia eu disse “Não se sinta mal. Nós somos produtos do meio e da luta que vocês tiveram e temos orgulho do que somos. Nós estamos com vocês. Nós temos orgulho do nome de vocês. Nós queremos levar a luta de vocês adiante. Vocês foram capazes de pegar em armas para defender os ideais de vocês. Vocês acreditaram naquilo. Isso para nós é a coisa mais importante. É o maior legado que alguém pode transmitir para os filhos”.

Quando ela diz que nunca disse para a gente, “ah, vocês precisam ser comunistas, ou revolucionários ou de esquerda”, é verdade. Ela nunca disse. O comportamento que ela tinha, a maneira como ela agia mostrava para a gente o que ela era, como ela acreditava. A vida inteira ela foi coerente com o que defendia. Minha mãe sempre foi uma pessoa que lutou, compartilhou, dividiu tudo o que ela tinha com as outras pessoas. E ela não poderia ter caído em um lugar melhor do que Cuba.

O meu pai, quando era vivo, viu o triunfo da Revolução Cubana. E ele dizia para minha mãe “O meu sonho é que os meus filhos estudem em Cuba”. Mal sabia ele que ia ter que dar a própria vida para que aquilo fosse possível. Então, para nós, é muito significativo. Dizem que os desejos, às vezes, se transformam em realidade. Eu acho que no fundo eles dois sabiam que, de certa maneira, o que eles estavam dando para a gente era uma nova possibilidade de vida.

Nós perdemos, de fato, a nossa inocência, perdemos o nosso pai. Fomos parar em Cuba. Eu cheguei com 3 anos e meio, fui para creche. Aprendi a falar espanhol, e acho que hoje falo melhor espanhol do que português porque fui alfabetizada em espanhol. Então a gente viu que aquele sonho de liberdade, de uma sociedade mais justa, era possível. Tudo o que o meu pai falava, “Existe um país que se chama Cuba, que fez uma revolução”, e aquilo era possível. E a gente via aquilo acontecendo. Então foi muito representativo.

A solidariedade do povo cubano, a importância que eles davam para o estudo, a importância que eles davam para que a gente mantivesse a nossa cultura, a nossa identidade. Nós nunca fomos tratados como coitadinhos, porque não somos. Somos pessoas que pagamos um preço pela escolha, pela ideologia dos nossos pais. Isso, de forma alguma é negativo. Ao contrário, eu vejo de uma maneira muito positiva. É evidente que cada ser humano tem uma apreciação a respeito das coisas.

Mas eu lutei muito, tive alguns conflitos internos, e nós entre os irmãos não falávamos disso. Eu acho que é a primeira vez que cada um de nós conta a sua experiência para o outro. No entanto, o que é importante para nós, primeiro, é a oportunidade de falar para as pessoas o que é que nós vivenciamos para que isso nunca mais aconteça. Para que não se repita. Para que as pessoas saibam que a única maneira de a gente realmente modificar uma sociedade, transformar, é pela educação. A gente precisa ter consciência. E isso foi uma coisa que a Revolução Cubana permitiu que a gente tivesse. Consciência política. Nós temos muito claro o que nós queremos para o nosso país.

É evidente que temos alguns momentos de angústia, de dor. Todo mundo passa por isso. Isso é do ser humano. Mas eu queria deixar presente uma mensagem em meu nome e dos meus irmãos também. Quem deu um golpe, rasgou a Constituição depois de um presidente democraticamente eleito não fomos nós. Nós apenas nos defendemos. Em nenhum momento nós provocamos uma situação que justificasse a violência da qual nós fomos vítimas. Uma violência de Estado. Agora, quando a gente fala de vítima, infelizmente é uma coisa que se repete. Quando a gente vitimiza o ser humano é quando a gente não deixa que ele se expresse.

O Brasil fala que é uma democracia, no entanto, pessoas continuam sendo torturadas, os desaparecidos continuam desaparecidos, os arquivos continuam fechados. Nós não sabemos onde nossos familiares foram parar. Nós queremos, exigimos uma resposta para isso. Queremos enterrar os nossos mortos. É um direito que temos, como seres humanos. Falo aqui, eu acho, que em nome de todas as famílias que não tiveram a possibilidade de enterrar os seus mortos. Inclusive meu pai, que é desaparecido. Eu não quero mais que meu pai seja uma estatística como tantos outros pais que estão por aí. Nós queremos a abertura dos arquivos. Queremos saber de que forma, em que circunstâncias os nossos pais foram assassinados. Nós temos esse direito. Qualquer nação séria vê dessa maneira. Então, quando nós dizemos aqui, viemos a público, todos os filhos, falar, o que nós queremos é uma coisa muito simples. Nós queremos saber aonde foram parar os nossos pais. É um direito que nós temos como seres humanos. Em qualquer cultura as pessoas têm o direito não somente de chorar pelos seus entes queridos, mas também a possibilidade de saber como aconteceu.

Nós temos muitos desaparecidos neste país. Nós não queremos que eles continuem desaparecidos. Então, por favor, eu faço um apelo aqui, público: quem souber qualquer informação, quem souber qualquer dado que possa ajudar os familiares a descobrirem as circunstâncias da morte dos seus entes queridos, a gente pede, que mesmo de forma anônima, a pessoa mande esses dados para a gente. Nós queremos. Nós precisamos. Enquanto nós não soubermos como tudo aconteceu, enquanto os arquivos não forem abertos, enquanto a gente viver com essa dúvida, não podemos ter tranquilidade. É um fantasma que nos atormenta.

*Ângela Telma Oliveira Lucena nasceu em 10 de outubro de 1966 e é filha de Antônio Raymundo de Lucena e Damaris Oliveira Lucena. Mestre em língua portuguesa, é graduada em letras pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP)