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Enfado e erros

por Socrates — publicado 18/07/2011 15h55, última modificação 18/07/2011 15h55
Há erros de projeto no time brasileiro. Nada disso é, porém, razão para o marasmo com que a time se mostrou na maior parte das partidas. Parecia até enfadonho jogar na Seleção

Texto publicado na sexta-feira 15, antes das semifinais da Copa América 2011

Creio que os resultados das partidas da Copa América até aqui dizem tudo. Não é necessário repetir que os caminhos trilhados pelas seleções sul-americanas (por consequência das filosofias adotadas) nas últimas décadas são absolutamente enganosos e os desperdícios em qualidade e beleza mostram-se com clareza. Vejamos então as duas primeiras partidas da Seleção Brasileira. Os escalados mostravam um time leve, rápido, envolvente e alegre. E foi o que mostraram em vários momentos. Foram períodos de quem sabe o que quer, demonstrando superioridade evidente e criação de várias situações de gol não convertidas, em geral, por egocentrismo (talvez para mostrar a empresários e dirigentes estrangeiros mais do que todos já sabem).

Há, porém, erros de projeto mais que evidentes. Como, por exemplo, colocar Paulo Henrique “Ganso” e Ramirez na mesma equipe. Ou se opta por um time de toque de bola ou um que carrega a bola até perdê-la. Esse tipo de associação com jogadores de características diferentes é até passível de boa convivência caso eles tenham funções específicas diferentes, como é o caso de um atacante puro e um meio-campista. De outra forma, nada feito. Outro erro de projeto: engessar Ganso em determinada posição no campo e, pior, mais avançado do que deveria. Nada disso é, porém, razão para o verdadeiro marasmo com que o time se mostrou na maior parte dessas partidas. Parecia até enfadonho jogar na Seleção.

A Seleção Brasileira errou em sua proposta no jogo de estreia, já que limitar a movimentação de seus jogadores de criação foi uma opção que impediu a liberdade para seus melhores atletas, e todos nós sabemos que sem ela não há alegria, a movimentação adequada, a conquista de espaços e a independência nas escolhas das jogadas. Mas o outro gigante do continente fez muito pior: descobriu (tardiamente, é bom que se frise) que assim como o Barcelona necessita de Lionel Messi, o grande craque do momento precisa e muito do estilo de jogo da equipe catalã. Então resolveu que a seleção do país vizinho deveria jogar como o vencedor da Copa dos Campeões da Europa para favorecer a qualidade do jogo de seu melhor jogador. Só se esqueceram de um porém: é impossível transformar a forma de jogar de um time da noite para o dia e é inviável modificar toda uma cultura futebolística como se mexem botões em um tabuleiro qualquer. E acabaram como era de se esperar, desiludindo a si próprios e aos seus fãs. Não conseguiram nada de novo e perderam o que possuíam anteriormente. Por consequência, o futebol apresentado até aqui foi medíocre e incapaz. É difícil de entender essa lógica, pois a história do futebol dos dois países é invejável e incomparável. Tentar ser o que jamais seremos e deixar de ser o que sempre fomos é uma forma absurda de suicídio esportivo e cultural. Nunca, mas nunca mesmo (principalmente os brasileiros), -seremos organizados como os -europeus.

Já na última partida dessa primeira fase, os argentinos resolveram mudar tudo. Tiraram quem estava emperrando a equipe de jogar como pode, principalmente pela falta de qualidade dos adversários, e colocaram jogadores mais criativos para- poss-ibilitar maior velocidade ao time e com isso facilitando o trabalho do melhor jogador do mundo. E este não decepcionou, mostrou por que é tão badalado e como se pode jogar futebol nos dias de hoje mesmo sem ter físico de velocista ou resistência de maratonista. E foi um show. Lionel Messi pôde desfilar todo o seu talento pelos quatro cantos do campo e cansou de oferecer oportunidades de gol aos companheiros.

A alegria contida que demonstrou logo após o final do confronto contrasta com a derrota e os dias de angústia pelos quais passou até chegar a sua hora. A partir dali pôde, finalmente, comemorar junto aos seus. Sorriu, pulou e calou a repugnante reação de quem não o quis ouvir, sentir, chorar. Repeliu a dor que explodiu dentro do peito com energia incalculável. Resgatou o amor mais sentido, mais sensível, mais saudoso. Afastou aquela angústia inexplicável que o corroía, limitava e instigava.

Felizmente para cada cara há uma coroa que nos acaricia, acolhe, envolve. Isso tudo em segundos. E quando acontece é simplesmente o máximo da emoção que pode ser vivida pelo homem.

O futebol é arte e feito de emoção humana. No dia em que isso deixar de acontecer teremos aí a morte anunciada da espécie.

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