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Perfil - Mc Jota L

"Eu já sentia o preconceito antes"

por Samantha Maia — publicado 24/01/2014 14h36, última modificação 24/01/2014 16h18
Organizador do 1º "rolezinho" em Guarulhos fala sobre reações às brincadeiras, critica opções de lazer na periferia e conta que só foi ao cinema 3 vezes na vida
Clara Parada
Mc Jota L

Mc Jota L, o organizador do primeiro "rolezinho" em Guarulhos, foi um dos 23 jovens apreendidos e levados à delegacia sem justificativa

"O funk ostentação fala de um sonho, nem todo o Mc vive aquilo que fala. Na letra você está sonhando com o que você quer um dia ter, o que o jovem sonha ter”, diz Jefferson Luis, o Mc Jota L. Nos devaneios representados pelas letras de funk, gênero musical cada vez mais popular nas periferias de São Paulo, surgem camaros, bugattis, mansões na zona sul, hornets. Muitos jovens que frequentam os bailes comprometem seus limites do cartão de crédito com roupas de grife.

A realidade, porém, ainda é dura para a maioria desses jovens. “Não é o certo/ Dizer em letras que eu vivo ostentando/ [...] se a minha favela a cada dia piorando”, lembra Mc Jota L em sua música. Ele confessa ter se dado ao luxo uma vez de comprar um tênis de marca. “Era bonito e diziam que durava mais, e eu trabalhei para conquistar aquele tênis, mas não ligo de comprar roupa em camelôs”, diz o garoto de 20 anos que trabalha como ajudante geral.

A cultura consumista e a carência de áreas de lazer em bairros pobres contribuem para atrair adolescentes aos shoppings. Se para boa parte de seus frequentadores significa um espaço seguro e livre do caos urbano, uma espécie de ambiente “higienizado”, ele também representa para muitos jovens da periferia o local de inserção no mundo do consumo.

Há seis anos Jefferson batalha pela carreira de Mc, mas foi o "rolezinho" organizado no Shopping Internacional de Guarulhos, em dezembro do ano passado, que o tornou conhecido nacionalmente. Seus “rolês” com alguns amigos naquele centro comercial, distante 1 quilômetro da sua casa, ocorrem pelo menos há três anos. “Mas o shopping não era um lugar confortável, sempre via aquele olhar diferente dos seguranças, porque a gente é pobre. É fácil falar de fora que a gente sempre vai ao shopping, mas eu já sentia preconceito antes.”

Morador da Vila Esperança, comunidade de 1 mil moradores, Jefferson divide um cômodo de cerca de 20 metros quadrados com mais quatro pessoas: um irmão de 18 anos, uma irmã de 22 e dois sobrinhos, de 2 e 4 anos. Ostentação, para ele, seria conseguir dar uma qualidade de vida melhor para a sua família. Sua mãe, o padrasto e mais dois irmãos, de 15 e 11 anos, vivem perto, numa casa também de um cômodo alugada por 300 reais.

O consumo do jovem em suas visitas ao centro de compras vizinho costuma se restringir a um sorvete de casquinha. Foi justamente o que consumiu em sua breve e conturbada estadia no Internacional de Guarulhos no dia 15 de dezembro do ano passado. Há quinze anos mora perto do shopping, mas foi ao cinema apenas três vezes na vida. A primeira com a escola, a segunda como presente de aniversário ao irmão mais novo, e a terceira com uma amiga.

O shopping é o único espaço de lazer gratuito nas redondezas. O rolezinho serviria para encher aquele espaço com pessoas do seu grupo, deixar de ser o estranho ali, fazer amigos e, principalmente, paquerar. “Se eu for ao shopping hoje, não vou encontrar pessoas iguais a mim. Vou encontrar quem vai lá para comprar, rica, e dificilmente vou conseguir conhecer essas pessoas. Vão me olhar e pensar que eu sou favelado. Eu tenho receio de conversar com pessoas de alto nível.”

Jefferson foi um dos 23 jovens apreendidos e levados à delegacia sem justificativa. Mas não aceita entrar em detalhes por respeito à mãe, que teme haver mais problemas. A situação não é nada diferente, porém, do que ele vê em seu dia a dia. Viu amigo ser expulso do shopping por estar de chinelo, e já precisou dar explicações para a polícia por sair de casa correndo para empinar pipa. “O preconceito é esse. Se eu convidasse um monte de gente rica para ir ao shopping, você acha que iam entrar com polícia tirando todo mundo para fora? O dono do shopping seria capaz de me procurar para chamar mais gente. Porque dá lucro.” Jefferson acredita, pelos relatos que ouviu, que a correria no dia do seu rolezinho começou por conta da presença ostensiva da polícia no local. “Eu estava animado, vi bastante menina bonita, pessoas diferentes, estava tudo sendo legal, mas infelizmente aconteceu o que aconteceu. Acho que ver um monte de moleque de boné, bermuda larga, negro, no shopping, deixou eles com medo.”

A reação desproporcional dos seguranças dos shoppings e da polícia aos rolezinhos acabou por levar a uma discussão maior sobre direitos e preconceito. “Como o rolezinho tomou essa proporção, deu mais voz aos jovens. Antes não tínhamos como expressar que faltavam opções de lazer na periferia.” Segundo Jefferson, a maioria dos jovens está com medo de voltar para o shopping depois do que aconteceu. Ele pretende ficar um tempo longe, e não quer mais organizar novos rolezinhos. “Não é que não é o lugar, mas não deu muito certo, e as pessoas estão com medo de pagar multa.”

Depois de dois anos sem frequentar a escola para ajudar no sustento da casa, ele vai se matricular no supletivo para terminar o colegial e trabalhar de manhã. Como novo projeto, pretende se engajar na produção de um vídeo que mostre como é difícil o acesso a áreas de lazer gratuitas em Guarulhos (SP). “Preconceito para mim é não aceitar a felicidade das outras pessoas. Esse rolezinho serve para alertar o governo e a prefeitura, para olhar para a gente e ver que estamos com carência de áreas de lazer.”

Confira no vídeo abaixo a entrevista que Jefferson concedeu em sua casa à CartaCapital.

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