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"Fifa corrompe os países que recebem a Copa", acusa repórter da BBC

por Opera Mundi — publicado 04/08/2010 17h17, última modificação 04/08/2010 17h17
Jennings diz que os brasileiros estão sendo mais críticos do que os sul-africanos
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Jennings se tornou o inimigo número um da FIFA, especialmente de seu presidente, Joseph Blatter. Foto: Reprodução

Jennings diz que os brasileiros estão sendo mais críticos do que os sul-africanos

Por Maurício Savarese

“Senhor Joseph Blatter, um pagamento secreto de uma empresa de marketing chegou por acidente à conta bancária da Fifa. Para quem era?” Essa pergunta, feita ao presidente da entidade em 2004 durante uma entrevista coletiva na Tunísia, mudou a vida do jornalista Andrew Jennings, hoje aos 67 anos de idade. Desde então, ele se tornou persona non grata pela entidade. Jennings diz que o pagamento secreto se destinava a dirigentes da entidade.

Desde sua profissionalização sob João Havelange, na década de 1970, a Fifa é cercada por empresas esportivas, empreiteiras, vendedoras de ingressos e outros ramos que estariam ligados à cúpula do futebol mundial, várias das quais foram alvo de investigações do escocês – que fez carreira no diário inglês Daily Mail e ganhou liberdade para suas reportagens investigativas em documentários da BBC. 

Jennings, que visitou o Brasil pela primeira vez para um congresso de jornalismo investigativo, fala sobre as razões que o motivam a continuar com seu trabalho e fala das formas de corrupção que costumam se associar a Copas do Mundo e Jogos Olímpicos. O Brasil receberá os dois: o primeiro em 2014 e o segundo em 2016. 


Por que o senhor decidiu focar suas investigações na Fifa? 


Posso dizer que os escolhi como alvo porque todo jornalista deve ter um alvo, um grupo que queira investigar. Eu sou incapaz de dizer qual é o resultado de um jogo, mas sei quando tem corrupção lá. E é apenas a porcaria do futebol! Como é que não pode ser transparente algo que não é questão de vida ou morte? A verdade é esta: eu sou um jornalista combativo e todo jornalista combativo precisa de um objetivo. O meu é mostrar o que fazem na Fifa, no COI. 


É uma questão de nicho de mercado? Se é isso, por que vai a aeroportos do mundo inteiro para pressionar esses dirigentes?

Não é nicho de mercado, isso é só uma provocação. Acho que o futebol é importante para muita gente. E essas pessoas são roubadas. Investimento público é feito em estádios, em infraestrutura e em muitas áreas que têm a ver com o interesse público. Meu interesse não é saber se o Manchester United será campeão europeu, mas sim se o Brasil vai ser a parte dois de toda a corrupção que se viu na África do Sul nos últimos anos. 


Onde que a corrupção surge em uma Copa do Mundo e nas Olimpíadas? E como se faz para investigar isso?

As empreiteiras, as vendas de ingresso e as empresas que fazem propaganda nesses eventos são grandes fontes de corrupção. E a fórmula para descobrir isso exige um pouco de sagacidade. Quando fiz a pergunta a Blatter, sabia que na Fifa há muitos funcionários honestos. Passei semanas vendo aquelas pessoas em Zurique, que ficavam encostadas na parede com cara de tédio enquanto o chefe delas falava. Havia um desconforto. Optei por, na primeira boa chance que tivesse, me sentar na primeira fileira e perguntar a Blatter da forma mais agressiva que podia sobre subornos da ISL [empresa falida de marketing esportivo]. Não o chamei de presidente Blatter. Foi tudo calculado para notarem que eu não tinha respeito por ele e que fazia um trabalho sério. A partir dali, os documentos internos começaram a chegar. E eles chegam até hoje. Sobre a África do Sul eu tenho material e sobre o Brasil eu também vou ter. 


O que o senhor tem? 


