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Sociedade

Manifestações

E agora, aonde vamos?

por Matheus Pichonelli publicado 22/06/2013 09h58, última modificação 22/06/2013 13h45
O discurso 'anti-Política' não pode se apropriar de um movimento vitorioso. Seria um caldo perigoso para soluções autoritárias
Agência Brasil
Protestos

O recado dos manifestantes foi dado: é preciso aperfeiçoar o sistema de representação

“Por que esses manifestantes não vão às ruas protestar contra algo mais nobre do que 20 centavos? Por exemplo, a redução da maioridade penal”. Ouvi, incrédulo, a frase rosnada por um ator-apresentador de telejornal do SBT. Mudei de canal e vi um jornalista-apresentador da TV Globo questionando se era justo uma cidade de 11 milhões de habitantes ser paralisada por um grupo de cinco mil pessoas indispostas a aceitar o reajuste das tarifas de ônibus.

Àquela altura, ainda no início das manifestações que tomariam o País, nada parecia mais sintomático da miopia expressa pelos veículos de massa: o utilitarismo primário (diria canalha) em um caso, e a noção torta de proporção, em outro. Era como se tentassem dizer, antes mesmo de qualquer autoridade se pronunciar sobre o assunto, o que era digno ou não de ser levado a sério. A preocupação era com a ordem, o trânsito, a volta para casa. Com cães-de-guarda desse calibre, nenhum governante precisaria de advogado caso tudo permanecesse como estava. Por sorte, não permaneceu.

A miopia de quem não demonstrava entendimento sobre um movimento que tomava forma levou um Brasil inteiro a entrar sem caneleiras em um debate quase primário: ir à rua ou seguir no sofá? Era um imperativo quase moral.

Até que, na semana retrasada, os que tomaram a primeira decisão foram covardemente agredidos por uma polícia ironicamente escalada para conter o caos espalhando o terror. Eram tantas bestas-feras da Tropa de Choque que sobrou para todo mundo, de manifestantes e jornalistas a pedestres que num instante de infelicidade passavam pelo local.

Foi quando o jogo virou.

Naquele momento, até os cadáveres insepultos que dormitavam no sofá da sala perceberam que o problema era também com eles. Por que estavam indispostos a pagar 20 centavos a mais para andar de ônibus? Também, mas não só.

A rebeldia levada às ruas ganhou, nos dias seguintes, ares de um levante. Angariou apoio popular e musculatura. Estava baseada ainda na gritaria contra os serviços públicos de transporte, mas com ingredientes extras que transcendiam a causa inicial. A bronca era direcionada a uma velha forma de se fazer política, na qual os eleitos governam como bem querem e os eleitores obedecem como não querem. Em todos os cantos era possível observar uma demanda clara de aperfeiçoamento democrático. “Queremos ouvir e ser ouvidos”, diziam, nas entrelinhas. Mais: “queremos ouvir e ser ouvidos sem ser estraçalhados pela sua ordem”.

No bojo das manifestações, houve espaço para broncas até ontem invisíveis, a começar pelo descaso com a periferia, vítima preferencial do sucateamento dos serviços públicos, ruas, redes de esgoto, deslizamentos, enchentes. Com toda razão, todos queriam aproveitar os 15 minutos de visibilidade para se fazer ouvir.

O sucesso da empreitada, nesse sentido, foi incontestável. Os jovens da causa inicial foram ouvidos. Foram também atendidos por prefeitos de dezenas de cidades do País – entre eles o de São Paulo, epicentro das manifestações, que chamou a redução das tarifas de “medida populista” mas, de olho nas reações, cedeu. Na sexta-feira 21, os manifestantes receberam um recado, em rede nacional, de ninguém menos que a presidenta da República, que se dispôs a debater e encaminhar um Plano Nacional de Mobilidade Urbana em parceria com estados e municípios. Se isso não for uma conquista, é preciso criar um novo verbete para a palavra: a campanha contra os 20 centavos acabava de se transformar em um debate, agora institucionalizado, sobre a cidade  ser construída, com mais respeito ao passageiro, menos morte no trânsito, menos espaço à individualidade e mais dignidade ao espaço público.

Essa é a parte nobre da história.

