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Sociedade

Crônica do Menalton

Em busca do tempo perdido

por Menalton Braff publicado 03/05/2014 12h59
Quanto tempo da minha vida estava jogando fora por semana, por mês, por ano? Os resultados me deixavam os fios restantes de cabelo de pé, completamente pálidos

Houve um tempo, já um pouco distante, em que fui perseguido tenazmente por uma mesma pergunta. Também tive meus quinze segundos de fama, ouviu, Andy Warhol. E não quinze minutos, entendeu? Nas dezenas de entrevistas a que fui submetido, lá vinha ela. Já parecia que a quilometragem rodada por semana era o principal traço de meu caráter. Dezenas de vezes tive de responder que rodava mil e quinhentos quilômetros por semana. E isso não pareceria nada estranho aos repórteres se eu fosse um motorista profissional: era professor. Mas à força de tanta repetição, a pergunta começou a pegar significado. Repetitio mater sapientia est, dizia minha velha professora de latim, a dona Zilá, repetindo os romanos antigos, conceito que, nestas épocas em que a memória quase descendeu à condição de vício humano (como se fosse possível a sobrevivência sem ela), é bom que se repita de vez em quando.

O significado que a pergunta começou a formular em minha consciência, contudo, eclodiu passado algum tempo, quando uma repórter de sobrolho erguido, com ar meio incrédulo, acrescentou, Mas então quantas horas o senhor passa dentro do carro a cada semana? Pronto, estava estabelecido o conflito íntimo. A partir de então comecei a fazer cálculos, a estabelecer porcentagens, comecei a me torturar. Quanto tempo da minha vida estava jogando fora por semana, por mês, por ano? Os resultados me deixavam os fios restantes de cabelo de pé, completamente pálidos. Muito nítida a sensação de que eu era um perdulário da própria vida.

Torturei-me durante algumas semanas com essa idéia. Pensei até em mudar de profissão. Jogar fora pela janela das estradas meu precioso tempo pareceu-me de uma irresponsabilidade sem perdão.

Dias depois me lembrei de um poema daquele mágico que nós chamávamos de Mário Quintana, e que hoje brilha ali perto do Cruzeiro do Sul. Um poema lido há muitos anos e nunca mais encontrado. Era sobre a passagem do trem por uma estaçãozinha. Havia os que chegavam e havia os que partiam. Além deles havia os que não chegavam nem partiam, apenas ficavam olhando as pessoas nas janelas do trem e sonhando com o mundo além, o mundo possível se houvesse a coragem de partir. E ele arrematava com uns poucos versos em que dizia não importar a estação de partida nem a de chegada. O que vale mesmo, dizia o mago do Caderno H, é a viagem. O Guimarães Rosa também disse isso, mas hoje é uma estrela ali perto da constelação de Centauro bordando palavras.

A vida, meu caro, a vida aprende-se é na poesia. Os poetas são estes seres de olhar assustado porque veem tudo e, de vez em quando, quase que distraidamente, erguem uma pontinha do tapete para que vejamos um pouquinho do lado de lá.

O poema do Mário Quintana devolveu-me a paz. Sem me sentir culpado por estar jogando fora a vida pela janela do carro, voltei a usar o tempo das travessias, em que o corpo estava preso e condicionado a uns poucos movimentos mecânicos, para soltar a imaginação. Assim foi que, no azul do céu quase sempre azul debaixo do qual costumava viajar, começaram a surgir revoadas de palavras que aos poucos e aos bandos se combinavam, pintavam cores e formas, botavam algumas idéias respirando e de pé.

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