Muita coisa, mas não tenho pressa. Sou um jornalista à moda antiga, não preciso publicar nada amanhã. Acho que a informação pode se refinar conforme o tempo passa. Mas as dicas estão por aí. No caso da vitória do Brasil para receber os Jogos de 2016, faço apenas uma pergunta. O homem da ISL que se chama Jean-Marie Weber. Foi condenado à prisão na Suíça, é investigado até hoje. E no dia da votação em Copenhague ele estava com credencial, lá dentro, na área de imprensa. Cumprimentou o ex-presidente da Fifa João Havelange. O que será que Weber fazia ali? Agora, vocês brasileiros precisam de jornalismo para não serem a nova África do Sul. O que está feito, está feito. Deixem-me com esse trabalho [risos].

Jennings confronta Jean-Marie Weber em Copenhage, em 2009: 


O senhor planeja vir ao Brasil para a Copa do Mundo ou para Rio-2016? 


Não acredito nisso, mas eu também não pensei que um dia escreveria uma reportagem com o título “Eu sou o pior repórter do mundo”, listando no Daily Mail todos os dirigentes da Fifa que não aceitam conversar comigo. Fiquei empolgado ao ver que vocês são mais críticos do que os sul-africanos, que demoraram muito até descobrir todas as sujeiras que fizeram. Se eu vier vai ser divertido, porque vocês têm senso de humor e isso é excelente para você pegar esses corruptos que estão no esporte. Sabem se divertir. 


Quais são os riscos que o Brasil corre na próxima Copa do Mundo?

Como a África do Sul foi lesada em seu Mundial? 
A África do Sul teve de se render à Fifa para organizar a Copa. Além da corrupção dentro da própria entidade, a Fifa corrompe os países que recebem o evento. O principal escoadouro de recursos é a construção de estádios. Quando se sabe que haverá investimento público em estádios, acionam o secretário-geral, Jerome Valcke. O sistema é simples: se o estádio vira uma questão de injetar recursos públicos, eles atrasam a obra. Quando isso acontece, surgem os chamados recursos emergenciais. Está feito o estrago: um estádio que custaria 200 milhões de dólares, como o de Port Elizabeth, na África do Sul, se transforma em um elefante branco de 350 milhões. Já notei que os estádios de vocês ainda não saíram do papel. Dá para imaginar o que pode acontecer, não? A Copa do Brasil pode ser a Copa da África do Sul 2 se houver dinheiro público para estádios. 


O risco se limita aos estádios ou há mais? 


Claro que há mais. O Brasil não terá um retorno financeiro como o projetado – assim como em todas as últimas Copas do Mundo – porque algumas receitas, superestimadas por sinal, são simplesmente engolidas pela corrupção. Um exemplo é a venda de bilhetes. Saiba que vocês não vão ficar com as receitas de nenhuma entrada vendida aqui. O Brasil é só o hospedeiro, mas os bilhetes, os estádios e muito do que vier de recurso ficará nos bolsos de estrangeiros. A África do Sul prometeu ao seu povo uma Copa do Mundo sem exageros. Mas enriqueceu dirigentes com milhões de dólares vindos de corrupção, de superfaturamento de obras. O Brasil corre o mesmo risco. Na África a imprensa levou anos para denunciar isso. Aqui vocês parecem estar mais atentos, mas os riscos são claramente os mesmos. 


Qual é a sensação de ser o único repórter do mundo banido pela Fifa? Como lida com as críticas de ser um “pavão da reportagem”, como já disseram membros da Fifa e do COI? 


Eu sou mais pobre hoje do que era há 20 anos, quando não investigava a Fifa. Viajar custa caro e nem sempre pagam as minhas passagens. Mas vou aonde for necessário para ouvir uma boa fonte. Não sei se sou um pavão, acho que sou apenas um velho que se veste mal e que acha que o Google não resolve todos os problemas do jornalismo. Acho que gastar os sapatos, ter senso crítico e exercer o senso de humor são o centro da minha profissão.