A parte ruim, fora os atos de vandalismo, pancadaria e depredação promovidos por quem nasceu sem o gene do timming, ficaram por conta de quem espalhou, em atos ou discursos (nas ruas ou redes sociais) o maior desencontro entre fatos, evidências e compreensão social da história recente. Na tevê, houve um exercício elástico e doloroso para colar nos movimentos uma nova versão dos cara-pintadas que rejeitavam, no início dos anos 1990, um presidente paraquedista já devidamente isolado e bombardeado por imprensa, partidos, base aliada, motorista particular e até pelo irmão. Longe do foco de quem pedia foco, a tevê que no princípio rechaçou a suposta desordeu espetou microfones no rosto de pessoas que, provavelmente, não saberiam listar um único nome de operação policial que detonou esquemas nos últimos anos e, ainda assim, dizia ir às ruas com as cores da bandeira para encerrar de vez “essa corrupção no Brasil”. Como se, no dia seguinte, corruptos e corruptores, comovidos com os apelos, recorressem às igrejas para ajoelhar, chorar e pedir perdão. (Um amigo, mais atento ao estado das coisas, responderia com ironia à ingenuidade avassaladora das redes: “Ser contra a corrupção não é virtude. Equivale a ser contra a malária. Não há outra opção”).

Naquele momento, em que todos pareciam urrar contra tudo o que está aí, a estratégia inicial – e louvável do Movimento Passe Livre, detonador da letargia, ainda dispostos a mudar as coisas sem perder nem minimizar o foco – começava a ir para o vinagre justamente em seu ápice. Não porque faltavam motivos ou disposição para se revoltar. Mas porque, a certa altura, elementos básicos de uma mudança de fato (no caso, para além das formas tradicionais de representação e da livre expressão) começaram a rarear, a começar pela compreensão histórica do momento. Para que se começasse a pedir o fim dos partidos políticos e o impeachment (oi?) de autoridades democraticamente eleitas foi um passo. Os novos rebeldes a reforçar a causa inicial – sim, eram os 20 centavos, mas também a atenção e respeito público que acabavam de conquistar – não pareciam ter ideia de que estavam criando um caldo que, em toda a História, pavimentou o caminho para as soluções autoritárias. Ignoravam que o povo unido é sim demonstração de força, mas não necessariamente sinônimo de conquistas: sem instituições consolidadas e organizadas – como os partidos políticos agora defenestrados, os sindicatos e as organizações sociais atuantes– se torna presa fácil para regimes ditatoriais. Tira-se um nó para, no lugar, colocar um fosso. É quando Maio de 68 vira Março de 64.

Em um caso como no outro, a insatisfação, quase sempre justa, ganha voz e força. Mas quando acerta o alvo errado, a solução possível é de reação, não ação: é quando as demandas ficam aquém do que já existe e não além.

Neste instante parece, mas não é, desnecessário dizer que não precisamos de menos políticas públicas nem de menos eleições nem de menos políticos. Precisamos de políticas públicas eficientes, de garantias de participação nas decisões e de representantes atentos, dispostos a dirimir o fosse existente (e ainda abismal) entre ricos e pobres das nossas cidades. Ir às ruas para se queixar de pagar impostos (os mesmos que financiam políticas afirmativas, que parte da multidão até ontem fazia bico) não vai ajudar a construir hospitais nem garantir campanhas de vacinação nem leitos em hospitais nem metas de valorização do ensino público. Pressionar o deputado e senador que recebeu seu voto a apoiar o direcionamento dos recursos do pré-sal para a educação, sim. Tomar conhecimento da proposta, também. As instituições estão aí para serem aperfeiçoadas e os políticos, para serem cobrados.

Os atos iniciados em São Paulo e espalhados pelo País escancararam o descompasso entre representantes e representados. Os manifestantes exigiram uma correção de rota e foram ouvidos. Deixaram, em troca, um recado: podemos tomar as ruas novamente – a um ano da eleição, os estragos podem ser devastadores para quem não tiver ouvidos para ouvir nem olhos para ver. É esse o recado que deveria ser dado – e o foi, aparentemente, com sucesso. Qualquer passo aquém dessa nova relação que se configura é reacionarismo, ignorância ou má-fé. E à História não faltam exemplos sobre a que (não) nos levaram o reacionarismo, a ignorância e a má-fé. No caso brasileiro, já vivemos a tragédia. Passaremos muito bem sem a farsa.

PS: Nada parece mais contraditório do que cantar eu-sou-brasileiro-com-muito-orgulho-com-muito-amor em uma passeata a princípio organizada para dizer que não estamos felizes com tudo-isso-que-está-aí. Até porque a música, um atraso entre tantas canções mais criativas, já foi usada em propaganda de produto licenciado da Copa, em tese um dos alvos dos protestos contra os extravagantes gastos públicos na brincadeira. A parcela de rebeldes incapaz de criar novos hinos para novas causas me faz lembrar a sentença de Caetano Veloso ao pedir a desclassificação da sua música “É Proibido Proibir” num já distante Festival Internacional da Canção: “se vocês em política forem como são em estética, estamos fritos”. A pancadaria contra quem levantou bandeiras políticas na manifestação da quinta-feira 20 – um constrangimento em si facilmente combatido pelo silêncio da vergonha alheia – parece a confirmação de uma profecia.