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Entenda o escândalo da Fifa e da CBF

Uma investigação de autoridades norte-americanas deixa as entidades de joelhos
por Redação — publicado 27/05/2015 19h44, última modificação 27/05/2015 22h02
AFP
Corrupção na Fifa

Os sete presos na Suíça, que serão extraditados para os EUA: Rafael Esquivel, Nicolas Leoz, Jeffrey Webb, Jack Warner, Eduardo Li, Eugenio Figueredo e José Maria Marin

O que é o escândalo da Fifa?

Há anos existem denúncias de corrupção envolvendo a Fifa. Nesta quarta-feira 27, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, o FBI (a polícia federal dos EUA) e a I.R.S. (equivalente à Receita Federal) revelaram uma investigação sobre crimes como extorsão, fraudes financeiras e lavagem de dinheiro.

Por que as autoridades norte-americanas estão investigando o caso?

Porque boa parte da propina foi paga ou recebida usando instituições norte-americanas, como os bancos Delta, JP Morgan Chase, Citibank e Bank of America, ou filiais nos EUA de instituições estrangeiras, como os bancos brasileiros Itaú e Banco do Brasil.

Sete prisões foram realizadas na Suíça. Por quê?

As autoridades suíças estão colaborando com as norte-americanas, em parte porque a Fifa é sediada na Suíça e em parte porque a instituições financeiras suíças também foram usadas para transferir o dinheiro dos subornos, como os bancos Julius Baer e Hapoalim.

Entre os 14 indiciados, quantos estão envolvidos com a Fifa?

Nove são ou foram dirigentes da Fifa.

Jeffrey Webb, presidente da Associação de Futebol das Ilhas Caimã, da Concacaf e um dos vice presidentes da Fifa;

Eduardo Li, presidente da federação de futebol da Costa Rica e integrante do Comitê Executivo da Fifa;

Julio Rocha, presidente da federação de futebol da Nicarágua;

Costas Takkas, assessor de Jeffrey Webb;

Jack Warner, ex-vice-presidente da Fifa e ex-presidente da Concacaf; e ex-ministri

Eugenio Figueredo, ex-presidente da federação de futebol do Uruguai, atualmente um dos vice-presidentes da Fifa e membro do Comitê Executivo da entidade;

Rafael Esquivel, presidente da federação de futebol da Venezuela;

José Maria Marin, ex-presidente da CBF;

Nicolás Leoz, ex-presidente da Conmebol

E os outros, quem são?

Alejandro Burzaco, controlador da Torneos y Competencia, empresa argentina de marketing esportivo

Aaron Davidson, presidente da subsidiária da Traffic nos EUA

Hugo e Mariano Jinkis, controladores da Full Play, outra empresa argentina de marketing esportivo

José Margulies, controlador da Valente Corp. and Somerton, empresa de comunicações

Já há condenados pelo caso?

Sim, as pessoas e empresas que fizeram acertos sigilosos com as autoridades argentinas. Entre elas estão os filhos de Jack Warner, Daryll e Daryan Warner; Charles Blazer, norte-americano que foi secretário-geral da Concacaf; e o empresário brasileiro J. Hawilla, bem como suas duas empresas, a Traffic International e a Traffic USA.

E quem é J. Hawilla?

Figura bastante influente do futebol brasileiro, J. Hawilla se tornou famoso no ano 2000, quando ajudou a organizar o primeiro Mundial de Clubes da Fifa, vencido pelo Corinthians, então parceiro da Traffic. A Traffic ainda hoje é dona de direitos de transferência de jogadores de futebol, de times e também vende os camarotes do Allianz Parque, estádio do Palmeiras, em São Paulo. No acordo em que fez com as autoridades dos EUA, Hawilla confessou sua culpa e concordou em devolver US$ 151 milhões.

E quais são as acusações contra José Maria Marin?

Marín, que presidiu a CBF entre 2012 e 2015, aparece em dois dos 12 esquemas listados pelas autoridades dos Estados Unidos.

José Maria Marin
José Maria Marin durante jogo do Brasil contra o Chile na Copa do Mundo, em 28 de junho

Que esquemas são esses?

O primeiro deles envolve os direitos de transmissão da Copa América, competição de seleções sul-americanas, para os anos de 2015, 2019 e 2023, além da edição especial, chamada Centenário, de 2016, que será realizada nos EUA. A Datisa, uma empresa formada pela Traffic, do brasileiro J. Hawilla, e duas companhias sul-americanas, comprou os direitos de transmissão dessas quatro edições da Copa América por US$ 352,5 milhões e teria aceitado pagar outros US$ 110 milhões em propinas para os presidentes das federações sul-americanas: seriam US$ 20 milhões pela assinatura do contrato, US$ 20 milhões por cada uma das edições de 2015, 2019 e 2023 e mais US$ 30 milhões pela edição especial centenário. Desses US$  110 milhões, US$ 40 milhões já teriam sido pagos e Marin teria embolsado US$ 6 milhões.

