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Esquizofrenia: risco de perigo ou de preconceito?

por Luís Fernando Tófoli — publicado 05/02/2014 14h44, última modificação 05/02/2014 17h38
A precoce e inesperada partida do documentarista Eduardo Coutinho não deve justificar o aumento do estigma aos portadores de esquizofrenia
Agência Brasil
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O documentarista foi assassinado por seu filho, que era esquizofrênico

A notícia da morte de Eduardo Coutinho, esfaqueado por seu filho neste domingo (2/2), me deixou imensamente triste. Coutinho era um mestre da entrevista tão genial que, durante onze anos, usei a exibição do brilhante “Edifício Master” como recurso didático para ensinar a estudantes de Medicina a importância de se conhecer a história de vida dos pacientes e a arte de como fazê-lo. No entanto, não bastassem as circunstâncias trágicas, há algo que também me magoa nesse ocorrido, enquanto psiquiatra.

Pelo relato da política, há fortes indícios de que o filho de Eduardo Coutinho, Daniel, cometeu o crime motivado por um surto psicótico. Sem ainda uma confirmação clara de um diagnóstico, fala-se que ele padeceria de esquizofrenia, um transtorno mental que leva um grande retraimento social e cujos portadores apresentam, quando em crise, sintomas psicóticos (ouvir vozes, ter delírios). Nesse meio tempo, por conta do crime, já apareceram nas redes sociais e na conversa cotidiana declarações preconceituosas sobre as pessoas com transtornos mentais e sobre como elas seriam um “perigo para a sociedade”.

Num contexto social onde a palavra ‘esquizofrênico’ é usada como xingamento e diante do claro estigma que já existe em relação a esse problema de saúde, é importante esclarecer sobre a real periculosidade de quem tem o diagnóstico de esquizofrenia. Apesar de, eventualmente, os portadores dessa doença cometerem crimes violentos, alguns dados precisam ser reforçados.

Em primeiro lugar, o risco de uma pessoa ser atacada por um estranho que seja portador de esquizofrenia é menor que o de ser atacado por um estranho não-psicótico. Segundo, em números absolutos, pessoas que não são esquizofrênicas cometem muito mais crimes do que as pessoas com esse diagnóstico. Não há estatísticas brasileiras, mas considerando o número de crimes violentos que temos em nossa sociedade, é bastante seguro dizer que também proporcionalmente os esquizofrênicos cometem menos crimes do que as pessoas ‘normais’. A maioria absoluta dos portadores dessa doença são pessoas pacatas e que sofrem muito com os sintomas que vivenciam, tanto que um número bastante grande deles comete suicídio.

Infelizmente, o caso da família Coutinho segue a regra conhecida de que é muito mais frequente que psicóticos cometam crimes violentos contra pessoas próximas. Não estão claros os detalhes em relação ao ocorrido – e talvez eles devam ser mantidos longe do olho público para não tornar essa história ainda mais amarga – mas é importante saber que os riscos são praticamente nulos quando o paciente está em tratamento correto e quando ele se abstém do uso de drogas, especialmente o álcool. Outra coisa que ajuda é que a família tenha recebido o que chamamos de psicoeducação, e assim esteja atenta aos sinais precoces de surto, algo que não costuma acontecer – diferente dos que as pessoas pensam – simplesmente ‘do nada’.

Outro ponto importante a se reforçar é que não se trata, provavelmente, de um crime comum, e a lei tem formas diferentes de lidar com ele. Se comprovado que Daniel não tinha consciência da ilicitude de seu ato, por conta dos sintomas psiquiátricos, ele será declarado inimputável e sua pena será transformada em medida de segurança. O risco, em um caso desses é que o autor do crime vá parar, sem necessitar, em um hospital de custódia (manicômio judiciário). Se o sujeito estiver em tratamento, e se quando em tratamento não houver risco, não há razão para que essa medida de segurança não seja aplicada em tratamento ambulatorial. Vamos torcer para que a justiça carioca seja precisa nesse caso (e também que a imprensa não atrapalhe).

A mulher de Coutinho, Maria das Dores, ainda está em estado que inspira cuidados. Tenho a esperança de que ela se recupere e a família consiga se reconstruir diante desse trágico ocorrido, o que pode ser facilitado pelo cuidado de profissionais de saúde competentes, agindo no momento certo. Não tornemos a perda de Coutinho – que era uma pessoa que tinha um grande fascínio e respeito pelo complexo fenômeno humano – mais triste do que ela já é.  Os portadores de esquizofrenia e de outros transtornos mentais graves necessitam de compreensão e de serviços de saúde que atendam as suas necessidades, e não de mais preconceito.

 

 

* Luís Fernando Tófoli é médico e professor de Psiquiatria da UNICAMP.