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Fechado com o Comando

por Bruno Huberman — publicado 03/08/2010 12h53, última modificação 03/08/2010 19h00
Prisão do marido fez com que antropóloga estudasse a fundo a complexa organização do PCC nas cadeias e municípios paulistas

Prisão do marido fez com que antropóloga estudasse a fundo a complexa organização do PCC nas cadeias e municípios paulistas

O Primeiro Comando da Capital (PCC) mudou o submundo do Estado de São Paulo nas duas últimas décadas. Ao longo dos anos 90 vários movimentos se digladiaram nos presídios paulistas pela hegemonia política e o PCC saiu como vencedor. A partir de uma estrutura política e hierárquica muito complexa, o Comando conseguiu acabar com o uso do crack, estupros e compra de celas pelos presos. Os seus fundadores, que iniciaram as guerras da década passada já não estão mais no poder e, hoje, o PCC não apresenta nenhuma liderança clara, todos os “irmãos” são iguais e seguem as normas rígidas do Comando e quem não obedece-las sofrerá as “consequências”. Diante dessa organização política tão complicada colocada aqui de uma forma simplificada, a antropóloga Karina Biondi decidiu traçar uma etnografia do PCC como tema de mestrado que virou o livro Junto e misturado: uma etnografia do PCC, lançado recentemente pela editora Terceiro Nome. O interesse surgiu após o marido de Karina ter sido preso de forma inexplicada e durante as visitas que fez em vários presídios paulistas, a presença do PCC era tão forte que acabou virando trabalho de faculdade e continua sendo pesquisado pela antropóloga agora em sua tese de doutorado. Abaixo a entrevista concedida por Karina à CartaCapital em que fala sobre as dificuldades que teve ao longo da sua pesquisa e como ela trata a complexidade do PCC.

CartaCapital: Podemos começar falando um pouco sobre o conteúdo do livro, o que te motivou a fazê-lo, se foi apenas a história com o seu marido ou se tiveram outros motivos e qual o seu objetivo principal para o livro? Apenas traçar uma etnografia do PCC ou existem outros mais específicos?

Karina Biondi: Em 2003 eu cursava graduação em Ciências Sociais na USP. Morava com meu marido e minha filha de 2 anos, quando a polícia chegou à minha casa e levou meu marido, com um mandato de prisão provisória referente a um processo cuja existência, até então, nós desconhecíamos. Os meses seguintes foram bastante tumultuados, a ponto de eu me afastar da faculdade por um semestre. Retornei ao curso no segundo semestre e me matriculei em uma disciplina ministrada pelo Prof. Dr. José Guilherme Magnani sobre Antropologia Urbana, na qual nós, alunos, teríamos que fazer uma pesquisa de campo e entregar um relatório como trabalho final. Meu marido seguia detido e eu o visitava aos finais de semana. Em uma dessas visitas, me veio o estalo: por que não fazer o trabalho sobre aquela prisão onde ele se encontrava? Conversei com o Prof. Magnani que, imediatamente, aprovou a ideia. Depois que entreguei o trabalho final do curso, ele me incentivou a continuar com essa pesquisa. Eu lembro ainda que perguntei: mas o senhor acha que rende? E ele respondeu: rende até o pós-doutorado, se você quiser. Uma colega sugeriu que eu tentasse a seleção na UFSCar. Passei nas provas e fui muito bem recebida, tanto pelo corpo docente quanto pelo corpo discente.

Embora a prisão do meu marido tenha me levado a pesquisar prisões, minha ideia inicial era fazer uma etnografia da unidade prisional na qual ele se encontrava. Seria somente o estudo de uma instituição mas, ao olhar para a relação entre os prisioneiros, eu não conseguia deixar de ver o PCC operando. Eu tento descrever no livro que o PCC não se restringe a um conjunto ou a uma soma de "irmãos" (seus membros "batizados"). Ele está presente em unidades da Fundação CASA (antigas FEBENS), instituições que abrigam menores de 18 anos (que não são "batizados"), e é operado por pessoas que não são seus membros. Trata-se, portanto, de um fenômeno bastante amplo e complexo, que desafia nossa imaginação sociológica. Vi ali um objeto de pesquisa pouco explorado e muito estimulante, muito rentável analiticamente, e isso me motivou a dar continuidade à pesquisa.

CC: Como foi o contato com os presos? Houve algum problema por você ser uma mulher?