O primeiro envolvia a transmissão da Copa América. E o segundo esquema do qual Marín teria feito parte?

O segundo esquema envolve a Copa do Brasil, torneio anual de clubes brasileiros. Segundo a acusação, a Traffic pagava a Marin e outros dois dirigentes da CBF R$ 2 milhões por ano pelos direitos de transmissão da Copa do Brasil. De acordo com a denúncia do FBI, em 2014 Marin se encontrou com J. Hawilla e foi questionado sobre a necessidade de a propina continuar fluindo para seu antecessor na CBF (Ricardo Teixeira). “’Já é tempo de vir na nossa direção [a propina]. Certo ou errado?’ O Co-Conspirador #2 [J. Hawilla] concordou dizendo  ´Claro, claro, claro. Esse dinheiro tem que ser dado a você. Marin concordou: ´É isso. Está certo’”. 

Então além de Marin, Ricardo Teixeira é citado?

Na ação contra Marin há uma referência direta a seu “antecessor como presidente da CBF” como receptor de propinas do esquema existente na Copa do Brasil. Isso deixa claro que trata-se de Ricardo Teixeira, que presidiu a Confederação Brasileira de Futebol entre 1989 e 2012.

No inquérito contra J. Hawilla não há essa citação direta ao antecessor de Marin, mas o empresário brasileiro afirma que pagou, entre 1990 e 2009, propina pelos direitos da Copa do Brasil “de tempos em tempos” a uma pessoa designada como “co-conspirador número 13”, designado como um integrante de “alto nível” da Fifa e da CBF e membro da Conmebol, descrição que também se encaixa à de Teixeira.

E o suposto esquema envolvendo contrato da Nike com a CBF aparece no esquema?

Sim. Tanto no inquérito em que J. Hawilla é citado quanto no que Marin é citado há espaço para o caso. Segundo as autoridades, Ricardo Teixeira e J. Hawilla negociaram o contrato com a Nike para a empresa norte-americana se tornar a fornecedora de material esportivo da seleção brasileira. Fechado em 1996 e com validade de dez anos, o contrato era avaliado em US$ 160 milhões.

Desse valor, US$ 40 milhões deveriam ser enviados diretamente pela Nike à Traffic, mas US$ 30 milhões chegaram à conta da empresa na Suíça. Metade desse valor, afirma J. Hawilla, foi entregue para Teixeira.

E Marco Polo del Nero, o atual presidente da CBF, está envolvido?

No inquérito contra Marin, as autoridades norte-americanas afirmam que ele e um outro dirigente da CBF, identificado como “co-conspirador número 12”, teriam pedido dinheiro a J. Hawilla para continuar entregando à Traffic os direitos de transmissão da Copa do Brasil. Neste documento há apenas uma outra citação ao “co-conspirador número 12”, que aparece como destinatário de parte da propina recebida pela venda de direitos da Copa América.

No inquérito sobre J. Hawilla, o mesmo caso é descrito, mas os números dos “co-conspiradores” mudam. O empresário diz que pagava propinas ao “co-conspirador número 13”, já identificado como Ricardo Teixeira, e que depois recebeu pedidos de pagamento de dois outros dirigentes da CBF, nomeados “co-conspirador número 15” e “co-conspirador número 16”. O “15” é Marin, por aparecer como oficial de alto nível da CBF e membro da Fifa e da Conmebol. O “16”, identificado como oficial de alto nível da Fifa e da CBF, pode ser Del Nero, uma vez que ele era vice-presidente da CBF antes de presidi-la e, desde 2012, integra o Comitê Executivo da Fifa.

Houve corrupção na escolha da África do Sul como sede da Copa do Mundo de 2010?

Segundo a procuradora-geral dos EUA, Loretta E. Lynch, sim, e o caso está sob investigação. "Em 2004, começou a campanha para a escolha da sede do Mundial de 2010, que acabou por ser atribuído à África do Sul, a primeira vez que o continente africano acolhia o torneio. Até para este evento histórico, dirigentes da Fifa e outros corromperam todo o processo recorrendo a subornos para influenciar a escolha do anfitrião” afirmou. 

E há esquemas envolvendo a Copa do Mundo de 2014?

De acordo com Loretta E. Lynch, não foram encontradas "condutas impróprias" a respeito do mundial organizado pelo Brasil, mas o torneio está sob investigação.

E as Copas de 2018, na Rússia, e 2022, no Catar?

Segundo as autoridades norte-americanas, essa investigação está transcorrendo na Suíça.