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Exportamos cocaína

por Paolo Manzo — publicado 25/11/2010 12h29, última modificação 26/11/2010 17h47
O País tornou-se ponto estratégico do narcotráfico. Uma tonelada de droga sai de Santos e é apreendida na Calábria.
Exportamos cocaína

O País tornou-se ponto estratégico do narcotráfico. Uma tonelada de droga sai de Santos e é apreendida na Calábria. Por Paolo Manzo.Foto: Adriana Sapone/AP

  O País tornou-se ponto estratégico do narcotráfico

 Não deve surpreender que  a tonelada de cocaína puríssima, com o valor estimado em 250 milhões de euros, sequestrada segunda-feira 15 de novembro, em um contêiner no porto calabrês de Gioia- Tauro, tenha sido levada por um cargueiro de bandeira italiana saído de Santos. Nem deve surpreender que por trás da maior remessa de coca sequestrada na Itália desde 1995 esteja a ‘Ndrangheta, a máfia calabresa.

A razão disso tudo é simples e é confirmada, quer pelas investigações internacionais (a apreensão de Gioia Tauro foi possível graças a uma pista levantada pela intelligence britânica), quer pelos testemunhos de colaboradores de Justiça. O Brasil representa um ponto cada vez mais central nas rotas internacionais das drogas, e os tentáculos da ‘Ndrangheta alcançaram o País há pelo menos 20 anos, com força redobrada nos últimos meses.

Pelas informações dos serviços secretos internacionais, todas as fronteiras do Brasil hoje são usadas pela máfia calabresa, principalmente aquela com a Bolívia. Não é por acaso que há nove meses a polícia brasileira assinou um acordo de cooperação internacional com La Paz, na tentativa de limitar o volume do tráfico de cocaína. Mas são apenas gotas em um mar de coca.

Todas as máfias italianas estão presentes no Brasil, é porém a ‘Ndrangheta aquela que construiu no País um dos seus mais imponentes sistemas de reciclagem, como se pode deduzir das declarações de pelo menos dois colaboradores de Justiça. O primeiro é Claudio Boscaro, cidadão suíço, mas, acima de tudo, broker do boss Santo Maesano da cosca (quadrilha) Paviglianiti, preso em Palma de Maiorca em 2002.

Boscaro enviava em seu nome a cada 15-20 dias remessas de milhões para o Brasil e para a Venezuela. Hoje contamos com o testemunho desse consultor financeiro suíço que lavava o dinheiro da ‘Ndrangheta, porque, nesse ínterim, tornou-se colaborador de Justiça. E é ele quem explica a “posição central do Brasil” nas operações de reciclagem. Outro “arrependido” é Giacomo Lauro, expoente da ‘Ndrangheta. Há dez anos já indicara no Brasil um ponto “estratégico” no mapa do narcotráfico. Outros mafiosos calabreses estão colaborando, mas, no momento, os nomes são considerados top secret.

A primeira operação antidrogas internacional de grande envergadura, conhecida como Cartagena ou Fortaleza, se deu pouco tempo depois da realização do Campeonato Mundial de Futebol na Itália. Acabou com a apreensão de 11 toneladas de cocaína  procedentes do Cartel de Cali, com passagem por vários países sul-americanos, o Nordeste brasileiro incluído. A primeira quantidade sequestrada no Brasil, a 14 de julho de 1992, pesava 592 quilos. Tratava-se de cocaína puríssima. Entre os presos, Francesco Sculli, sobrinho-bisneto de Giuseppe Morabito, u tiradrittu, o mammasantissima (um dos cargos de maior prestígio na hierarquia mafiosa) da cosca Morabito-Mollica.

Não há dúvida de que, desde então, o Brasil foi escolhido pela ‘Ndrangheta como país de trânsito da coca, e também como base para a reciclagem do dinheiro sujo, por meio de investimentos pesados no Nordeste brasileiro em sociedade com empresários locais, principalmente empreiteiros envolvidos na construção de complexos turísticos.

Outra apreensão importante efetuada no Brasil deu-se em 2003, quando foram interceptados 225 quilos de cocaína destinados às ‘ndrinas, espécies de sucursais da máfia calabresa, de Hamburgo, a bordo do cargueiro California Luna, arrendado por uma empresa de Manaus. Segundo levantamentos dos serviços secretos internacionais, no Brasil localizam-se poderosas células da ‘ndrinas. Em Brasília, os Piromalli de Gioia Tauro, os Maesano e os Commesso de Siderno. Em Fortaleza, os Morabito de Africo.

“Praticamente toda a elite da ‘Ndrangheta tem ramificações no Brasil”, esclarece para CartaCapital Antonio Nicaso, o melhor especialista em máfia. Juntamente com Nicola Gratteri, procurador-adjunto de Reggio Calabria, publicou este ano La Mala Pianta (A Má Planta), livro-entrevista no qual revela o poder gigantesco da máfia calabresa. Explica Nicaso: “O Brasil está assumindo sempre mais o papel de país de passagem. Há muita pressão sobre a Colômbia, Peru e Bolívia, e justamente por isso registra-se por parte da criminalidade organizada a tendência crescente de deslocar o tráfico de drogas”.

A cocaína tende, pois, sempre mais, a sair do Brasil, onde está a se criar uma grande sinergia com a África. “Parte da África”, sublinha Nicaso, “é controlada justamente pelas famílias da ‘Ndrangheta que corromperam as ditaduras militares daqueles países e conseguem assim estocar a própria mercadoria. Começando por Guiné-Bissau”.

A confirmação de que agora o Brasil está se tornando um novo eldorado das rotas da droga chega nestes dias de algumas interceptações telefônicas de conversas entre camorristas e mafiosos, que se dizem entusiasmados com o País e falam das perspectivas de grandes negócios por ocasião do próximo Mundial de Futebol em 2014.

 Enquanto isso, em São Paulo, a Polícia Federal cumpriu, dia 17, 50 mandados de prisão e 38 de busca e apreensão em quatro estados, além de Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e São Paulo. Mais de 20 pessoas foram presas. A operação, batizada Operação Deserto, desenrola-se há um ano e meio, envolve sete estados brasileiros e dia 17 teve também suas primeiras vítimas. No município de Anori, a 200 quilômetros de Manaus, morreram dois policiais num confronto com traficantes. No âmbito da Deserto foram apreendidas 2,35 toneladas de cocaína, armas e munições (entre elas dez granadas antitanque) 33 veículos e uma aeronave avaliada em 250 mil reais, além de cerca de 500 mil reais em dinheiro. De acordo com a PF, estão envolvidos brasileiros, colombianos, bolivianos e europeus, e a quadrilha está baseada em São Paulo.

Para o coordenador da operação, o delegado Ivo Roberto Costa da Silva, o grupo desbaratado era uma das maiores organizações criminosas atuantes no País. Certamente foi um impacto muito grande no tráfico internacional de drogas. De acordo com ele, a quadrilha era composta de quatro células distintas e articuladas que funcionavam em sete estados e em outros países, todas sob comando de um assessor jurídico da Câmara Municipal de Pereira Barreto, no interior de São Paulo. O assessor, Massao Ribeiro Matuda, vivia em São José do Rio Preto e, para a PF, era o maior articulador entre os núcleos e a única pessoa que conhecia todos os envolvidos.

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