KB: A maioria dos contatos foi mediada por meu marido. Não que eu não pudesse abordar os demais presos durante minhas visitas, mas isso seria absolutamente deselegante, uma falta de educação. Em primeiro lugar porque, durante o dia de visitas, todas as expectativas dos presos são voltadas à própria visita. E em segundo lugar, porque existe uma questão de gênero que atravessa todo o meu trabalho. No livro, tento mostrar que não existe uma essência de Karina, uma Karina que exista por si, independente das relações que me constituem. Disso decorre que a Karina-pesquisadora não é a mesma que a Karina-mulher-de-preso. Esta última era constituída por relações que passam também pelo preso a quem visitava e, por isso, uma conversa informal com qualquer outro preso poderia ser vista como uma falta de respeito (minha e do preso com quem eu estaria conversando) ao meu marido.

CC: Houve alguma resistência dos presos para falar das relações com o PCC? Qual foi a maior dificuldade que você teve ao longo da pesquisa?

KB: Acho que a maior dificuldade foi justamente dar conta da complexidade do PCC, que colocou em xeque toda a minha imaginação sociológica. Isso, justamente porque o que vi não era um grupo formado por membros a ele recrutado. Ou seja, o PCC não se reduz à soma de "irmãos" (seus membros). No livro, descrevo uma situação que deixa isso evidente: a inauguração de um Centro de Detenção Provisória (CDP), para onde foram enviados alguns presos que não eram membros do PCC e, mesmo assim, fizeram daquele CDP uma "cadeia do PCC". Por isso, eu não precisei falar com os presos sobre suas relações com o PCC. Porque não se tratam de dois termos (presos e PCC) ligados por relações que seriam extrínsecas a eles. O PCC atravessa suas experiências prisionais e é atualizado em todas as suas práticas.

CC: Como você enxerga essa ordem imposta pelo PCC aos detentos? É uma ordem que o governo não consegue manter?

KB: Esse arranjo da vida social entre os detentos é algo que não pertence aos domínios do Estado. E não é por incapacidade ou ineficiência. É apenas outro domínio de existência.
Quando, por exemplo, os presos evitam dirigir seus olhares às esposas de outros prisioneiros, isso não tem a ver com uma suposta infiltração de uma facção onde o Estado deixa lacunas. Aliás, não existe lugar onde há mais Estado do que numa prisão. É Estado por todo lado!

CC: Você não acha essa postura adotada pelo PCC de não tolerar o uso de drogas, palavrões e ao mesmo tempo descentralizar a figura do líder e passar essa sensação de que está em todos os lugares a partir do momento que ninguém sabe realmente onde eles estão e quantos eles são, fascista?

KB: Eu não conheço o fascismo a fundo para traçar uma comparação sem entrar num "achismo". Mas o que você disse dá a entender que, na verdade, existe a figura de um ou mais soberanos que se escondem atrás dessa dinâmica criada engenhosamente. Pode até ser. Alguns agentes públicos trabalham essa hipótese. Mas minha pesquisa me leva a acreditar que o funcionamento do PCC não depende de supostos líderes. Mas ao mesmo momento em que ele é atravessado por vetores que impedem relações de mando/obediência, essas relações não param de aparecer (e daí a produção de novas formas de impedir sua cristalização).
Talvez seja importante, aqui, fazer algumas considerações sobre o lugar a partir do qual estou falando, que é o da antropologia. Com isso, espero evitar alguns equívocos que aparecem quando os antropólogos falam sobre suas pesquisas. Embora existam divergentes escolas e linhas teóricas dentro da antropologia, acho que a melhor definição de antropologia foi feita por Lévi-Strauss. Ele afirma que a antropologia se distingue por ser uma "ciência social do observado", em contraposição com a "ciência social do observador", na qual podemos incluir, por exemplo, a sociologia e a ciência política. Essa posição vem sendo levada às últimas consequências por autores que adoto em minhas preferências teórico-metodológicas. Nessa linha, toma-se por princípio que nenhum pesquisador é capaz de conhecer melhor a vida do nativo do que ele próprio. Assim, não existe um fundo de realidade que só o pesquisador seria capaz de acessar. Sua tarefa, nesse sentido, não é tentar extrair das populações que estuda os problemas que são dele, mas ver quais são as questões que elas próprias se colocam. Por isso, o que os nativos falam e fazem ganha estatuto de conhecimento, suas reflexões ganham estatuto de teorias. É claro que tudo isso é bem mais complicado e continua sendo objeto de grandes discussões dentro da antropologia. Mas fiz essa exposição para que o leitor não se surpreenda quando, ao responder as perguntas da entrevista, eu remeta ao que dizem os prisioneiros. O leitor não encontraria, nas minhas respostas, algo do tipo: eles dizem e fazem isso, mas, na verdade (eis outro conceito problematizado nas ciências sociais), o que acontece é aquilo. É porque, para mim, quem melhor conhece a realidade prisional não sou eu, são eles.

