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Cynara Menezes

Elogio ao loser

por Cynara Menezes — publicado 01/12/2011 18h44, última modificação 06/06/2015 18h56
Perder ou ganhar está mais no olhar do outro do que no nosso próprio. É vencedor quem chora, vacila, teme, cai e corajosamente admite e novamente ri, avança, supera e levanta
charliebrown

Você é um vencedor Charlie Brown

"Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo", escreveu nos anos 20 Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, no "Poema em Linha Reta". Nos anos 1950, tudo indica que foi Charlie Schultz quem lançou a gíria "loser" (perdedor) a partir de uma tira de seus quadrinhos Peanuts (Snoopy no Brasil). "Because you're a loser, Charlie Brown", diz a gozadora Lucy ao amigo, quando ele pergunta por que sempre caía no mesmo velho truque dela: derrubá-lo, puxando a bola de futebol americano que iria chutar.

Ou pode ter sido o contrário: Schultz popularizou o termo "loser", que os estudantes começavam a usar como gíria. Não importa, se até então a palavra só tinha o significado de contrário a vencedor,  a partir dessa época passou a designar um determinado tipo de pessoa nos Estados Unidos: para alguns, um infeliz digno de pena, sem sorte, sem valor. Mas isso é dizer pouco do loser. É verdade que ele leva a pior algumas vezes, mas não é apenas o cara que não ganha, e sim o que não se importa em ganhar. Ao contrário do que muitos pensam, o loser pode chegar lá – mas o que o moveu não foi chegar.

Adoráveis losers como Charlie Brown sempre estiveram no imaginário americano, para causar conforto ou desprezo em seus conterrâneos. Os personagens de Woddy Allen, dos irmãos Coen, principalmente O Grande Lebowsky, Robert Crumb ele próprio e seus quadrinhos, um pouco Homer Simpson também, num sentido mais americano médio, e Forrest Gump, o loser lúdico. Não lembro de mulheres losers. Elas, ainda que belas e eles nem tanto, são as que se apaixonam pelos losers, o loser é um conquistador à sua maneira, tem um não sei quê de dar vontade de botar no colo e fazer cafuné.

Há um charme qualquer em quem se move pela vida cheio de dúvidas, indecisões, questionamentos e incertezas, mais do que com ambição e vaidade. Os brilhos dos ouros encantam alguns, mas não todos. Há gente que percebe ser o passageiro disso tudo e se distrai olhando o horizonte, cheirando o café ou andando na areia úmida. Perder ou ganhar está mais no olhar do outro do que no nosso próprio. Para mim é um vencedor aquele que chora, vacila, teme, cai e corajosamente admite e novamente ri, avança, supera e levanta. A vida é mais verdadeira neles.

Falei que não lembrava de mulheres losers, eu mesma sou uma loser. Fiz escolhas na vida sempre ouvindo o coração, e ele sempre acertou por onde me guiou. O coração tem uma campainha para avisar dos perigos; o bolso, não. Uma vez me falaram de um ditado persa que diz assim: "É nos lugares pequenos que se fazem coisas grandes". Serve para mim. Não preciso de muito dinheiro, graças a Deus. E não me importa, diriam dois filósofos daqui mesmo.

Às vezes fico pensando que os losers estão acabando, que é algo démodé não desejar conquistar tanto nem tantas coisas, que é coisa do passado querer ir mais ao sabor do vento do que com a trilha toda já predestinada ou almejada. Que nessa vida só há lugar para os vencedores. E às vezes penso justamente o contrário, que tantas crises econômicas das quais eu e metade do mundo não entendemos patavina vieram para ficar, que uma hora o troço será tão vertiginoso que vai tudo começar a cair. Quanto mais alto se sobe, mais feio é o tombo. Quem será o winner e quem será o loser então, Charlie Brown?

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