CC: Dentro do espectro de observador que você tem como antropóloga em ter como teoria e conhecimento obtido tudo o que o seu objeto de estudo diz ou pensa, você não pode chegar a conclusões que essa ordem imposta pelo PCC é uma ordem de controle semelhante ao que acontece nos regimes fascista, autoritários e totalitaristas? Você, a partir da sua posição como pesquisadora e antropóloga após essa longo tempo de pesquisa que teve e o próximo contato que teve com eles, não acha que como uma observadora externa não consegue ter uma visão mais crítica do que o que está dentro dessa lógica de controle e ter os pensamentos deste indivíduo como verdade absoluta para a sua pesquisa?

KB: Não, minha pesquisa não oferece uma verdade absoluta. É um ponto de vista entre os inúmeros possíveis. Minha visão sobre o PCC não é nem mais, nem menos verdadeira do que a visão dos juristas, políticos, promotores, policiais. E cada um desses pontos de vista remetem a realidades distintas, todas elas absolutas em suas perspectivas.
Mas, devido aos nossos vícios de pensamento, não é nada fácil conceber as coisas dessa maneira. Muitas vezes, no decorrer da pesquisa, foi tentador aplicar um conceito exógeno ao que eu estava descrevendo e, assim, alçar uma realidade. Se assim eu fizesse, a análise seria interrompida por explicações alienígenas.  Por isso, ao invés de reduzir toda a complexidade que meus dados ofereciam ao traduzi-los em um conceito exógeno, eu preferi continuar a descrição. O ganho, com isso, foi chegar a conceitos e reflexões que meus próprios interlocutores acionavam para dar conta de seus problemas. Seria muito mais fácil espelhar os modelos estatais que conhecemos (como o fascismo, por exemplo) para daí ver onde o PCC se encaixaria. Mas as arestas que eu precisaria cortar para fazer esse encaixe teriam muito a dizer sobre o PCC.
Exemplo disso é que "punição" não faz parte do vocabulário dos prisioneiros: eles falam de "consequências". Não tratar como "punição" (um conceito exógeno) algo que eles concebem como "consequência" e descrever do que isso se trata oferece um grande ganho analítico. E esse ganho não é pela análise ser externa, de um observador que apreenderia todo o PCC ao sobrevoá-lo de dirigível, mas por ser imanente. Pude ver, daí, que o PCC não opera na chave da lei ou da regra. Ele não se conforma a um registro jurídico, onde para qualquer regra há uma punição.
Por tudo isso, quando você fala em repressores e reprimidos, não consigo transplantar essas definições para o meu objeto de estudo, onde membros e não-membros dizem estar "correndo lado-a-lado" , "junto e misturado", "fechando com o Comando". É execrável, no meio dos presos, o homem que obedece, que é dócil. Não é de obediência que se trata, porque não há ordens. Afinal, como costumam dizer, são todos iguais (a expressão "é de igual" é uma das mais ditas dentro das cadeias). Poderíamos dizer, talvez, que se trata de uma ética pela qual os relacionados ao PCC conduzem suas vidas. O PCC, nesse sentido, seria uma força que é atualizada por todos os que se encontram em "cadeias do Comando".
Outra coisa relevante é que a maioria dos que estão na cadeia hoje não estava na década de 90, época das grandes guerras, quando o PCC era apenas um dentre tantos os bandos que se digladiavam pelo domínio dos territórios prisionais. Sem dúvida houve muito derramamento de sangue e a "vitória" do PCC e não de qualquer outro bando é algo que ainda precisa ser estudado, mesmo porque a força bruta não era seu diferencial.

Abaixo reproduzimos um trecho do livro Junto e Misturado – uma etnografia do PCC de Karina Biondi:

As principais avenidas de São Paulo nunca estão desertas. Não posso enumerar os motivos que levam as pessoas a ganhar as ruas durante a madrugada, mas um deles conheço bem: é o dia de visita nas cadeias. À minha direita, reconheço essa motivação em duas mulheres que dividem o peso de uma grande sacola, provavelmente cheia de alimentos a serem entregues ao parente preso. Eu nunca havia notado esse tipo de movimentação antes da prisão do meu marido, no início de 2003, quando iniciei este trabalho. Foram quase seis anos de pesquisa pouco ortodoxa, que partiu de uma inserção voluntária e cuja ida a campo era geralmente indissociável do dia de visita.

Junto e Misturado – uma etnografia do PCC

Autora: Karina Biondi

Editora: Terceiro Nome

Páginas: 245

Valor: R$ 34,00

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